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Julho de 2018

Mundo: A igreja em renovação através da força renovadora dos jovens
Por: P.e Eduardo Duque, Professor da Universidade Católica Portuguesa (Braga)



A próxima reunião do Sínodo dos Bispos, que se realizará no Vaticano em Outubro, pode ser um momento extraordinário para ouvir as inquietações da juventude e dizer a cada jovem que a Igreja precisa dele e de que está atenta ao seu percurso.

 

Uma Igreja que não escuta os seus jovens é uma Igreja sem futuro, porque os jovens são, naturalmente, o elemento motriz e dinamizador do processo de transformação social. Os jovens são os impulsionadores da História, agentes de reforma, de motivação, de esperança e, até mesmo, em alguns casos, sujeitos de grandes manifestações revolucionárias.

A título de exemplo, veja-se a força dos jovens entre a década de 50 e 70, em que determinaram uma importante função no desenvolvimento da modernização das estruturas sociais e, rompendo com as estruturas normativas dominantes, assumiram novos valores, novas condutas, marcando novos rumos e abrindo novas perspectivas. A geração jovem surge, nesta época, como mentora de importantes convulsões sociais. Exemplo disso é, já na década de 50, a chamada geração Beat, formada por jovens intelectuais que contestavam a falta de pensamento crítico e o exagerado consumismo; na década de 70 e posteriormente a ela, surgem vários movimentos, estilos e comportamentos que modificaram inexoravelmente o modo de vida. Destacam-se o Movimento pelos Direitos Civis; a proliferação de vários géneros musicais, como o iniciado com Elvis Presley; os inumeráveis protestos de rua, como o movimento estudantil de Maio de 68 ou a Primavera de Praga. Enfim, a juventude tem uma força que lhe é própria, uma verdade inerente, uma história autêntica, um grito que deve ser escutado e não a ouvir é não querer perceber o rumo para onde vamos, é fecharmo-nos em nós próprios, é morrer por dentro, sozinho e pobre.

Estou em crer que o Santo Padre percebeu melhor do que ninguém a juventude, percebeu a força que os motiva, a luz que transportam e o caminho que seguem. Creio que Papa Francisco leu bem a História, percebeu os desafios que a sociedade enfrenta, o definhamento dos valores mais determinantes para um mundo justo e, por isso, porque o papa percebeu que o mundo precisa de ser iluminado e os jovens são, pelo génio que os caracteriza, os que melhor arrastam e induzem a História, convocou o Sínodo dos Bispos dedicado aos jovens. 

O que é que se pretende com este sínodo? Acima de tudo, conhecer os jovens, as suas inquietudes e expectativas, o que os move, o que é que eles querem, o que os preocupa, as suas dificuldades e, naturalmente, como é que a Igreja os pode acompanhar tratando-os nas suas diferenças.

 

Vivências juvenis

De forma a responder a este desafio, elaborou-se um inquérito visando a recolha de dados acerca das vivências juvenis e da compreensão das experiências de acompanhamento vocacional que são feitas pelos agentes de formação e evangelização nas paróquias.

O questionário estava dividido em cinco partes, sendo que cada uma delas aborda questões diferentes sobre a forma como os jovens vivem a sua dimensão religiosa e qual o papel dos diferentes agentes no processo de evangelização e de acolhimento destes no seio da Igreja.

Vejamos, de forma resumida, as conclusões do inquérito: 

Questionados sobre o modo como se ouve a realidade dos jovens, há dioceses que propõem espaços comuns, de continuidade com modelos tradicionais para proporcionarem espaços de diálogo e conhecimento das inquietações e projectos dos jovens, outras dioceses procuram dar voz aos jovens de forma mais direccionada aos contextos actuais deste grupo, criando espaços para a participação activa dos jovens no plano pastoral das paróquias, movimentos ou colégios.

Há a consciência geral por parte dos responsáveis dos movimentos eclesiais sobre quais os desafios e oportunidades com os quais os jovens se confrontam na actualidade, sendo que é comum entre as várias dioceses a visão que apresentam sobre esta questão.

O desafio com o qual o jovem mais se confronta na actualidade prende-se com o desafio profissional, nomeadamente, a preocupação com a procura de emprego e de uma ocupação profissional a partir da qual o jovem se realize profissional e pessoalmente e encontre a estabilidade financeira.

São vários os lugares de agregação juvenil com sucesso eclesial sugeridos pelas dioceses, no entanto, aqueles que merecem mais destaque entre todos são os encontros Diocesanos de Juventude, Jornadas Mundiais, entre outros encontros de grande agregação juvenil, pois ajudam os jovens a perceber que há muitos outros jovens com o mesmo ideal religioso.

De um modo geral, o tipo de lugar de agregação de jovens fora do âmbito eclesial passa pela mesma tipologia, independentemente das dioceses. Neste sentido, os jovens agregam-se, sobretudo, em actividades desportivas, festivais de música, ambientes nocturnos, grupos culturais, etc.

Os jovens de hoje são mais exigentes nas suas prioridades e escolhas e, por isso, também começam a pedir mais à Igreja. Neste contexto, a Igreja não pode deixar de procurar mecanismos para os acompanhar e integrar. As linguagens, experiências e propostas com que um jovem se confronta actualmente são muito aliciantes e, por isso, a Igreja tem um desafio exigente que não pode desvalorizar, caso contrário os jovens deixam de se rever nela e nas suas propostas.

Os espaços de participação dos jovens nas comunidades eclesiais são os mesmos na maioria das dioceses, as propostas de participação não são muito diferentes das do passado, nomeadamente: Grupos de jovens, Escuteiros, catequese até ao 10.º ano, exercício de ministérios litúrgicos: acólitos, leitores, grupos corais, encontros dirigidos aos jovens: diocesanos, nacionais ou mundiais e participação em actividades de voluntariado e de cariz social.

São vários os locais mencionados pelas dioceses sobre onde e como os jovens encontram outros jovens que não frequentam os seus ambientes eclesiais. Por um lado, há dioceses que mencionam os espaços comuns de sociabilização entre pares, por outro lado, há dioceses que referem o contacto personalizado, no qual os jovens mostram a sua fé com o seu testemunho de vida, em acções de voluntariado, curso Alpha, peregrinações, Taizé, etc. Há ainda dioceses que reconhecem que saem pouco ao encontro de outros jovens fora dos ambientes eclesiais, sobretudo porque é difícil sair da sua zona de conforto.

Quanto ao papel das famílias e comunidades no discernimento vocacional dos jovens, é unânime a ideia de que tanto a família como as comunidades atribuem pouca atenção à questão do discernimento vocacional dos jovens.

Fazendo uma reflexão sobre a contribuição das escolas, universidades ou outras instituições de ensino (civis ou eclesiais) para a formação no discernimento vocacional, de modo geral, as dioceses referem que estas instituições de ensino focam a sua atenção quase exclusivamente no discernimento profissional, na formação técnica, dando valor ao sucesso escolar, projectando-o para o percurso profissional dos jovens.

A mudança cultural determinada pelo desenvolvimento do mundo digital é apresentada de duas formas diferentes: por um lado, o mundo digital é um desafio, pois gera mudanças no paradigma da evangelização, é um meio cheio de potencialidades, que facilita a vida quotidiana, por outro lado, tem uma vertente negativa que se prende com a utilização excessiva, que traz riscos e que reduz a presença e interacção humana.

As dioceses consideram que encontros como as Jornadas Mundiais da Juventude ou outros eventos nacionais ou internacionais mobilizam um grande número de jovens, é um efeito de massas que entusiasma, por isso, há oportunidades associadas a estes eventos que aproximam os jovens e os fazem sentir parte de um grupo, pois a preparação dos encontros propõe um conjunto de iniciativas que envolve os jovens na dinamização das mesmas. Porém, por vezes, descuidam-se os pós-encontros, já que nem sempre há estruturas e capacidade de resposta por parte de muitas paróquias.

As dioceses apresentaram um conjunto de experiências que se aproximam entre si na forma como projectam experiências e caminhos de pastoral juvenil vocacional. Para muitas dioceses, o discernimento vocacional começa junto do pároco e passa pelas equipas de animação vocacional ligadas aos seminários, para outras, as vocações surgem ligadas às experiências de grupos e movimentos juvenis.

Há um ponto de vista em comum em várias dioceses, quando analisam o tempo e espaço dedicados pelos pastores e outros educadores ao acompanhamento espiritual pessoal, salientando-se que há um real deficit de tempo atribuído à escuta. Tanto os sacerdotes como os leigos têm dificuldade em encontrar disponibilidade para dar resposta à necessidade que existe de acompanhamento espiritual, pois este requer tempo de qualidade. Os jovens referiram também que nem sempre encontram leigos bem formados para assumir a função de acompanhamento espiritual.

Quando questionados sobre as iniciativas e caminhos de formação postos em prática para os acompanhadores vocacionais, as dioceses, de modo geral, dizem não orientar qualquer formação para estes acompanhadores vocacionais dos jovens ou quando as há são incipientes ou a procura é reduzida.

O acompanhamento pessoal proposto nos seminários das várias dioceses passa sobretudo pela direcção espiritual, no qual se cria uma relação de proximidade, proporcionando um discernimento mais natural e seguindo o ritmo do jovem.

Questionados sobre as formas como se ajuda o jovem a olhar para o futuro com confiança e esperança, a partir da riqueza da memória cristã da Europa, as dioceses apresentaram diversas formas de ajudar um jovem a olhar para o futuro com confiança e esperança, entre outras, através da valorização de conteúdos sobre a história cultural e religiosa da Europa na disciplina de EMRC; experiências de contacto com as diversas manifestações de arte; mostrando o valor da fé na promoção do respeito pela diferença, etc.

Conscientes de que muitas vezes os jovens sentem-se descartados e rejeitados pelo sistema político, económico e social em que vivem, as dioceses foram levadas a reflectir sobre a forma como se deve ouvir este potencial de protesto, a fim de que se transforme em proposta e colaboração. Perante esta realidade, verifica-se que a Igreja deve proporcionar espaços onde a voz dos jovens seja ouvida e deixar que estes sejam protagonistas da mudança.

Numa sociedade cada vez mais individualista, importa compreender quais os níveis em que a relação intergeracional funciona e como é possível voltar a activá-la quando esta deixa de funcionar. A família é o espaço natural de promoção da relação intergeracional, embora esta esteja cada vez mais reduzida. No entanto, é importante reforçar esta relação em seio familiar, pois é dela que saem as referências.

 

Caminhar com os jovens

É extraordinário perceber que a Igreja não quer passar ao lado da juventude, que quer renovar e abrir-se, que quer dialogar com as histórias de cada um! Este sínodo, para mim, representa a Igreja a querer dar o primeiro passo, a estar na linha da frente, a sentir as alegrias e os problemas dos jovens, representa a Igreja a reacender a sua chama, a ser verdadeiramente Páscoa, a reconstruir o Corpo de Cristo, a partir do rosto de cada jovem, porque não quer que nenhum deles deixe de se ouvir. O sínodo é a Igreja a reabrir as suas portas, é destapar o altar, é convidar a entrar e a sentar-se, pôr-se à vontade como nas nossas casas, pôr-se à mesa e partilhar. Este sínodo pode ser um momento extraordinário de dizer a cada jovem que a Igreja precisa dele e de que está atenta ao seu percurso. 

Se assim for, como creio que será, teremos uma Igreja pós-sinodal a falar a mesma linguagem dos jovens, a compreendê-los e a assumir as suas inquietações e que são, em parte, fruto das relações laborais cada vez mais flexíveis, precárias e inseguras. A continuarmos com este modelo social, os jovens não podem arrumar as suas vidas, ter o seu espaço, constituir família, porque é tudo muito fugaz, muito célere, marcado pela falsa mobilidade, sem se vislumbrar qualquer futuro.    

Os mais prejudicados por esta situação têm sido, sem dúvida, os mais jovens. Eles são os que mais claramente comprovam como as suas condições laborais e os seus títulos académicos raramente se traduzem em oportunidades vitais. Tudo isto acontece num contexto em que a juventude apenas conta com outras alternativas de vida, que não sejam as do consumo, para preencher o vazio que deixa a falta de oportunidades educativas e laborais. Como escreveu Hannah Arendt, em meados do século passado: confrontamo-nos com a perspectiva de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho, quer dizer, sem a única actividade que lhes resta. Está claro que nada poderia ser pior.  

Os jovens transitam assim, um tanto erráticos e inseguros, pelos precários mundos da vida do trabalho, da educação e do consumo, que conformam a identidade juvenil actual.   

Se o mundo do trabalho não permite que os jovens actuais construam biografias estáveis, também a esfera educativa, outro dos principais universos da sua integração, tão-pouco lhes possibilita criar expectativas estáveis de uma vida projectada para o futuro. Por isso, mais do que nunca, faz falta uma Igreja que acompanhe os jovens, os ouça e seja mãe, como todas as mães, que ame, perdoe e encaminhe. Estou certo de que os nossos jovens querem amar esta Mãe.

 

NÚMEROS

Dos jovens portugueses entre os 16 e os 29 anos

 

57 % identificam-se com alguma religião

53 % dizem-se católicos

42 % afirmam não ter nenhuma religião.

27 % dos jovens que se disseram católicos vão à missa pelo menos uma vez por semana


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