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Setembro de 2018

Itália: Uma história feita de nomes
Por: Domenico Guarino, missionário comboniano



Um grupo de missionários combonianos e leigos missionários combonianos trabalham em rede com associações, organizações e movimentos num esforço para defender os direitos dos imigrantes e refugiados que chegam às costas da Itália.

Desde Setembro de 2013, o porto de Palermo, na Sicília, tornou-se parte da linha de pontos de desembarque no Mediterrâneo, aonde chegam migrantes da África e de países de outros continentes. Após a sua chegada, estamos lá para dar estojos com roupas, sapato, um pacote de comida com uma sanduíche, maçã e uma garrafa de água.

Não queremos simplesmente fornecer-lhes bens materiais, também tentamos recolher informações sobre como são tratados os migrantes que chegam, pois eles já estão sobrecarregados com experiências indescritíveis sofridas antes ou durante a viagem. Além disso, eles são totalmente ignorantes sobre o que esperar na Itália.

Infelizmente, em muitas ocasiões, os corpos daqueles que morreram no mar também chegam com os sobreviventes. Desde o início, a nossa preocupação tem sido seguir de perto e dar a esses corpos uma sepultura digna no cemitério de Palermo.

Todos os anos, em Novembro, no Dia de Todos os Santos, a sociedade civil se junta aos representantes de várias religiões para um serviço inter-religioso em sua memória. É um acto de solidariedade com as vítimas para denunciar as causas da sua morte, entre elas os acordos chocantes da Itália e, atrás da Itália, da Europa com a Líbia e outros terceiros que trabalham para bloquear ou rejeitar os migrantes.

 

Cultura de exclusão

Reconhecemos a disseminação de uma cultura de exclusão. Hoje, as pessoas sentem-se livres de qualquer responsabilidade social, qualquer laço com os outros, qualquer objectivo comum. É urgente concentrarmo-nos de novo nas histórias e na vida dos migrantes para enfrentar o racismo e a xenofobia, baseados em falsas suposições e em informações dominadas e manipuladas pelos meios de comunicação social.

Graças a actividades que promovemos nas escolas e nas paróquias, apresentamos as histórias dos migrantes, refazendo as várias fases das suas jornadas: as razões pelas quais partiram, a sua permanência na Líbia, que subverte as suas vidas para sempre, atravessando o Mediterrâneo e a sua chegada à Itália, onde acabam por ser meros números.

Ir além das mentiras, reconhecer e defender os direitos dos migrantes como pessoas são passos muito importantes na construção de uma sociedade intercultural e multicultural.

Em cooperação com organizações cívicas e eclesiais, compartilhamos espaços de alojamento para os migrantes e damos as boas-vindas aos projectos com a ideia de produzir reuniões de base e relações com o território. No processo de aceitação, há fases críticas ligadas especialmente ao tempo excessivo que permanecem nos centros de primeira aceitação e ao pequeno número de estruturas ou lugares especiais no SPRAR (Sistema de Protecção para os Requerentes de Asilo e Refugiados).

Em muitos casos, a inserção de migrantes transforma-se numa verdadeira «lotaria». Reflectir sobre os migrantes significa repensar as nossas estruturas sociais, políticas e eclesiais. Significa ter a coragem de mudar a ordem actual das coisas.

Por fim, o elemento constante da nossa presença é a denúncia profética de pessoas e instituições que especulam com a falta de esperança dos migrantes, explorando o seu trabalho, ou daqueles que estão na base política, que acabam por se apropriar dos recursos destinados ao processo de chegada.

«Sempre que constrói uma parede», escreveu Calvino, «pense no que deixa do lado de fora.» O que hoje parece uma estrutura protectora, amanhã poderia tornar-se uma prisão. A vida desenvolve-se e cresce além da parede. Mas, se o medo é contagiante, também a coragem e a esperança o são.


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