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Novembro de 2017

Aprender a ser missionário
Por: HENRIQUE MATOS, jornalista (Agência Ecclesia)



 

O padre Filipe Resende, missionário comboniano, trabalha no Quénia há nove anos. Com esse povo africano partilha as alegrias e tristezas da vida e a experiência de fé em Jesus Cristo

 

 

 

Como foi a experiência inicial no Quénia?

Quando cheguei ao Quénia, há nove anos já lá tinha estado antes, a fazer a Teologia , estive em lugares onde os primeiros missionários tinham chegado há cerca de quarenta anos. Ou seja, a missão, a evangelização está mesmo no começo.

 

No interior do Quénia?

No interior do Quénia. De 2008 a 2013, estive lá, em missão, perdido no meio do mato. Quando lá cheguei, nem sequer havia electricidade, tudo isso...

 

Isso fê-lo pensar, questionou a sua vocação?

Não, porque tive a graça de ter feito a Teologia já no Quénia, de 1997 a 2002, conhecia esta realidade. Foi sempre o meu sonho, desde miúdo, estar numa missão assim longe, onde as pessoas nunca ouviram falar de Jesus, do Evangelho.

Quando cheguei ao Quénia, várias vezes me deparei com esse sonho que tinha, quando era mais jovem, ir para um lugar onde não há cristãos, onde o Evangelho não tinha história. Foi conseguir realizar o sonho, uma vocação. Não é tudo êxitos, também temos momentos de dúvida, de pensar que se deviam ter feito as coisas de outra forma.

 

Existe a tendência de chegar e querer mudar o mundo. É muito difícil aculturar-se, aprender com quem está?

Essa é a grande lição que todos os missionários aprendem e que não pode ser ensinada antes, tem de ser vivida no local. Sabemos, em teoria, que vamos para aprender, que é preciso estar abertos, com o desejo de ajudar, de ir fazer a diferença.

Quando chegamos ao local, a própria experiência vai-nos fazendo entender essa necessidade de aprender. A minha educação foi que, aos domingos, vamos à Missa, temos de vestir a melhor roupa, os melhores sapatos; quando cheguei ao Quénia, nesta realidade, era ao contrário, porque ao sábado e ao domingo ia para um bairro-de-lata onde há esgotos a céu aberto, lama, tudo o que se possa imaginar.

Na minha mente, isto fez uma confusão enorme. É aquela necessidade de nos readaptarmos, conforme a situação que estamos a viver. Obviamente, isto é uma coisa de nada, não tem grande filosofia, mas revela o confronto que temos de fazer connosco próprios.

 

Esse confronto passa para o que está escrito nos livros, a forma como se apresenta Deus nesses lugares, nesses povos?

É um exercício que não é nada fácil. Mais do que a Liturgia, que já é muito adaptada, temos vários momentos da Eucaristia que estão adaptados à alegria, à dança, vejo mais questões do ponto de vista moral. À consideração que temos de fazer a nível de vida sacramental.

É muito raro no Quénia, por exemplo, mesmo agora em Nairobi, numa zona urbana, que um casal, jovem, decida casar-se e só ir viver juntos depois de estarem casados. Normalmente, os casamentos que nós temos, 90 % dos casos, são de famílias que já têm 5, 10, 15 anos de vida conjunta, com filhos. Ora, a abordagem ao Sacramento do Matrimónio, a formação que temos de fazer, é completamente diferente nestes casos. São mais estas situações que representam um desafio até mesmo à própria reflexão teológica.

Às vezes o medo de arriscar, de fazer diferente, bloqueia-nos, mas é bonito haver uma interajuda, trazendo o que é nosso e deixar que a Igreja local, autóctone, com bispos, padres, leigos teólogos, percebam o que devem fazer.

 

Na zona urbana da periferia de Nairobi há muitas outras propostas?

É muito mais fácil trabalhar com outras denominações não-cristãs, como o Islamismo, do que propriamente até as denominações evangélicas, pentecostais. O Quénia tem um proselitismo muito grande de igrejas-cogumelos, crescem igrejas de tudo e mais alguma coisa...

Às vezes dizemos que, para começar uma Igreja no Quénia, basta ter a Bíblia, um microfone, um amplificador e alguém que diga “ámen”. Muitas destas que nós aqui chamamos seitas começaram a ser um negócio, porque têm uma forma de falar ao sentimento da pessoa, para qualquer ganho, sem ter critérios teológicos ou orientações litúrgicas. É um apelo muito fácil ao coração e ao sentimento. E as pessoas que vivem nas periferias da cidade têm uma vida muito difícil, sofrem a delinquência, a insegurança. Estas igrejas exploram isto, jogam com a questão de o povo africano ser muito religioso.

Mesmo no mato, a relação que a cultura tem com a vida das pessoas e com Deus é muito próxima. Em todos os acontecimentos da vida social, há sempre a dimensão religiosa, sempre. A Igreja Católica tem tentado adaptar-se a isto, com uma abertura muito grande à reconciliação, às situações difíceis, estando ao lado das pessoas.


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