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Fevereiro de 2018

Portugal: Onde o passado encontra o futuro
Por: CARLOS REIS, jornalista



Testemunho com valor de civilização ou de cultura, o património material e imaterial deve ser objecto de especial protecção e valorização. Os bens culturais asseguram a transmissão de uma herança, cuja continuidade e enriquecimento une gerações.

 

 

Nas comunidades que forma, o Homem propende a criar um legado ou herança, que vai além do simples conjunto de bens económicos. Os bens culturais transcendem o efémero e configuram um património histórico-cultural, que resulta da atribuição aos objectos de um significado valorativo que lhes confere o estatuto de suporte de memória e de identidade. Estes bens culturais são transmitidos às gerações vindouras como factor de enriquecimento e coesão.

Preservar e valorizar o património cultural é uma tarefa de longo prazo, exigente e multidisciplinar, mas é também uma missão congregadora, um desígnio permanente para as instituições e cidadãos.

«A promoção da diversidade cultural, do diálogo intercultural e da coesão social chama a atenção para o papel do património no desenvolvimento social e económico e nas relações externas», avalia a União Europeia, que promove em 2018 o Ano Europeu do Património Cultural.

Os bens culturais enfrentam desafios com impacto, como a transição para a era digital e a pressão ambiental e física, sem esquecer a prevenção e o combate do tráfico ilícito. «Temos de salientar o papel do património cultural nas relações internacionais, desde a prevenção de conflitos à reconciliação pós-conflito e à recuperação de património destruído», lembra Guilherme d’Oliveira Martins, coordenador nacional do AEPC 2018.

A preocupação fundamental é reforçar a noção de património cultural comum e de construir um conceito de responsabilidade partilhada, envolvendo o património construído e material, o património imaterial e a criação contemporânea. «Só a compreensão do património cultural nos permite assumir uma cidadania civilizada», defende o ex-presidente do Centro Nacional de Cultura.

 

Património eclesiástico

A Igreja sempre tem mostrado apreço pelo património histórico-cultural, ciente de que representa um bem e uma herança da humanidade, das nações e das comunidades. Vê nele um expoente das culturas, a respeitar e promover, e preocupa-se com a sua criação, definição, salvaguarda e valorização.

O património histórico-cultural da Igreja é constituído pelos bens e valores materiais ou imateriais, tangíveis ou intangíveis. «Posto ao serviço da missão da Igreja Católica, por natureza universal, esse legado também serve potencialmente a humanidade toda. São bens e obras, ideias e valores que a todos interessam», avalia a Conferência Episcopal Portuguesa.

A origem do património eclesiástico foi constituído e enriquecido, ao longo da História, tanto pela generosidade dos povos, como por oferta de pessoas económica ou culturalmente mais dotadas, «como sinal de uma aspiração profunda dos homens e das colectividades, que combina a dupla ideia de pôr ao serviço da Igreja e de oferecer a Deus o melhor daquilo que são capazes de criar», explicam os bispos.

Daí que, frequentemente, o melhor património da Igreja seja também formado pelo melhor do património de cada cultura, povo, região ou comunidade local.

 

Per pulchra ad sacra

Em todos os tempos, o património eclesiástico tem sido uma expressão compartilhada da criatividade humana e da devoção, entre a inspiração religiosa e a inspiração estética, como se verifica nos domínios das artes plásticas, da música, da arquitectura e até das obras literárias. «Para a Igreja, como para qualquer outra comunidade humana, o património é um espaço privilegiado de memória histórica. As igrejas de Portugal deram passos decisivos ao criar um secretariado nacional para o estudo, coordenação e actividades do sector», aponta a Conferência Episcopal Portuguesa. A competência é «dar a conhecer um património vivo, que pode ter já séculos de existência, e ter sido produzido nas mais variadas épocas, mas que ainda hoje continua e deve continuar a cumprir a sua missão ao serviço da Igreja», explica Sandra Costa Saldanha, directora do Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja.

Para o presidente da Europae Thesauri, associação europeia dos museus e tesouros das Igrejas, «Portugal é um exemplo para a Europa, na conservação e valorização do património religioso». Bernard Berthod enaltece o património eclesiástico português como «extremamente valioso e essencial para o entendimento da história da religião católica e da Europa» e manifesta preocupação com a dificuldade de preservar estes bens culturais e de lutar contra o furto de peças.

Por sua vez, José António Falcão, secretário-geral adjunto da Europae Thesauri, nota que é sobretudo no campo do património cultural, religioso e natural que o turismo tem vindo a crescer e alerta para a «necessidade de infra-estruturas e preparação para acolher o grande número de visitantes que procura Portugal». São gerações à descoberta de tesouros que, quando compreendidos, elevam per pulchra ad sacra, do belo ao sagrado.

 

 

 

 

Rota das catedrais

 

Monumentos afectos ao culto católico em Portugal

 

Criado em 2010, entre o Ministério da Cultura e a Conferência Episcopal Portuguesa, o projecto Rota das Catedrais mostra o interesse cultural do património religioso da Igreja Católica. Criado ao longo de séculos com a finalidade de realizar a missão eclesial, o património sacro apresenta um reconhecido valor artístico, histórico e documental. Estas várias vertentes são testemunho de uma cultura, de uma forma de entender a vida, o mundo e o Homem.

O património construído é um espaço aberto a todos e tem em vista dar a conhecer o seu significado e comunicar uma mensagem. Por isso oferece à sociedade em geral a fruição da beleza da arte, da história e dos símbolos do Cristianismo. «A Igreja cuida do património que construiu, conserva-o e enriquece-o continuamente para que os crentes possam encontrar nele um ambiente de elevação e comunitário», observa Manuel Pelino Domingues, bispo emérito de Santarém.

As catedrais de Portugal constituem um tecido essencial de memória e de identidade, profundamente caracterizador do território e das suas gentes, de norte a sul do País, passando pelas regiões autónomas. São a afirmação de um inestimável valor religioso, histórico, artístico, cultural, simbólico e patrimonial. A Rota das Catedrais, complementada com uma cuidada programação cultural, contribui para devolver estes monumentos à comunidade.

 


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