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Novembro de 2017

África: Chega a primavera tecnológica
Por: CARLOS BAJO ERRO



Os tech hubs, chaves para o futuro do continente

 

 

Os espaços de inovação tecnológica multiplicam-se em todo o continente. A maioria deles trabalha para melhorar a qualidade de vida dos africanos.

 

O ecossistema tecnológico africano está em perpétua primavera. Como flores modernas da sociedade da informação, os espaços de inovação tecnológica prosperam. Entre o asfalto das cidades do continente, emerge uma nova energia criativa. Entre outras manifestações, esta explosão transformadora assume a forma de centros de reinvenção do mundo digital. De Nairobi a Dacar, de Lagos a Campala, ou de Juba a Lomé, uma densa rede liga essas flores modernas, já não tão raras. Ali, pensa-se um novo continente. Ali, reinventam-se soluções para tornar a vida mais fácil aos cidadãos. Ali, são construídos os emissores que bombeiam para o resto da sociedade transparência, participação, justiça, democracia, igualdade de oportunidades... Tudo entre linhas de código, entre circuitos impressos e bites.

Os tech hubs (centros de conexão ou centros operacionais) são um fenómeno em expansão, nos últimos anos, nas cidades africanas, e que está chamado a ser uma das chaves do futuro mais próximo. Nenhum destes centros tecnológicos cumpriu dez anos de existência e, no entanto, eles já carregam enormes expectativas. Aos espaços de inovação – é isso que são os tech labs (laboratórios de tecnologia) – atribuiu-se a responsabilidade de que o continente possa apanhar os comboios da inovação tecnológica que estão por vir, e não fique apeado como no passado. Os comboios da inovação tecnológica, da economia digital e, inclusive, da democratização, parecem ter fixado os seus postos de venda de bilhetes nesses espaços tecnológicos que não possuem uma definição unívoca. «Se queres ir depressa, vai sozinho; se queres ir longe, vai acompanhado.» É uma daquelas frases que são rotuladas com a impossível divisa do provérbio africano, mas que, apesar da sua origem indeterminada, é a máxima de muitos dos pioneiros desses centros.

 

Espaços com identidade própria

Para a experiência europeia, um tech hub africano é uma mistura de espaço de coworking (trabalho em partilha de espaços e recursos), incubadora de empresas e associação de activistas. No entanto, as fórmulas em que o conceito se materializa tendem ao infinito. Cada espaço procura um esquema próprio em que se devem determinar desde as formas de financiamento até à filosofia, passando pelo enfoque – mais comercial ou mais social –, ou pelos objectivos. Pode ser um simples prestador de serviços ou o corpo de uma comunidade; pode ser apoiado por uma organização internacional, ser auto-suficiente ou beber de uma multinacional do sector tecnológico. Não é de estranhar a sua diversidade, tendo em conta o ritmo da aparição destes espaços na geografia do continente.

Em Setembro de 2015, o Banco Mundial (BM) identificou 117 centros tecnológicos na África. Em Julho de 2016, a GSMA, uma associação mundial de operadores de comunicações móveis e outras companhias do sector, identificava 314 espaços de inovação activos no continente. Embora os critérios das duas investigações não sejam exactamente os mesmos, que estas estruturas se multiplicaram quase por três em menos de um ano é representativo. No entanto, se os dados chamam à atenção, não deixam de ser curiosas também as fontes. O BM desenvolveu uma estratégia específica para o seguimento dos tech hubs, porque crê que têm um potencial fundamental para o desenvolvimento dos países africanos. A GSMA também lhes dedica atenção, e considera que a sua actividade é a chave para a aplicação das tecnologias da informação e comunicação (TIC), para que se estenda o seu uso e com elas, evidentemente, a tecnologia móvel.

As fórmulas que estes espaços adoptam têm-se multiplicado à medida que se tornam mais populares, porque cada empreendedor e cada grupo impulsionador afirma a sua identidade e as características que melhor se adequam às necessidades. Sejam tech hubs, tech labs, makerspaces (laboratórios para o desenvolvimento da investigação e do desenvolvimento), fab labs (laboratórios de fabrico de objectos vinculados à tecnologia e ao mundo digital) ou qualquer outra etiqueta, estes espaços têm, pelo menos originalmente, preocupação social e trabalho colaborativo impresso no seu ADN. Os pioneiros mantêm de forma inequívoca o enfoque de transformação e benefício social. Alguns dos que se foram somando ao fenómeno puderam mudar algumas das prioridades.

Esse grupo dos que abriram o caminho da tecnologia ao serviço das pessoas está disperso por todo o continente e, em muitos casos, criou escola, de modo que na diversidade dos recém-chegados ao ecossistema digital também estão os convencidos de que o seu objectivo é melhorar a vida dos cidadãos. O CoCreation Hub, em Lagos (Nigéria), albergou o nascimento de Wecyclers – uma empresa que permite a colecta de resíduos domésticos na megalópole, a cidade mais populosa do continente –, alimenta a indústria de reciclagem, permite às classes populares obter rendimentos do lixo e concebeu um processo de tratamento sustentável e não poluente. BudgIT e GoVote.ng são duas outras empresas criadas no mesmo laboratório de tecnologia (tech lab), uma pretende divulgar a distribuição dos orçamentos públicos, a outra, a participação nas eleições.

Desde os alvores do ciberactivismo africano e dos pais e mães de Ushahidi, nasceu iHub, o espaço de inovação que ganhou o respeito e a admiração do resto dos centros do continente porque mostra como a energia criativa excede um espaço de inovação. À volta deste grupo inicial de ciberactivistas e tecnólogos, existe toda uma constelação de iniciativas, projectos, ferramentas e espaços que têm em comum o uso das TIC e a vontade de transformar a sociedade. Essa plataforma de crowdsourcing (recolha colectiva de dados) que foi o gérmen do grito mais poderoso da tecnologia no continente, precedeu inclusive o tech hub. Depois disso, a comunidade foi crescendo e adicionando elementos.

No universo Ushahidi há, por exemplo, um makerspace como GearBox, onde se trabalha com o hardware – os componentes e os aparelhos para encontrar soluções específicas para as necessidades locais. Há também derivados de Ushahidi projectados para lidar com situações concretas, como crises humanas. Concebeu-se, até, um conversor de sinal digital em analógico, e vice-versa – o modem – para uso em viagem e nas condições mais difíceis de humidade, poeira ou dificuldades de fornecimento de electricidade. «Se funciona em África, funciona em qualquer lugar», disseram os criadores quando faziam a apologia da utilidade de tal dispositivo. A actividade diversificou-se, possibilitando, igualmente, um espaço em que se fomenta a transformação social por meio da arte e da tecnologia, ou um lugar virtual, onde se misturam os projectos africanos e asiáticos com a vontade de gerar inteligência colectiva numa abordagem de colaboração mútua num Sul global.

 

A surpresa de Lomé

Ao tratar o assunto do génio criativo, impõe-se fixar a atenção numa das capitais mais pequenas do continente, Lomé (Togo). Lá, num bairro popular, operou-se uma conquista espectacular, que talvez seja um dos melhores exemplos dessa energia criativa que é libertada nos espaços de inovação. Um jovem sem formação técnica prévia, Afate Gnikou, reconstruiu uma impressora 3D a partir de peças e componentes descartados e reciclados. A W.Afate, assim foi baptizado o dispositivo, foi concebida e construída no WoeLab, um dos espaços de inovação com uma proposta mais ágil e transformadora do continente e com um mérito adicional, faz o seu caminho no Togo, um dos países com menor presença das TIC.

O WoeLab tem a forma de um fab lab. Pretende ser, na realidade, um gérmen, uma semente, o início de uma epidemia benigna que vai desencadeando a mudança à medida que se espalha. Séname Koffi imaginou este espaço como a origem do seu ambicioso projecto HubCité, que combina tecnologia, urbanismo, participação cidadã, transformação social e conhecimento local para tornar a cidade um espaço feito à medida dos seus habitantes e definido por eles mesmos. Embora seja um sonho com tons de utopia, no entanto, deu frutos nos seus primeiros passos.

Em Juba, capital do Sudão do Sul, desponta outro exemplo de um espaço de inovação que abre caminho num ambiente hostil. A independência do país desencadeou uma onda de esperança que a guerra desfez. Entretanto, um grupo de empreendedores da nova economia digital lançou o JHub, um espaço de inovação, numa das capitais mais jovens do mundo. Conectado, desde o seu nascimento, a um encontro em que se procuravam fórmulas para pôr a tecnologia ao serviço da construção da paz, uma das obsessões dos impulsionadores é construir os alicerces do futuro de um país em paz.

 

Tecnologia para a Paz

O objectivo de Lagu Stephen, um dos criadores do JHub, é o dia depois da conquista da paz. Quando tudo tiver acabado, o país precisará de tudo e, no JHub, tenta-se treinar os jovens que enfrentarão esses desafios.

Por último, o exemplo de Jokkolabs demonstra como esse fenómeno se expande por todo o continente. Karim Sy, um empresário do Senegal, iniciou o projecto em Dacar em 2010.

Bamaco (Mali), Uagadugu (Burkina Faso), Casablanca (Marrocos), Abidjan (Costa do Marfim), Cotonou (Benim) e Banjul (Gâmbia) fazem parte da iniciativa sete anos depois. Um espaço de Jokkolabs em Nanterre (França) completa a lista. O senegalês também concebeu modelos comerciais e organização diferentes para cada centro, dependendo do contexto de cada país.

Na maior parte destes espaços, as comunidades locais e as sociedades civis têm um protagonismo especial. Karim Sy apoiou-se nas estruturas de cada lugar para enraizar o projecto. Nos primeiros lugares que o centro ocupou em Dacar, conheceram-se alguns dos activistas que criaram uma das comunidades mais dinâmicas do Oeste do continente. Os recursos do tech hub serviram para uma iniciativa de controlo das eleições em 2012, impulsionada por uma vintena de organizações da sociedade civil. Casualmente, uma parte dessa iniciativa apoiava-se num desenvolvimento particular de Ushahidi. Ou o círculo fechava, ou, melhor, a espiral continuava a crescer.

Em Campala (Uganda), Antananarivo (Madagáscar), Adis-Abeba (Etiópia), Lusaca (Zâmbia), Abidjan (Costa do Marfim) ou Kigali (Ruanda)... Poucas capitais do continente africano estão órfãs desses espaços de inovação em que muitos jovens depositam as esperanças de encontrar um novo modo de vida e uma ferramenta para construir uma nova sociedade. Esses centros tecnológicos são a melhor expressão do leque de novas oportunidades que desencadeiam as TIC nos países africanos. A maioria deles manteve intacto o espírito de código aberto, da cultura livre e do trabalho colaborativo, o que encara o desenvolvimento das TIC em termos de cooperação e não de competição. Esta filosofia entronca-se com o sentimento de comunidade da maior parte das sociedades em que encontrou o melhor caldo de cultura, levou ao extremo a vontade social e acelerou a capacidade de inovação, com resultados surpreendentes.


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