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Abril de 2018

Resistir é criar e transformar
Por: BERNARDINO FRUTUOSOS, jornalista



Brasil: Fórum Social Mundial

 

 

Centenas de organizações altermundialistas unidas pelo lema Resistir é criar, resistir é transformar participaram no Fórum Social Mundial em Salvador da Bahia, no Nordeste do Brasil. Um espaço que favorece o debate de ideias, a articulação de iniciativas e os processos de construção de um outro mundo possível e necessário.

 

Salvador, capital do Estado brasileiro de Bahia, foi o lugar escolhido para a realização da XIII edição do Fórum Social Mundial (FSM). Esta cidade do Nordeste brasileiro foi o ponto de encontro dos movimentos sociais altermundialistas de todo o planeta entre os dias 13 e 17 de Março. Numa conjuntura internacional de crise socioeconómica e ambiental, de aumento do racismo e da discriminação social, de riscos crescentes para a paz e a vida no planeta, 60 mil pessoas provenientes de 120 países debateram ideias em torno do lema “Resistir é criar, resistir é transformar”. Procura-se, desse modo, encontrar caminhos alternativos e novos modelos de sociedade e de convivência justa e pacífica.

 

Visibilizar para resistir

A tradicional marcha inaugural do FSM 2018 realizou-se na tarde do dia 13 de Março. O céu estava coberto com um manto de nuvens, mas a chuva que caíra com intensidade durante toda a noite anterior não ameaçava a realização do evento. Milhares de pessoas, que representavam organizações e movimentos de diversos países, mas com predomínio dos brasileiros, reuniram-se na Praça 2 de Julho, localizada no Campo Grande. Um imponente monumento, colocado no centro da praça e inaugurado em 1985, recorda e presta homenagem aos heróis da independência da Bahia. Nas imediações do monumento, uma comunidade indígena do Nordeste brasileiro realizava a dança do “toré”, uma cerimónia que celebra a amizade entre os povos. Ali perto, um grupo de afrodescendentes atraía os participantes com a capoeira, uma expressão cultural brasileira que mistura artes marciais, desporto, cultura popular e música. João, um dos participantes, comentou-nos que a capoeira é uma forma de resistência, de luta contra a opressão e a marginalização.

Pouco a pouco, de modo espontâneo, a marcha começou a organizar-se. Na frente, os indígenas alegravam com as suas danças e marcavam o ritmo. Durante dois quilómetros, numa caminhada colorida e lenta, os manifestantes expressaram com palavras, cantos, bandeiras e cartazes a necessidade de resistir para gerar mudanças e construir outra ordem social.

Pessoas de todo o mundo, desde a América até à África e passando pela Europa, deram visibilidade às suas lutas, apresentaram os problemas que as afectam e levantaram a voz para denunciar a opressão e a injustiça.

No actual contexto político brasileiro, as críticas ao Governo de Michel Temer não podiam estar ausentes. Mulheres, integrantes dos movimentos negros com os seus tambores e ritmos, povos tradicionais e indígenas, juventudes, sindicatos, professores, movimentos pelo direito à cidade, ambientalistas, pessoas com deficiência, entre outros, manifestaram-se com energia. Reivindicavam direitos sociais, económicos e políticos. Pediam uma educação melhor e igualitária, porque é um direito de todos os cidadãos. Denunciavam a repressão dos movimentos sociais, a militarização da política, o desaparecimento e assassínio dos defensores dos direitos humanos e ambientais, o racismo, o feminicídio, a existência do trabalho escravo e de uma indústria mineira que explora os recursos naturais sem olhar aos danos sociais e ambientais.

O ponto de chegada da marcha foi a Praça Castro Alves, espaço que toma o seu nome de um famoso poeta baiano. Esse largo, conhecido como Praça do Povo e localizado no centro histórico e colonial de Salvador, é um miradouro natural desde onde se contempla a imensidão do oceano Atlântico. Tem sido ao longo da História um lugar de manifestações sociais e resistência do povo baiano. Serviu, nesta ocasião, de palco para as diferentes apresentações culturais e artísticas do FSM programadas para esse dia.

 

Articular para transformar

A maioria das mais de 1500 actividades diversificadas e autogeridas que foram organizadas pelos movimentos sociais e organizações realizaram-se no Campus da Universidade Federal da Bahia, em Ondina. Os temas discutidos nesses dias estavam organizados em 19 eixos principais, que incluíam, entre outras questões, a Terra e a territorialidade, a democratização da economia, o direito à cidade, a economia solidária, os direitos humanos, a comunicação popular, as migrações, a situação dos povos indígenas, as mudanças climáticas e as suas consequências, a educação e o racismo. Estas actividades concretizaram-se em seminários, marchas, conferências, debates, apresentações culturais e artísticas.

O debate intitulado Mulheres, Democracia e Direitos realizou-se na Tenda do Futuro e contou com a participação de representantes de movimentos sociais nacionais e internacionais. Durante as três horas do evento foram discutidas as diversas formas de violência e desigualdade sofridas pelas mulheres.

Nas mesas temáticas que abordavam os conflitos socioambientais e a perspectiva do paradigma do Bom Viver, Lindomar Terena, do Sul do Mato Grosso, explicou que os povos indígenas estão a ser expulsos das terras ancestrais. Esses povos necessitam de recuperar os seus territórios, vincou Terena, pois estes são essenciais para preservar o modo colectivo de vida, em harmonia com a Natureza, e evitar o extermínio.

No encontro Lutas em defesa da água: caso Correntina e Bacia do rio Doce, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) dialogou sobre os impactos socioambientais causados pelos empreendimentos de barragens para geração de energia eléctrica, a mineração e os conflitos sociais em relação à disputa dos recursos hídricos.

Geovani, um jovem líder indígena pertencente ao território Krenak, testemunhou a tragédia que afecta o seu povo. Em 5 de Novembro de 2015, um mar de lama da barragem de Fundão invadiu completamente as comunidades de Minas Gerais e Espírito Santo e atingiu também terras dos índios Krenak. Além de enterrar grande parte da sua história, contaminou o rio, acabou com os peixes e as plantas usadas para elaborar os remédios nas margens do rio Uatu (o rio Doce). Os anciãos do povo são os que mais sofrem e não conseguem superar a dor de ver o rio morrer. O seu tio, expressou com emoção o jovem indígena, piorou das suas doenças e morreu de tristeza, pois não tinha o rio para conviver e realizar os seus ritos.

O caso de Correntina, município no Oeste da Bahia, também foi apresentado. A região, com grandes extensões de terras aráveis e ricas em recursos hídricos, atraiu empresas transnacionais, o que está a originar confrontos com as populações locais.

O tema da migração e a sua relação com o continente africano foi tratada por Joel Odigie, da Confederação Sindical Internacional da África. Mencionou que, em geral, os migrantes são submetidos a trabalhos perigosos e humilhantes. Considerando que os movimentos migratórios não se interromperão, frisou que a questão central a enfrentar não é tentar parar esse fenómeno, mas sim fazê-lo da forma mais humana possível. Odigie insistiu, ainda, sobre a necessidade de analisar o papel da indústria bélica nas crises humanas, pois a África é um dos centro da guerra e as pessoas procuram fugir dessas situações de conflito. Assinalou, ainda, que é preciso interromper a exploração de recursos naturais do continente africano e incrementar os esforços mundiais para estabelecer políticas que combatam as mudanças climáticas.

No âmbito das organizações católicas, a Comissão Pastoral da Terra e o Conselho Indigenista Missionário reflectiram sobre o tema da vida, sublinhando que esta não é uma mercadoria. Recordaram que são necessários mecanismos legais e estratégias coordenadas para enfrentar o tráfico de pessoas.

A Cáritas organizou um seminário sobre a mulher migrante e a Rede Eclesial Pan-Amazónica (REPAM) e a organização Igreja e Mineração trataram a temática dos direitos socioambientais.

A família comboniana, que se apresentou com a marca “Comboni Network”, organizou também alguns seminários e ateliês. Entre eles, a situação de violência no Sudão do Sul e na RD do Congo, o açambarcamento de terras em Moçambique e os clamores das comunidades afectadas pela mineração, que foram analisadas considerando as causas e consequências dos conflitos do sector, sobretudo no Brasil e na América Latina.

 

Outro mundo é possível

A voz da esperança num mundo melhor ouviu-se fortemente no FSM. Uma esperança que precisa de ser alimentada com trabalho articulado e projectos que olhem para o futuro e se convertam em justiça, igualdade, respeito pelos direitos humanos, políticas de inclusão, igualdade, liberdade e justiça.

O desafio do Fórum Social Mundial é continuar a procurar alternativas e promover articulações entre as organizações altermundialistas. Como frisa Chico Whitaker, um dos fundadores do FSM, é urgente criar “condições para o reconhecimento mútuo e para a superação de preconceitos, da competição e da desconfiança entre movimentos sociais, para facilitar a identificação de convergências e a construção de alianças, sem hegemonias e no respeito às diferenças nos tipos de acção e nas estratégias, evitando a sua manipulação por organizações, governos ou partidos políticos”. É fundamental manter e aprofundar uma prática social e política inovadora, com a certeza de que outro mundo é necessário e possível.

 

 

 

Manter a esperança

 

O FSM constitui-se como um espaço plural e democrático, que ajuda a manter a esperança na construção de um mundo melhor, com paz, justiça e solidariedade.

 

Moema de Miranda é antropóloga e integra a coordenação da Rede Iglesias y Mineria. Foi comunista até que «Deus a encontrou» e iniciou o processo de conversão no seguimento de Jesus Cristo. Na busca de novos caminhos, integrou-se na família franciscana e procura partilhar e viver os ideais de justiça, paz, ecologia e fraternidade universal de São Francisco de Assis. Fala com convicção dos movimentos populares e da urgência de uma cidadania activa, articulada e com ideias inovadoras, que gere mudanças no mundo dominado pela desigualdade, o capitalismo selvagem, a violência, a discriminação e a injustiça.

Moema integrou o comité de entidades brasileiras que idealizou e organizou o primeiro FSM, realizado em Porto Alegre, no Sul do Brasil, em 2001. Está convencida que os princípios do FSM permanecem vigentes. Hoje, sublinha, continua a ser fundamental que as entidades e movimentos da sociedade civil tenham um espaço aberto de encontro para a reflexão, o debate democrático de ideias, a formulação de propostas, a troca livre de experiências e a articulação para acções eficazes. É esse processo que permitirá, desde a força dos pobres, construir uma globalização solidária que respeite os direitos humanos e produzir uma comunidade planetária orientada para uma relação fraterna entre os seres humanos e uma convivência respeitadora com a Mãe Terra.

Na perspectiva de Moema, o FSM ajuda a manter a esperança na construção de um mundo melhor, com paz, justiça e solidariedade, ainda se com menos expressão no espaço social e na agenda pública, pois os movimentos sociais estão hoje mais debilitados. O FSM é um espaço internacional com direito a existir. A sua metodologia, aberta e participativa, que era e é essencial para a força e continuidade dos processos do FSM, permite um espaço plural e diversificado, não confessional, não governamental e não partidário, que articula de forma descentralizada entidades e movimentos envolvidos em acções concretas, tanto a nível local como internacional.

 

(B. Frutuoso)

 

 

 


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