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Dezembro de 2017

As estrelas de Shambala
Por: JOSÉ GONZÁLEZ TORICES



«Onde há amor, a noite nunca cai» (Burundi). Quando o Deus-Menino veio ao mundo, fê-lo por todos nós. O seu coração derramou um amor infinito. O amor é a chave com a qual se abre o coração (República Democrática do Congo). Onde está o coração, aí estão os sonhos (Ruanda). Não olhes para o coração humano como para uma cesta (Sudão). Deus é como o sol. Penetra em cada casa (Madagáscar).

 

Todos sabiam na povoação que o ancião Shambala, da dinastia dos Luos, no Uganda, se dedicava a capturar estrelas. O que lhe ocorria! Pensava Shambala que se apanhasse um daqueles astros luminosos, por pequeno que fosse, seria o suficiente para desterrar a fome do mundo, e ainda sobraria sobremesa.

– Como pensas fazê-lo? – perguntavam, incrédulos, os seus conterrâneos.

– Plantarei as estrelas no deserto de Calaári e, logo de seguida, começarão a crescer como árvores de fruto. As suas folhas serão de pão macio, branco e fresco. Do interior do seu tronco manará abundante leite açucarado, chocolate com amêndoas, toda a sorte de marmeladas e mel, muito mel. Comida saborosa para todos.

– É impossível – repetiam-lhe, cépticas, as vozes de uns e de outros. – Não digas isso, porque todos se vão rir de ti.

Alguns vizinhos zombavam de Shambala, pois a ninguém que estivesse no seu perfeito juízo lhe ocorreria semelhante fantasia.

– Perdeste o juízo!

Quem mais ridiculizava o ancião era um tal Socarko, comerciante embusteiro, charlatão e trapaceiro, que enriquecera a enganar os incautos turistas que transitavam por ali. Vendia-lhes sapatos de crocodilo, óculos de hipopótamo, luvas de centopeia, bonés de serpente pitão e leques das piranhas do Norte ou o que fosse. Ele dizia, burlão, a Shambala:

– Quando tiveres uma estrela, compro-ta.

– Nada de graçolas, Socarko – replicava-lhe, aborrecido, Shambala.

– As estrelas não se compram nem se vendem. São do Senhor Deus, e Ele oferece-as para que desfrutemos do seu resplendor.

Algumas noites, ia com o seu pesca-estrelas ao lago Vitória; outras, ao Nilo Azul; e, alguma vez, ao Nilo Branco. O pesca-estrelas era uma espécie de cesta de vime, presa pela asa com uma corda verde. No seu interior colocava cem beijos, como isco para melhor as atrair – porque os astros também ficam encantados com o perfume dos beijos, como toda a gente.

Posicionado na margem, depositava a cesta na corrente, esperando capturar algum cometa, satélite ou estrela fugaz. Na superfície das águas quietas reflectiam-se, na noite clara, os astros da abóboda celeste.

Os crocodilos daquelas águas já conheciam o ancião Shambala. Gostavam muito dele e nunca lhe causavam nenhum dano. Em certa ocasião – havia anos – Shambala tinha curado a pata ferida de um deles; e, por esta razão, aquela grande família dos emidossauros estava-lhe muito agradecida. E ajudavam-no em tudo: a encher a cesta de estrelas. Aqueles répteis atraíam com os seus olhos, quais ímanes, os astros que se espelhavam nas águas mansas. E, mais tarde, iam depositando-os no fundo do recipiente.

Como é que o faziam?

Com as suas lágrimas de crocodilo. Cada gota das suas lágrimas era uma estrela que caía na cesta pesca-estrelas de Shambala.

Por cada estrela, um beijo!

– Obrigado, muito obrigado! – exclamava o ancião, satisfeito e feliz, aos crocodilos; e estes retribuíam-lhe o carinho, abrindo e fechando a boca, como se entoassem cânticos de Natal.

Shambala regressava a casa alegre, antes de o galo cantar.

– Cocorocó!

Voltava ao seu lar, onde o esperava, nervosa, impaciente e preocupada, Sinka, a sua esposa. Chegava com a cesta cheia de estrelas, segundo ele, ainda que fossem algo pequenas; porque nos olhos dos crocodilos não cabiam as maiores. Todavia, pensava Shambala, «agrupando muitas estrelas pequenas, formarei a Ursa Maior».

 

* * *

 

Num daqueles dias, encontrou pelo caminho o astuto Socarko (o vendedor de leques para piranhas). Este perguntou-lhe – para o escarnecer – depois de espreitar para dentro da cesta pesca-estrelas:

– O que levas aí? Pimentos, tomate, pepinos…? Uma vaca, um elefante, uma girafa...? Creio ver um leão disfarçado de palhaço. Que trazes, Shambala?

– Estrelas – respondeu timidamente o pescador. – São estrelas do Nilo Azul.

– Estrelas? – perguntava, contorcendo-se de riso, Socarko. – Deixa-me vê-las.

– Vê.

Socarko protestou que ali não havia nada, que o recipiente estava vazio e que nunca mais o enganava, pois estava a tratá-lo como se fosse ignorante e néscio.

– Não há nada. Só ar, que não sou estúpido e vejo bem.

– Há estrelas – insistia Shambala.

Socarko apanhou a cesta, virou-a ao contrário e exclamou furioso:

– Estrelas?!... Ar, ar e mais ar!

Naquele instante, o ar tornou-se um facho de luz, em claridade, em pó de estrelas que iluminava a povoação e despertava os animais da savana. Depois, quando o galo cantou ao nascer do Sol, aquela luminosidade foi desaparecendo. As nuvens tinham-se convertido em farinha e chovia perfume de rosas.

Socarko disse a Shambala, ao observar aquele fenómeno sobrenatural e mágico:

– Compro-te a cesta, pois parece que está embruxada, enfeitiçada, e interessa-me para os meus negócios. «Tirarei dela – pensou – bom proveito.»

– Não – negava o dono, maneando a cabeça em sinal de desaprovação.

– Dou-te o que me pedires: um guarda-chuva para peixes, por exemplo.

– Não. Não me enganarás como aos ingénuos turistas.

E assim ficou o caso. Shambala chorava a perda das suas «jóias celestes». Tinha ficado sem estrelas. Mas não desanimava por causa disso. Também não o contou a ninguém. Era um segredo. Quando Sinka, sua mulher, lhe perguntava pela pesca, ele respondia que «não havia apanhado nada». Mas não voltou ao Nilo Azul para não desgostar os crocodilos.

Shambala continuava a capturar estrelas, sem desanimar. Umas vezes, utilizava um espelho: os astros reflectiam-se no vidro e ele apanhava-os, metendo-os no baú preparado para esse fim. Outras vezes, recolhia-os do fundo do poço. Tirava água com um balde e nele, boiando, encontrava sempre alguma estrela. Também escovava as ovelhas, pensando que entre a lã houvesse algum astro enganchado. Deste modo, no interior do baú, reuniu um sem-fim de asteróides de todas as cores e tamanhos.

Certa noite, enquanto Shambala andava à caça de luminárias, o baú com as estrelas desapareceu.

– Fui roubado!

O ancião suspeitava de Socarko, do ardiloso Socarko. Mas este jurava mil vezes, cuspindo no chão:

– Não, eu não fui!

E os galos, cada vez que ele negava o roubo, não paravam de cantar, como aconteceu com S. Pedro quando afirmava não conhecer Jesus Cristo, na Paixão:

– Cocorocó, cocorocó, cocorocó.

Shambala andava muito triste. Chorava desconsolado. E com ele gemiam as ovelhas, os pardais, os elefantes, as cegonhas, os escorpiões do deserto, as piranhas e todos os animais que povoam a Terra. De cada uma das suas lágrimas gotejava uma estrela com todas as cores do arco-íris. Parecia que o cosmo tinha ficado sem astros. Mas não era verdade.

 

* * *

 

Tudo aconteceu a 24 de Dezembro, durante a noite.

Como de costume, Shambala dormia com a janela do quarto aberta, fosse Inverno, fosse Verão. Era igual para ele.

– Fecha a janela, que faz frio – rogava a mulher.

– Não.

Deitado na cama, contemplava o firmamento pregado de pontos cintilantes, de estrelas fugazes. Às vezes, era confundido pelas luzes dos aviões. Mas naquela noite presenciou algo surpreendente: uma massa gigante de fogo cruzava o céu diante dos seus olhos.

– O que é aquilo? Que luz! – exclamava, extasiado, Shambala, sem dar crédito ao que via.

Acordou Sinka e os dois, com trajes de noite, saíram à rua. Aquele imenso globo de fogo amarelado dirigia-se para o rio Nilo. O casal, de mãos dadas, seguia, encantado, a rota traçada pelo brilho do astro. Num instante, juntaram-se a eles os demais habitantes da povoação, menos Socarko, que estava em casa a pensar na maneira de enganar os turistas.

A grande estrela cruzou o Nilo Azul. Shambala, Zinka e toda a comitiva estacaram na margem, sem poder atravessar as águas do rio.

– Que fazemos agora? – perguntam a Shambala.

Shambala respondeu:

– Esperar o momento.

O momento chegou quando um incontável grupo de crocodilos formou, com os seus corpos, um passadiço para que toda a gente pudesse alcançar a outra margem, sem lhes fazer nenhum dano. E assim fizeram.

Tudo parecia um milagre.

A grande estrela parou sobre o telhado de um estábulo. Soava, nesse momento, uma música de violinos. E, em fundo, ouvia-se o canto glorioso natalício Noite de Paz, entoado por um coro de anjos.

Aquele espaço iluminou-se. Shambala e os seus conterrâneos puderam comprovar, surpreendidos, como apareceu diante dos seus olhos uma grande representação do nascimento de Jesus em Belém, com um menino recém-nascido deitado na manjedoura, que servia de berço. Ali estavam Maria e José. Além, um burro; e também um boi; e ratos, gatos, cães e leões deitados aos pés do Menino. E junto deles, milhares e milhares de meninos, brancos e negros, que nasciam ao mesmo tempo.

Múltiplos Beléns!

A estrela fez-se árvore; e aquela frondosidade converteu-se em pão para todos os famintos, como sonhara Shambala. Aquela estrela era a sua estrela. A que se tornou maior na sua canastra de pescador.

No outro lado do rio Nilo, sem se atrever a cruzá-lo por medo dos crocodilos, Socarko gritava sem cessar:

– Quero ir ter convosco.

Então escutou-se aquela voz que descia do alto dos Céus:

– Glória a Deus nos Céus e paz aos homens por Ele amados!

Aquela noite ditosa durou até ao nascer do Sol.

Shambala entoava canções de Natal e com ele todos os habitantes da povoação:

– Noite Feliz, Noite Feliz

Ó Jesus, Deus de Luz

Quão amável é teu coração

Que quiseste nascer nosso irmão,

E a todos nós salvar

E a todos nós salvar.

Noite Feliz, Noite Feliz

Eis que no ar vêm cantar

Aos pastores os anjos do céu

Anunciando a chegada de Deus

De Jesus salvador

De Jesus salvador.

 


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