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Junho de 2018

Mali: O rio Níger agoniza ao passar por Bamaco
Por: María Rodríguez, Bamaco (Mali)



Pescadores sem peixe

 

O rio Níger atravessa cinco países antes de desembocar no delta a que dá nome. Em Bamaco, a capital do Mali, é protagonista de uma história na qual colidem a sobreexploração do rio e as necessidades da população que depende dele.

Conta Bazoumana Coumare que há muito tempo a zona do rio Níger que atravessa Bamaco, a capital do Mali, estava cheia de vida. Havia crocodilos, e por vezes passavam manadas de hipopótamos. Sobre as suas águas planavam diversas espécies de aves. Havia variedades de peixes que hoje em dia já não se encontram e as ilhas que sobressaem no rio eram bosques que albergavam todo o tipo de animais, incluindo leões. «Estou a falar-lhe de quando não havia motos nem carros», precisa Coumare, sem dar uma data concreta. Actualmente, se não fosse por estas histórias narradas e transmitidas de geração em geração, e porque Bamaco é conhecida como a cidade dos crocodilos. Hoje em dia, o rio está doente. Coumare é o chefe de um dos mais de vinte acampamentos de pescadores que se construíram nas margens do Níger. Constituído por casas de lona e de barro, o acampamento de Coumare contrasta com as enormes mansões de particulares e embaixadores europeus do bairro em que está situado. De facto, o acampamento encontra-se pegado à parede da casa do embaixador de Espanha no Mali. Evidencia-se que os modos e as condições de vida são totalmente opostos, mas os pescadores não querem ir-se embora. Viver perto do rio faz parte da sua cultura. O acampamento de Coumare foi levantado pelo seu pai no início dos anos 70 e hoje em dia acolhe cerca de vinte famílias de pescadores e à volta 300 crianças que durante anos viram o seu lar ameaçado pelo crescimento urbanístico da cidade. As zonas próximas do rio são as mais desejadas por particulares com dinheiro que querem edificar mansões ou hotéis. As pressões judiciais para que o desalojem transformaram-se numa notícia habitual nos acampamentos de pescadores. Também o de Coumare este longo tempo foi ameaçado, até que «ganhámos. Fomos para a Justiça e ganhámos. As administrações locais puseram-se ao nosso lado», explica o pescador. «Mas não conseguimos os papéis que regulem o nosso direito a esta terra», acrescenta.

 

A pesca diminui

Esta não é a única ameaça que sofrem os pescadores em Bamaco. A sua estreita relação com o Níger faz que todos os estragos que sofre o rio os padeçam também eles. A diminuição da pesca dificulta as suas condições de vida ao reduzirem-se os seus rendimentos. Na época das chuvas, todos os resíduos da cidade são arrastados ao rio, provocando diarreias e outras doenças nas crianças e o aumento de casos de malária entre os pescadores, assim como a inundação de parte do acampamento. A seca e o avanço do deserto, causados pelas alterações climáticas, são dois dos factores que dificultam a vida do rio e a dos pescadores. A sobrepesca e a contaminação, outros dos motivos que lhes causam dano. Mas a lista é tão longa que parece infinita: os resíduos sólidos e líquidos, como sacos de plástico e produtos químicos, que são lançados nas suas águas; produtos como o mercúrio, utilizados na extracção artesanal do ouro; o ruído dos motores de algumas embarcações, que causam stress aos peixes; o impacto das represas criadas no rio, que permitem a irrigação dos cultivos, mas que impedem a correcta migração das espécies que vivem no seu leito; a contaminação luminosa, que afecta o ecossistema aquático, e até o jacinto-de-água, uma planta aquática que cresce muito depressa, invadindo todo o caudal e impedindo que as pirogas naveguem e enredando as redes dos pescadores.

Coumare guarda com afecto entre os seus poucos pertences a memória do mestrado que elaborou Bakaye Tangara com o título Incidência da urbanização sobre o recurso pesqueiro e as condições de vida dos pescadores em Bamaco (2014-2015). Segundo o documento, para os pescadores de Bamaco o motivo principal de que o rio esteja a ficar sem peixes é a sobrepesca. Assim pensam, segundo os dados recolhidos por Tangara, 34 por cento deles. Mas 33 por cento associam-no à contaminação do rio.

Alguns pescadores profissionais admitem realizar práticas proibidas no seu desespero por capturar algo, mas é preciso ter em conta também que o número de pescadores em Bamaco aumenta ao ritmo do êxodo rural dos jovens que deixam as suas terras e procuram uma oportunidade na cidade. Não são profissionais, mas utilizam a pesca como um meio de ganhar dinheiro sem pensar que as suas práticas são negativas para o meio ambiente.

«Ao princípio, a pesca não era uma actividade económica. Pescávamos para comer, não para vender. Capturar e cozinhar, assim era a vida.

A população da cidade era menor, mas agora cresceu e de maneira progressiva as necessidades de consumir pescado também aumentaram e há uma pressão sobre os recursos», explica Coumare. «É por isso que as pessoas se viram obrigadas a abandonar o seu modo tradicional de captura em favor de um pelo qual capturem mais peixes para obter benefício económico», continua.

Coumare pode dar datas muito precisas de onde estavam os peixes no rio segundo a época do ano, segundo a subida e descida do rio. A 24 de Setembro, 2 de Outubro... Explica tudo quase de maneira milimétrica, com um sorriso e total segurança. Mas as coisas já não são assim. As migrações dos peixes tornaram-se anárquicas, como a vida no rio, onde todos lutam por sobreviver à velocidade do crescimento urbano, e perante o olhar ausente e a falta de vigilância das autoridades.

 

Um rio de plásticos

A face mais visível da contaminação do rio são as centenas de resíduos sólidos que se acumulam nas suas margens. Para os pescadores, o rosto visível deste fenómeno são os sacos de plástico, que invadiram a água como se de uma terrível praga bíblica se tratasse. «Em vez de capturar peixes, capturamos sacos», diz Coumare.

E, segundo assinala Tangara na sua memória, «o abandono dos sacos provoca um aumento da temperatura e má oxigenação, nefasta sobretudo aos ovos e às larvas» dos peixes.

Os novos inquilinos do Níger na capital maliana são as garrafas de plástico, os trapos velhos, os pneus e outros restos de veículos e resíduos. Com mais dissimulação se incorporam as águas residuais domésticas e industriais, que vão directamente para o caudal; os produtos químicos, como herbicidas e insecticidas provenientes das zonas de produção de arroz; os óleos usados e os corantes que as mulheres empregam para tingir tecidos e com os quais obtêm algum rendimento extra, mas que são altamente contaminantes.

«Os cidadãos têm a concepção de que o rio tudo pode absorver e fazer desaparecer», conta Moussa Diamoye, director-geral adjunto da Agência da Bacia do rio Níger, criada em 2002 para salvaguardar o Níger e os seus afluentes em território maliano. Diamoye enfatiza os problemas que causa o jacinto-de-água, do qual a agência retirou cerca de 415 toneladas. Mas também refere as edificações nas margens do rio que «obstruem o caminho da água. Mas em algum momento nos recordará que se puseram no seu caminho», sentencia. Também alude ao grande crescimento demográfico que vive Bamaco, a uma média de 6 por cento anual desde há quinze anos. «Quanto mais aumenta a população, mais resíduos há», evidencia.

 

Rotina perante a realidade

Mas a ausência de peixes não impede Coumare levantar-se cada manhã muito cedo para sair para a pesca. Toda a vida o fez e continua a ser com esta actividade com que se sustenta. Às 5 da manhã, põe-se em marcha o motor da piroga de Coumare, acompanhado de dois dos seus filhos, um de 16 e outro de 14 anos. O ruído acaba com o silêncio da noite, mas 15 minutos depois detém-se para lançar a primeira de três redes ao rio.

Devagar e com ordem, Coumare solta-a e deixa-a cair na água da proa da pequena embarcação, ao mesmo tempo que o seu filho rema para trás para que fique bem estendida. «Ele sabe melhor que ninguém em que momento e lugar se encontram agora os peixes», diz o seu filho Ba. Coumare pesca desde criança. Começou com seis ou sete anos e percorreu o rio para lá de Bamaco, navegando-o até noutros países da região. Coumare pertence ao rio. Basta olhar-lhe para os olhos para descobrir na sua íris a cor azul do céu que se reflecte na água.

Em metade da obscuridade o rio está quieto e apenas nos lugares onde há correntes se formam ondas e remoinhos. Mas a obscuridade não é total nas noites para o Níger. As luzes alaranjadas e brancas iluminam as suas margens, reflectindo a cidade na água. Ainda assim Coumare precisa de uma lanterna, que vai acendendo de maneira intermitente de cada vez que vê um objecto na água: uma garrafa, uma planta aquática, outra... Nada de perigoso nem fora do normal.

 

A mitologia no rio

Diz Coumare que ainda de vez em quando pode ver-se algum hipopótamo. Mas que não tem medo que vire a sua piroga porque leva consigo um amuleto do seu avô. Conta que um quis atacar o seu avô, mas este dirigiu-se ao animal, «vai morrer para a margem», e o animal assim fez.

O rio sempre esteve povoado de lendas e crenças. Djins (génios) e tótemes regem as águas do Níger, mesmo em Bamaco. Mas Coumare mostra indícios de não lhes dar importância. Zonas onde se passa uma piroga com uma mulher grávida esta sofrerá um aborto, lugares onde se têm de realizar sacrifícios para evitar desgraças... «Hoje já não existem», diz Coumare, como se a contaminação também os tivesse exterminado, como um prefácio da morte do rio. Contudo, assegura que ainda acredita nessas coisas e que ele viveu acontecimentos inexplicáveis...

Depois de uma manhã de pesca, Coumare e os filhos pescaram quatro peixes. Tiraram mais sacos de plástico que peixes. Com este género não ganharão mais de três ou quatro euros. O sector da pesca é crucial na economia maliana e poderia ser um pólo de desenvolvimento. Segundo diversos estudos realizados, o seu contributo oscila entre 3 e 4,2 por cento do PIB. Além disso, ocupa à volta de 7 por cento da população activa, de acordo com um relatório realizado em 2012 pela União Económica e Monetária do Oeste Africano (UEMOA).

No caso concreto do distrito de Bamaco, há 545 pescadores profissionais que contribuem na sombra para a economia urbana. Contudo, os programas de urbanização não têm em conta a existência dos acampamentos de pescadores. E, se bem que a Direcção Nacional da Pesca defenda os seus esforços à volta do seu programa de desenvolvimento da piscicultura no rio como meio para lutar contra a diminuição de peixe, esta comunidade sente-se abandonada pelas autoridades e indicam que não pensam neles a não ser nos momentos em que ocorre um naufrágio.

«Às autoridades só lhes interessamos quando um carro cai para a água de algum das três pontes que atravessam a cidade. Os bombeiros estão mal formados, e em geral não sabem nadar, mas nós sim», explica Coumare. «Aqui, no Mali, se queremos alguma coisa, temos de dar algo em troca. Se não temos relações com o Governo, não nos têm em conta», diz. Perguntamos a Ba, o seu filho de 16 anos, se continuará a dedicar-se à pesca, como o seu pai. «Quero ser contabilista», confessa, «não posso ser pescador, porque quando for mais velho já não haverá peixe.»


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