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Fevereiro de 2018

Quebrado o gelo, toca a patinar
Por: LUÍS ÓSCAR MEDEIROS, jornalista



Jogos olímpicos de inverno na Península da Coreia 

 

O desporto voltou a ser motivo de união, permitindo desbloquear o diálogo entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, interrompido há mais de dois anos. Haverá norte-coreanos a patinar nos Jogos Olímpicos de Inverno, em PyeongChang.

 

O sinal de abertura ao diálogo, que Seul aguardava há mais de dois anos, chegou com o discurso de Ano Novo do líder norte-coreano. «Estamos preparados para dar vários passos, incluindo o envio de uma delegação», afirmou Kim Jong-un em resposta ao convite do homólogo sul-coreano, Moon Jae-in, para que a Coreia do Norte participasse nos Jogos Olímpicos de Inverno, que decorrem entre 9 e 25 de Fevereiro em PyeongChang, a 80 quilómetros da fronteira entre os dois países, oficialmente em guerra.

Uma semana depois, delegações sentaram-se à mesa na Casa da Paz, onde, em 1953, foi assinado o armistício (nunca substituído por um tratado de paz) da Guerra da Coreia, iniciada em 1950. Na localidade fronteiriça de Panmunjom, os negociadores chegaram rapidamente a acordo para que a Coreia do Norte possa estar presente nos Jogos. Mas não mais do que isso.

Após a reunião de duas horas e meia, a quebra do gelo nas relações possibilitou resultados positivos para os dois lados. O regime comunista totalitário de Kim Jong-un dá uma imagem de abertura ao Sul, afasta o sentimento de antipatia resultante de constantes ameaças e provocações – e, até, atentados terroristas, como o que antecedeu os Jogos de Seul, em 1988, quando um avião sul-coreano foi abatido com 115 pessoas a bordo – e, não menos importante, alivia a pressão internacional a que está submetido, incluindo severas sanções económicas. O regime de Seul, por seu turno, garante uma imagem de condescendência – embora tenha de gerir este aspecto com a vontade de alguns aliados, como os EUA e o Japão, seguirem uma linha dura de boicote à Coreia do Norte – e assegura melhores condições de segurança para o grande evento desportivo.

 

Sobre patins

O entendimento vai permitir que um par de patinadores artísticos sobre o gelo norte-coreanos possa competir em PyeongChang. Ryom Tae-ok, que faz 19 anos no dia 2 de Fevereiro, e o companheiro Kim Ju-sik, de 25 anos, são os únicos atletas da Coreia do Norte que obtiveram mínimos para participar nos Jogos Olímpicos.

Ryom e Kim não estão entre os favoritos às medalhas, apesar do bronze nos Jogos Asiáticos do ano passado. Mas, em 1964, nos Jogos de Innsbruck, ninguém conhecia Han Pil-hwa e esta patinadora de velocidade conquistou a prata nos três mil metros.

Os desportistas norte-coreanos têm, aliás, várias histórias impressionantes de superação em competições internacionais, sobretudo nos Jogos Olímpicos de Verão, onde já conquistaram 54 medalhas (16 de ouro) desde 1972, apesar de terem boicotado as edições de 1984 (Los Angeles) e 1988 (Seul).

A delegação da Coreia do Norte nos Jogos Olímpicos de Inverno não ficará restrita ao par 15.º classificado no Mundial de patinagem artística, se for aceite o convite para jogadoras de hóquei integrarem a equipa da Coreia do Sul.

Numa decisão histórica, também foi possível chegar a acordo para que as duas delegações desfilem juntas na cerimónia de abertura dos Jogos de PyeongChang.

No entanto, o grande impacto norte-coreano em PyeongChang ficará a cargo da presença da irmã mais nova do líder Kim Jong-un, Yo Jong, alta dirigente do Partido Comunista, e da equipa de cheerleaders. Escolhidas nas universidades, na Juventude do Partido e nas escolas de música, tanto pelo aspecto físico como pela ideologia, estas embaixatrizes já animaram com os seus cânticos e acrobacias alguns acontecimentos internacionais, como o Mundial feminino de futebol China 2007, em Wuhan, ou os campeonatos asiáticos de atletismo de 2005, em Incheon (Coreia do Sul).

 

O caminho da «qualificação»

Para se chegar ao entendimento que permitirá a participação da Coreia do Norte nos Jogos de Inverno (e também nos Jogos Paraolímpicos, em Março, no mesmo local) foram dados vários passos. O caminho da «qualificação» até à «marca» obtida na Casa da Paz, em Panmunjom, foi longo.

O episódio decisivo pode ter sido o adiamento dos exercícios militares conjuntos na região que os EUA e a Coreia do Sul tinham previsto para esta altura. Mas, obviamente, as tentativas de aproximação já vinham de trás.

Moon Jae-in, eleito presidente da Coreia do Sul em Maio do ano passado, tem sido um ardente defensor do diálogo com o regime de Kim Jong-un. Sabendo que estimularia o ego de Donald Trump, Jae-in sugeriu que o êxito desta aproximação entre as Coreias se deveu ao presidente dos EUA, pelas posições inflexíveis que tomou no último ano.

Na óptica do regime de Pyong-yang, esta iniciativa vem na linha das aproximações anteriores. Desde o boicote aos Jogos de Seul, em 1988, as duas Coreias já desfilaram juntas nos Jogos de Sidnei 2000 e Atenas 2004, bem como nos Jogos de Inverno de Turim 2006. Kim Jong-un encara a presença em PyeongChang como mais uma oportunidade para desestabilizar a opinião pública da Coreia do Sul, dividindo-a entre o sentimento – desejo de reunificação – e a razão – repulsa de um regime ameaçador, com constantes testes nucleares e de mísseis balísticos.

Pequim e Moscovo reagiram bem ao diálogo intercoreano. China e Rússia defendem o congelamento do programa nuclear norte-coreano em troca da suspensão dos exercícios militares conjuntos dos EUA e dos aliados asiáticos. O próprio presidente Donald Trump considerou a retoma das conversações «uma coisa boa», mas disse que os EUA só irão envolver-se no processo «na altura apropriada».

 

Para o prolongamento

Chegados a este ponto, há muito por resolver. Não só em relação ao relacionamento entre as Coreias e ao da Coreia do Norte na cena internacional. Aspectos da participação norte-coreana nos Jogos Olímpicos de Inverno continuam a ser ponderados, como os nomes de dirigentes (e até de atletas), a forma de deslocação da comitiva para a Coreia do Sul, a cobertura de despesas pelas partes, etc.

E há outras questões em aberto. Os Norte-Coreanos recusam falar do tema nuclear com os Sul-Coreanos. «Esse não é um assunto entre o Norte e o Sul e falar nele podia ter consequências negativas e arriscar que todas as coisas boas conseguidas [na reunião de 8 de Janeiro] acabassem em nada», explicou Ri Son-gwon, presidente da Comissão para a Reunificação da República Popular Democrática da Coreia (do Norte). Para Kim Jong-un, os EUA são o único interlocutor nesta matéria.

A República da Coreia (do Sul) propôs a reunião de familiares separados pela guerra (1950-53), mas ainda não teve resposta. Num segundo encontro, a 15 de Janeiro, o Norte apenas acrescentou à proposta inicial a disponibilidade para fazer deslocar a PyeongChang uma orquestra de 140 elementos para duas actuações, uma em Seul e outra próxima de PyeongChang.

Aliás, o receio de que não exista intenção de Pyongyang de caminhar na direcção da paz plena, mas apenas de ganhar tempo e aliviar as sanções económicas, pode comprometer tudo.

 

Sem medalhas

Mesmo que não haja consequências políticas significativas, se as intenções se confirmarem, teremos Ryom Tae-ok e Kim Ju-sik a fazer figuras artísticas no gelo de PyeongChang. Mas, ainda que conquistem alguma medalha, dificilmente serão vistos como heróis entre os seus compatriotas.

O regime iniciado por Kim Il-sung (pai de Kim Jong-un) entende o desporto apenas como um exercício necessário à saúde e impede qualquer exaltação dos protagonistas, apesar de festejar actualmente as conquistas internacionais como feitos da governação.

Pelo contrário, os maus resultados são penalizados. Há relatos de que os jogadores da equipa de futebol presente no Mundial 2010, na África do Sul, onde perderam com Portugal por 7-0, foram obrigados a perfilar-se, durante seis horas, imóveis, diante do Palácio da Cultura Popular de Pyongyang, para serem insultados pelo ministro do Desporto. O treinador foi castigado com trabalhos forçados.

Pior destino tiveram os jogadores do Inglaterra 66, vítimas da reviravolta de Eusébio e companhia – os célebres 5-3, nos quartos-de-final – e de uma pena de prisão de 20 anos, no campo de concentração de Yodok. Apenas se livrou o autor do golo da vitória sobre a Itália (1-0), porque estava com febre e não participou nos festejos, considerados impróprios.


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