Página Inicial







Actualizar perfil

Em Foco
Setembro de 2018

Colômbia: A aposta do perdão
Por: Paolo Moiola, jornalista



No próximo dia 24 de Novembro, cumprem-se dois anos sobre a assinatura dos acordos de paz na Colômbia. É ainda um país polarizado, com políticos e população divididos entre vingança e perdão. Apesar dos problemas, o P.e Leonel Narváez Gómez, fundador e presidente da premiada Fundação para a Reconciliação, está optimista. Segundo o missionário, os acordos de paz estão entre os melhores alguma vez subscritos no mundo. Contudo, é indispensável passar de uma «economia política do ódio» a uma «cultura do perdão e da reconciliação». Partindo desta mudança individual e colectiva, será possível alcançar uma «paz sustentável».

 

Bogotá. Quando fala, usa muito as mãos como que a dar mais peso às suas palavras. Palavras aliás escolhidas com cuidado, nunca banais.

A história pessoal do P.e Leonel Narváez Gómez, colombiano e missionário da Consolata, é rica de etapas, mas sempre numa única direcção. Parece, de facto, que, desde o início, o seu caminho era marcado por um objectivo preciso: enfrentar e ultrapassar as problemáticas psicológicas e sociais que a guerra induz nas pessoas e na colectividade.

O P.e Leonel é originário do mesmo lugar (Genova, Quindio) onde nasceu Pedro Antonio Marín Marín (aliás Manuel Marulanda Vélez dito Tirofijo, 1930-2008), o fundador das FARC, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. «A coisa curiosa é que não só éramos da mesma terra, como fazíamos anos no mesmo dia, 13 de Maio. Muitos anos depois estas coincidências dar-me-ão a oportunidade de estreitar uma amizade – se assim se pode chamar – com o grande chefe das FARC.»

À parte o lugar e o dia de nascimento, os caminhos empreendidos pelos dois conterrâneos são muito diferentes: Leonel – dezanove anos mais novo – estuda para ser sacerdote, Manuel envereda pelo caminho da luta armada. Os dois encontrar-se-ão pela primeira vez face a face em circunstâncias especiais.

Em 1977, o P.e Leonel parte para o Quénia, onde permanecerá durante onze anos. Aqui tem ocasião de conhecer de perto as consequências dos conflitos no Sudão, Etiópia, Moçambique, Ruanda, Eritreia, Somália, Africa do Sul. Regressado ao país, em 1989 vai para Caquetá e Putumayo (Amazónia colombiana), onde a guerra civil entre o exército (e milícias paramilitares) e as FARC é coisa do dia-a-dia. 

Seguro do conhecimento do seu conterrâneo Marulanda e dos outros líderes do movimento guerrilheiro, o missionário associa-se a D. Luis Castro Quiroga, mediador oficial pelo Governo do então presidente Andrés Pastrana, nas negociações com as FARC. Entretanto, é também assessor do Comité geral e da segurança do município de San Vicente del Caguán, centro da chamada zona de distensão, durante os três anos de negociações (de 1998 a 2001). Na época o acordo não será alcançado.

Depois de uma década na Amazónia, o P.e Leonel decide aprofundar o tema do conflito nas Universidades de Cambridge e Harvard. É na famosa universidade americana que elabora uma proposta metodológica para ensinar o perdão e a reconciliação em contextos de guerra. Regressado à Colômbia, para concretizar a sua ideia, em 2003 cria a Fundação para a Reconciliação [Fundación para la Reconciliacón], instituição da qual é ainda presidente.

Tendo como objectivo a solução dos conflitos e a conquista de uma paz duradoira, em quinze anos de vida a fundação elabora modelos pedagógicos e de alfabetização emocional e cria centros e Escolas de Perdão e Reconciliação (conhecidas pelo acrónimo de ESPERE). A instituição dirigida pelo P.e Leonel obteve vários reconhecimentos, nacionais e internacionais, entre os quais o Prémio Unesco de Educação para a Paz (2006). «Hoje estamos presentes em 21 países do mundo», precisa com compreensível orgulho.

 

Padre Leonel, partimos dos acordos de paz entre o Governo e as FARC assinados em Novembro de 2016. O senhor como os julga?

Quero ser o mais neutral possível, mas as negociações colombianas produziram os melhores acordos de paz alguma vez subscritos no mundo, pelo menos até este momento. Não sou eu que o sustento, mas especialistas e académicos. Agora é o tempo da sua aplicação.

 

Sobre que elementos se baseia este julgamento largamente positivo?

Sobre o facto de as negociações terem enfrentado seis questões-chave que se tornaram outros tantos pilares dos acordos finais.

Os seis pilares são os seguintes: reforma rural e terra, inserção e participação política dos ex-combatentes, fim do conflito, droga e cultivo de coca, questão das vítimas e verificação dos acordos.

 

Relativamente ao primeiro, o da terra, considera-se que ele tenha sido elemento desencadeante do conflito.

Na Colômbia, a distribuição das terras foi sempre muito desigual. Calcula-se que seja um dos países mais desiguais quanto à propriedade fundiária. A paz passa sem dúvida por uma reforma agrária que teve muitas tentativas de solução política, mas que nunca foram levadas a termo. Não sei se alcançaremos o objectivo nesta ocasião. Pessoalmente, considero-o muito difícil por causa da dificuldade em recuperar as terras perdidas e da quantidade das pessoas afastadas dos campos. O problema é muito grave.

 

Sobre a inserção e sobre a participação política dos ex-guerrilheiros, o debate e as polémicas foram (e são ainda) muito fortes.

Felizmente, já foi aprovada a participação política de dez candidatos ex-FARC [2 mulheres e 8 homens já foram designados: 5 no Senado e 5 na Câmara, ndr]. Isso gerou muitas discussões na população, porque não se consegue imaginar que alguns supostos criminais possam agora ser legisladores do país.

O problema é: se devem ser julgados antes ou podem já entrar na política. Já entraram e agora debate-se sobre o que acontecerá se forem julgados culpados.

 

Que se entende concretamente por fim do conflito?

A entrega das armas, a concentração dos ex-combatentes em 28 zonas rurais do país, o processo de desmobilização e de reinserção na sociedade. Este é um processo em estado muito avançado. A entrega das armas e a desmobilização foram um êxito. Devo assinalar que à sua passagem os guerrilheiros foram festejados e aplaudidos pela população. Havia felicidade em ver estas mulheres e homens ir entregar as armas.

O quarto pilar dos acordos de paz diz respeito a cultivos ilícitos.

O problema das drogas é enorme. Calcula-se que na Colômbia haja cerca de 400 mil famílias que dependem do cultivo da coca (e, menos, de ópio e marijuana), que aqui encontra um terreno muito adequado. A Colômbia tem, além disso, milhares de engenheiros químicos especialistas na produção da pasta básica de cocaína.

O facto é que do exterior há uma procura tremenda. E também a Colômbia tem incrementado o seu consumo. Em suma, há mais procura que oferta. Para o agricultor, a atracção é a comercialização garantida, a facilidade de transporte, os preços aliciantes, a assistência de peritos in loco, a facilidade em encontrar produtos químicos. Se falarmos de culturas substitutas, somente um produto que ofereça tudo isto poderá ter êxito.

O problema da coca é internacional porque é uma cadeia que comporta a utilização de produtos químicos e várias intermediações. Infelizmente, quase sempre se acaba por atingir o elo mais fraco desta cadeia: o camponês, aquele que tem a menor culpa. No acordo entre Governo e guerrilha existe também a proibição da fumigação [destruição das plantações através da aspersão de glifosato com meios aéreos ou – é coisa recentíssima – com drones, ndr]. Sobre isto há, porém, uma enorme pressão dos Estados Unidos para que se reveja a decisão e se volte ao grande negócio dos produtos químicos e da fumigação.

 

O quinto pilar diz respeito às vítimas, que se contam em quase oito milhões.

O centro de tudo, em minha opinião. Os mediadores colocaram as vítimas no centro das negociações de paz e esta é uma novidade positiva relativamente a outras negociações que foram feitas no mundo. Recordo que os representantes das vítimas foram levados a Havana junto dos negociadores. Aqui puderam relatar as suas experiências e desde então as negociações mudaram.

 

Padre Leonel, o senhor utiliza uma expressão peculiar: «economia política do ódio». O que entende com isso?

Os partidos foram os vendedores perversos do ódio. E os seus representantes venceram com base nisso. A própria guerrilha sabe ter vendido ódio. E não quero dizer quem mais e quem menos. Todavia, a cultura política da Colômbia transformou-se numa destilação de ódio que gera uma cultura de vingança.

Neste momento, o grande desafio da Colômbia, além dos problemas que conhecemos (terra, droga, vítimas, reinserção dos guerrilheiros, etc.), é compreender como transformar a cultura da vingança ínsita na população. E sobretudo como transformar esta “economia política do ódio” que nos venderam e que continuam a vender-nos.

 

Depois de 52 anos de guerra civil, 220 mil mortos, milhões de desalojados, não é difícil falar em perdão?

Em primeiro lugar, entendamos bem o que é o perdão. O perdão não é esquecer, não é negar a justiça, não é negar a dor que sinto dentro de mim. O perdão é um exercício extraordinário que passa da vingança à compaixão, à misericórdia, que no fim de contas – e aqui falo como missionário – é o coração da pregação de Jesus. Tudo isto precisa de uma “tecnologia”, de um fio metodológico que nos conduza da memória ingrata (raiva e rancor) à memória grata (compaixão).

Misericórdia, compaixão, perdão são a expressão máxima do reino de Deus. O perdão elevado à máxima consequência. Sempre, até perdoar o imperdoável.

 

O perdão e a reconciliação podem-se ensinar?

Nestes últimos quinze anos, eu e os meus colaboradores trabalhámos para gerar métodos e práticas concretas, quotidianas, reproduzíveis, multiplicáveis, de perdão e reconciliação. Considero a Fundação para a Reconciliação única na América Latina e talvez no mundo. É decerto a instituição que mais trabalha sobre o tema específico da “tecnologia do perdão”. Ou, se quisermos usar outros termos, da “ecologia da alma”, que no fim de contas é o tema do perdão, da compaixão, da misericórdia. Em meu entender, este deveria ser o coração do trabalho missionário.

 

Portanto, em sua opinião, a cultura da paz e da reconciliação está a difundir-se?

Quero ser optimista. Estando ao lado das vítimas eu vejo que, pouco a pouco, se está a instaurar uma cultura de reconciliação. Pouco a pouco, o país está a encaminhar-se por esta via. Infelizmente, isto não está a acontecer nas elites, tanto políticas como económicas. Não sei – aqui tenho de usar um ponto de interrogação – se está a acontecer nas hierarquias eclesiais.

O importante é que a justiça restaurativa e este novo conceito de paz estejam progredindo. Tudo isto é possível se nós inculcarmos a cultura e a espiritualidade do perdão, a ecologia da alma. Seguramente não pode haver uma “paz sustentável” se não existir um processo de perdão. E os processos de perdão – eis o paradoxo –

são os que precisamente os católicos e os cristãos conhecem menos. Sinto vergonha em recordá-lo, mas o continente latino-americano é o mais pobre, mais desigual, mais violento e mais católico. Que significa isto? Que apreendemos um catolicismo e um cristianismo de muita liturgia e exterioridade. Mas não assumimos o mandato de aproximar-nos do próximo. Parece-me que isto nos custa muito. Em suma, o desafio é grande.

 

Que problemas está a comportar ou comportará a transição da guerra para a paz?

No processo de transição para a paz há duas características negativas que dizem respeito a todos os países empenhados nesta passagem. A primeira é que esses experimentam 3-5 anos de violência por vezes até maior face àquela do conflito porque é violência desorganizada. Circulam muitas armas livremente porque o negócio é terrível. Muitas pessoas que estavam envolvidas na guerra continuam a pensar nesta óptica. Há um grande número de vítimas – na Colômbia são oito milhões de pessoas – que continuam a viver com muita raiva e vontade de vingança. A segunda consequência é que, por causa dos custos implícitos num processo de paz, os países possam cair em depressão económica. Actualmente o esforço realizado pela Colômbia é muito elevado, sobretudo num país onde a intervenção do Estado foi sempre muito limitada.

Há, por fim, uma variável política: o novo governo de Iván Duque [ligado ao ex-presidente Álvaro Uribe e vencedor das eleições de Junho, ndr]. Em Outubro de 2017, o Tribunal Constitucional colombiano blindou as negociações por doze anos. Ou seja, nenhum dos três próximos presidentes poderá alterar os acordos assinados em 2016. Aquilo que pelo contrário sem dúvida fará a direita uribista será abrandar a sua aplicação e insistir sobre a justiça punitiva.

 

 

FUNDAÇÃO PARA A RECONCILIAÇÃO

Fundação: Bogotá, 2003.

Fundador e presidente: Leonel Narváez Gómez.

Quadro do pessoal: 40 funcionários e 2200 animadores voluntários.

Programas:

alfabetização: ensina-se e ler e escrever com o método da pedagogia de Paulo Freire e, ao mesmo tempo, oferecem-se soluções emocionais para os conflitos ligados à raiva, rancor e vingança;

pedagogia da cura e da reconciliação: ensina-se nas escolas públicas e privadas;

Centros de reconciliação: trata-se de apartamentos tomados em arrendamento em zonas de risco para desenvolver os programas da fundação;

Escolas de Perdão e Reconciliação (ESPERE): cursos interactivos e lúdicos constituídos por 12 módulos, cada um de 4 horas.

Presença: em 21 países do mundo.

Página na Internet: www.fundacionparalareconciliacion.org


Comente esta informação

Imprimir   |   Enviar a um amigo



© copyright Missionários Combonianos - Revista Além-Mar | Todos os direitos reservados