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Dezembro de 2017

Da esperança à implementação
Por: MIGUEL OLIVEIRA PANÃO, professor universitário



A 23.ª conferência da ONU sobre clima convida países e indivíduos a assumirem atitudes e tomar medidas concretas na luta contra as mudanças climáticas, já que o tempo escasseia: «A mensagem não podia ser mais clara. Não temos mais o luxo do tempo. Temos de agir agora» (Patrícia Espinosa, funcionária da ONU para as Alterações Climáticas).

 

Este ano em Bona, na Alemanha, 169 nações encontraram-se uma vez mais para debater e definir estratégias que orientem a acção humana na direcção de limitar o aumento global da temperatura. Esse aumento é atribuído à emissão de gases com efeito de estufa que tem a sua origem na acção humana relativamente ao consumo de energia. De modo a travar esse aumento que aponta para 3 ºC, pretende-se passar da Era da Esperança vivida no COP21 de Paris para a Era da Implementação com o presente COP23.

A implementação passa por investir na educação ambiental das novas gerações, os líderes de amanhã; incluir a visão da mulher na fase inicial de projecto de políticas para enfrentar as alterações climáticas (algo que raramente aconteceu até agora); mas, sobretudo, a mensagem é clara: mais longe; mais rápido; juntos.

Contudo, este alcance, mudança e sentido de comunidade implicam uma outra faceta além da questão da temperatura: inspirar o impulso a agir. Uma acção desenvolvida em torno de oito temáticas fundamentais: energia, água, agricultura, oceanos/zonas costeiras, zonas populacionais, transportes, indústria e florestas. E muito embora a acção ao nível governamental seja importante, mais ainda é aquela que acontece todos os dias desde que nos levantamos até que nos deitamos, e mesmo enquanto dormimos.

As oito temáticas, no fundo, apelam a oito atitudes que podemos ter para dar o nosso contributo. E não pensem que é um pequeno contributo porque basta multiplicá-lo pelos 10 milhões em Portugal, ou pelos 7000 milhões no mundo, e facilmente se percebe como o todo depende de cada um.

 

Atitude 1. Usar energia relacional

Há um esforço global para incentivar o investimento em energias de fonte renovável. Porém, apesar de a energia definir-se como o que imprime movimento, o que dinamiza uma mudança de mentalidade são os relacionamentos. Esses exigem também alguma energia da nossa parte. Uma energia relacional a que chamamos amor, feita de pequenos actos. São esses pequenos actos (de amor) que podem fazer a diferença quando acumulados e partilhados por muitos.

 

Atitude 2. Ser adaptável como a água

A água é um bem essencial para a saúde humana e de outras espécies. Quando poluída ou desperdiçada, leva a graves consequências para o tecido natural e social. Em períodos de seca como o que se vive actualmente em Portugal, damo-nos conta da importância da água. Mas há uma característica da água que nos convida a melhorar o nosso comportamento, sobretudo o ecológico. A água adapta-se ao recipiente onde estiver. Por vezes, fixamos de tal modo as ideias, que a exigência de mudança de estilo de vida cristaliza o nosso comportamento. Sejamos como a água.

 

Atitude 3. Contactar mais com a terra

Há um apelo à oportunidade que os países têm de transformar o seu sector agrícola para que seja mais sustentável. Isso implica usar recursos de forma eficiente, conservar e restaurar a biodiversidade e os recursos naturais, de modo a minimizar o impacto das alterações climáticas. Porém, apesar de a agricultura fazer parte da nossa sobrevivência, o seu papel vai para lá disso.

O contacto humano com o mundo natural faz-se também por meio da agricultura. Essa leva-nos a conhecer os ritmos do planeta e as consequências da sua disrupção. O contacto com a terra passa pela redescoberta do sentido e significado do lugar. Algo que nos dá identidade. Identificas-te com o lugar onde vives?

 

Atitude 4. Aprender com o horizonte onde céu e terra se tocam

O planeta é azul em grande parte pela presença dos oceanos, de onde colhemos alimentos essenciais à saúde. Com a sua vastidão, os oceanos “ensinaram-nos” algo importante. Sem esses não teríamos a ideia de “horizonte” como aquele limiar, ou linha, onde céu e terra se tocam. E um horizonte dá-nos sempre... perspectiva.

 

Atitude 5. Descobrir a riqueza do calor humano

A questão urbana é premente e pertinente. A concentração de pessoas altera profundamente o meio ambiente em termos ecológicos e civilizacionais. Os aglomerados urbanos são tratados como ilhas de calor, mas dada a proximidade das pessoas, não se deveria também sentir o calor humano?

Infelizmente assistimos ao contrário. A frieza dos relacionamentos apesar da proximidade. O isolamento dos corações focados no ecrã do seu telemóvel sem se dar conta da diversidade humana ao redor. Há que levantar a cabeça.

 

Atitude 6. Dar espaço quando o percorremos

Os transportes representam 25 % das emissões de CO2 relacionadas com o consumo global de energia. É preocupante. Porém, os transportes são um dos motores civilizacionais que permitiram o progresso das nações. E todos usamos transportes públicos ou privados para percorrer espaços.

Sabiam que a nossa disposição interior pode influenciar seriamente o consumo de combustível, e com isso, a emissão de poluentes?

Se carregamos mais no acelerador – por estarmos irritados –, poluímos mais. Basta querer passar sempre à frente quando duas filas de carros confluem para gerar filas de trânsito que se estendem por quilómetros. Bastaria dar espaço e tudo seria mais fluido.

 

Atitude 7. Pensar em que nos tornamos

A indústria desenvolve-se a partir de uma revolução tecnológica que parece não ter fim, ou qual o seu fim. Por vezes, pensamos mais naquilo que fazemos com a tecnologia que criamos, quando devíamos pensar mais naquilo que nos tornamos com a tecnologia que fazemos.

Tal como o espelho mágico da Branca de Neve mostra aquilo que realmente somos, não o modo como nos vemos, a tecnologia é para a humanidade um espelho. Se queremos perceber o tipo de humanidade em que nos estamos a tornar, basta olhar para o tipo de tecnologia que estamos a desenvolver.

 

Atitude 8. Contactar com a biodiversidade

No filme Interstellar, de Christopher Nolan, há uma cena em que um dos tripulantes está com os auscultadores nos ouvidos e pergunta a outro se quer ouvir. Este, por diversas circunstâncias, esteve sozinho no espaço durante anos. Eu esperava música clássica, mas não. De repente escutamos sons da Natureza, melodias únicas que só a vida de uma floresta pode entoar. Será que nos apercebemos dessa beleza, ou nos acostumámos tanto a ela que ficámos surdos?

 

Uma mentalidade muda com um primeiro passo

Iniciativas como o COP23 dão-nos a imagem da necessidade de dar grandes passos para alterar o caminho destrutivo do planeta e de quem nele habita. Todavia, um olhar atento percebe que o dano climático é mais civilizacional do que ambiental. E a tendência a desistir é mais forte do que a de persistir.

Tenho uma novidade. A revolução cultural que nos é pedida não depende de grandes passos, mas antes de passos tão pequenos que o cérebro não possa recusar. Precisamos apenas de tomar a decisão de identificar esses passos e a coragem de os dar. Talvez passe por um desligar luzes que não se utilizam, um banho mais curto, um evitar desperdiçar alimentos, um contemplar do pôr-do-sol, um olhar em frente guardando o telemóvel no bolso, um carregar menos no acelerador, uma desintoxicação tecnológica com menos tempo nas redes sociais, ou um simples fechar de olhos numa floresta e escutar.

A melhor e mais eficiente forma de enfrentar as alterações climáticas do ambiente exterior que nos rodeia é enfrentar as cristalizações climáticas do ambiente interior adormecido que precisa de despertar.


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