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Em Foco
Fevereiro de 2018

Viagem de esperança e profecia
Por: JAIRO ALBERTO GARCIA, jornalista



Visita do Papa Francisco ao Chile e Peru 

 

Na visita ao Chile e ao Peru, o Papa Francisco falou de direitos humanos, calamidades naturais e cuidado da Natureza, corrupção, injustiças e pedofilia. Pediu que os discípulos de Jesus Cristo se comprometam com a realidade e sejam, com o seu testemunho de ternura e compaixão, um renovado antídoto contra a globalização da indiferença.

 

O Papa Francisco foi recebido calorosamente no continente que o viu nascer. Uma visita ao Chile e ao Peru que enfrentava grandes desafios. No âmbito da instituição, tinha de encarar a questão dos abusos sexuais cometidos por membros do clero ou em instituições da Igreja Católica, as divisões e a perda de credibilidade da Igreja. No âmbito social, não podia esquecer a situação dos indígenas e da Amazónia explorada, a corrupção, a violação dos direitos humanos e as desigualdades sociais na região. E Francisco não defraudou. Falou de tudo isso durante esses dias de visita ao continente (16 a 21 de Janeiro).

 

Igreja em crise

No Chile, a Igreja Católica está cada vez mais afectada pela laicização. O país é um dos que contam com menos católicos na América Latina (44 % segundo os dados do Latinobarómetro de 2018). O papa foi recebido entre protestos e encontrou uma Igreja que está em crise, como escreveu o cardeal Ricardo Ezzati no diário La Tercera: «O papa vai encontrar uma Igreja que está em crise. Não nego que em parte se deve a uma situação concreta que a Igreja viveu nestes últimos anos, com o caso dos abusos. São casos gravíssimos. Mas as crises são uma oportunidade de melhorar.» Efectivamente, vozes dentro e fora da Igreja reclamam uma acção contundente perante essa situação dos abusos (mais de 80 denúncias nos últimos anos). O papa pediu perdão por essa realidade no discurso que fez no Palácio de La Moneda, a sede do Governo chileno, perante a presidente Michelle Bachelet. «Não posso deixar de dar conta da vergonha que sinto pelo dano irreparável causado às crianças por ministros da Igreja», sublinhou Francisco. «Desejo unir-me aos meus irmãos no episcopado, porque é justo buscar o perdão e apoiar com todas as forças as vítimas», salientou ainda. O papa recebeu em privado, na Nunciatura Apostólica em Santiago do Chile, algumas vítimas de abusos sexuais por membros do clero. No entanto, a polémica relançou-se com as palavras do papa que, por falta de provas, reafirmou a confiança no bispo de Osorno, D. Juan de la Cruz Barros, que, alegadamente, terá encoberto um caso de abuso sexual cometido por um sacerdote.

Em Temuco realizou-se a missa «pelo progresso dos povos», um importante encontro do Santo Padre com os povos originários, especialmente com os Mapuches. Este povo indígena da região centro-sul do Chile e do Sudoeste da Argentina reivindica há décadas um maior respeito pela sua cultura e dignidade e acusa o Estado de lhes ter usurpado milhares de hectares de terra. O papa cumprimentou-os na sua língua e, ao fazer eco das palavras de Violeta Parra (a mais relevante e amada cantautora da cultura chilena), disse: «Arauco tem uma dor que não posso calar, são injustiças de séculos que todos vêem ser aplicadas.» O Santo Padre fez memória das graves violações dos direitos humanos que ocorreram naquela região e apelou à unidade que não pode ser uniformidade, nem alcançar-se com a força.

Aos jovens, Francisco animou-os a sonhar e a não renunciar a esses sonhos. Convidou-os a participar activamente no próximo sínodo sobre os jovens [Roma, 3 a 28 de Outubro] e a não perder a «conexão» com Jesus e a fé, ao recorrer à metáfora do acesso à Internet. «Quando ficamos sem esta “conexão”, que dá vida aos nossos sonhos, o coração começa a perder força, a ficar também ele sem bateria», disse. O papa citou Alberto Hurtado (santo jesuíta que morreu em 1952 e fundou o Lar de Cristo, uma casa para acolher crianças e jovens que estivessem nas ruas) e revelou a “palavra-chave” para a banda larga de Jesus. «Na escola, na universidade, pela estrada, em casa, com os amigos, no trabalho; face àqueles que fazem bullying: “Que faria Cristo no meu lugar?” Quando saís para dançar, quando fazeis desporto ou ides ao estádio: “Que faria Cristo no meu lugar?” Esta é a palavra-chave, a carga de bateria para acender o nosso coração, acender a fé e a centelha nos nossos olhos. Isto é ser protagonistas da História», salientou Francisco, pedindo aos jovens que gravem essa palavra-chave e, para não esquecer, a usem todos os dias.

Na Catedral de Santiago, aos bispos chilenos ali reunidos, o papa recordou a tentação do clericalismo e que os leigos não são os servos, nem os empregados dos clérigos.

A visita do Santo Padre ao Chile terminou com a celebração da eucaristia em Campus Lobito, Iquique. Uma região que sempre «soube albergar pessoas de diferentes povos e culturas que tiveram de deixar os seus entes queridos e partir», como disse o papa.

Francisco afirmou que a sociedade deve estar atenta a todas as formas de injustiça, particularmente a que for cometida contra os mais vulneráveis: «Estejamos atentos à situação de precariedade do trabalho que destrói vidas e famílias. Estejamos atentos a quem se aproveita da irregularidade de muitos migrantes porque não conhecem a língua ou não têm os documentos em ordem. Estejamos atentos à falta de tecto, terra e trabalho de tantas famílias.»

 

Corrupção e política quente

O Peru, ao contrário do Chile, é um país de maioria católica (73 % declaram-se católicos). No entanto, a Igreja também é questionada pelo tema dos abusos dos clérigos, mas o papa não falou do assunto – o Vaticano nomeou um bispo colombiano para coordenar a organização católica Sodalicio, que tem alguns dos seus responsáveis acusados de abusos. Nesse país persiste uma situação de divisão na Igreja, com bispos que há décadas têm ideias e práticas pastorais antagónicas. Um sector está claramente do lado das reformas desejadas por Francisco e o outro a querer prosseguir uma linha de conluio com os poderes político e económico. Ao mesmo tempo, o papa encontrou o país a viver uma situação de agitação política, depois do perdão presidencial dado ao antigo presidente Fujimori [ver páginas 14-15].

Neste contexto, desde a chegada ao país andino, o papa quis colocar em primeiro plano um dos grandes desafios da actualidade: o cuidado da casa comum no horizonte de uma ecologia integral, ou seja, que devolva a dignidade aos povos originários que, durante séculos, foram tornados invisíveis, explorados e vítimas de violência. Em Puerto Maldonado, cidade situada no coração da Amazónia, os povos indígenas reivindicaram os seus direitos e o respeito pelas suas culturas. Com as suas indumentárias, danças e línguas próprias, defenderam a sua dignidade. O papa recebeu uma tawa, símbolo awajún que é usado apenas pelos sábios. Alguns excertos da Laudato Si’ foram lidos nas línguas autóctones, expressando o carácter profético da encíclica, em sintonia com a cosmovisão dos povos indígenas e a sua luta pela defesa dos territórios ancestrais e a Mãe Terra. Nessa linha, o papa sublinhou os perigos que a Natureza enfrenta, enumerando as ameaças, incluindo «a nova ideologia extractiva e a forte pressão de grandes interesses económicos cuja avidez se centra no petróleo, gás, madeira, ouro e monoculturas agro-industriais». O Santo Padre exortou, igualmente, a «romper com o paradigma histórico que considera a Amazónia como uma despensa inesgotável dos Estados, sem ter em conta os seus habitantes». O papa defendeu «uma Igreja com rosto amazónico e indígena» e assinalou o Sínodo da Amazónia, a realizar em 2019, como um momento privilegiado para que esses sonhos possam tornar-se realidade.

No país andino, o papa denunciou a «praga do feminicídio em toda a América» e todo o tipo de violência de género que tornou o subcontinente o local mais violento do mundo para as mulheres. Perante milhares de pessoas numa celebração mariana, na cidade de Trujillo, Francisco pediu legislação que proteja as mulheres. «Olhando para as mães e as avós, quero convidar-vos a lutar contra uma praga que fere o nosso continente americano: os numerosos casos de homicídio de mulheres. E muitas são as situações de violência que ficam silenciadas por trás de tantas paredes. Convido-vos a lutar contra esta fonte de sofrimento, pedindo que se promova uma legislação e uma cultura de repúdio a todas as formas de violência».

O papa expressou a dimensão política da fé e com a sua característica linguagem clara e directa falou da corrupção e interpelou as autoridades, sociedade civil e corpo diplomático, durante um encontro que decorreu no Palácio do Governo do Peru, em Lima. «A corrupção. Quanto mal faz, aos nossos povos latino-americanos e às democracias deste abençoado continente, este “vírus” social. É um fenómeno que tudo infecta, sendo os pobres e a Mãe Terra os mais prejudicados», declarou Francisco. «Ninguém pode ficar alheio a este processo; a corrupção é evitável e exige o compromisso de todos», disse o papa. Nesse sentido, o Santo Padre exortou todos os que ocupam cargos de responsabilidade, seja qual for a área, a «comprometer-se neste sentido para oferecer, ao vosso povo e à vossa terra, a segurança que nasce da convicção de que o Peru é um espaço de esperança e oportunidades, mas para todos e não só para poucos».

Muitos outros momentos foram emocionantes nesta visita do papa ao Peru. Em Trujillo, valorizou-se a vivência da religiosidade popular e da «fé simples e fiel». Ao dirigir-se aos sacerdotes e consagrados, recordou-lhes que foi nesta piedade popular que conheceram Deus e não devem deixar esta fonte. «Não percais a memória e o respeito por quem vos ensinou a rezar», disse o papa, de modo que a árvore da vocação tenha raízes fortes e se mantenha viva. Alertou contra os perigos do isolamento e da falta de entreajuda nas comunidades católicas e pediu aos padres, consagrados e seminaristas que se libertem de messianismos e autoritarismos, que negam a vocação de serviço a que estão chamados, e não sejam profissionais do sagrado, mas saibam contagiar o amor a Jesus com a força do testemunho. Nessa cidade, solidarizou-se com os afectados pelos fenómenos naturais e referiu-se à violência organizada, falta de segurança, oportunidades educativas e laborais, especialmente para os jovens. 

Em Lima, o Santo Padre rezou com meio milhar de religiosas de vida contemplativa, no Santuário do Senhor dos Milagres, e elogiou o alcance «missionário e universal» da clausura na Igreja Católica. Visitou a Catedral de São João para rezar e pedir uma Igreja «em saída» diante das relíquias dos santos peruanos. No diálogo com os bispos denunciou o «capitalismo liberal desumano» na América Latina e afirmou que «a política está doente». Pediu aos prelados que não se fechem nos seus gabinetes e que conheçam melhor os seus fiéis, desafiou-os a denunciar todos os «abusos» contra o povo e realçou a necessidade de «evangelizar o mundo da política». Disse o papa: «A caridade deve ser sempre acompanhada pela justiça, e não há autêntica evangelização que não anuncie e denuncie toda a falta contra a vida dos nossos irmãos, especialmente dos mais vulneráveis.» Finalmente, com uma multitudinária missa na base aérea de Las Palmas terminou a sua viagem ao Peru rodeado de colinas abarrotadas com bairros pobres e falando do que leva no coração: os pobres, os marginalizados, os excluídos. O pontífice advertiu contra a «globalização da indiferença», que torna as pessoas «surdas» face aos outros, «seres impessoais de coração asséptico», e sublinhou que os cristãos são chamados a «atravessar a cidade» com Jesus, «Deus que mistura a sua vida com a vida do seu povo».


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