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Maio de 2018

RD Congo: Uma Igreja pela democracia
Por: JOSÉ CARLOS RODRÍGUEZ, Jornalista



Desde o fim do ano passado, a Igreja Católica na República Democrática do Congo saiu para as ruas das principais cidades pela democracia e o fim da ditadura. Apesar da duríssima repressão das autoridades, os católicos congoleses estão decididos a prosseguir a luta pela mudança.

 

O P.e Jean Nkongolo, pároco da Igreja de Saint Dominique, em Kinshasa, nunca podia imaginar que a missa dominical do passado dia 31 de Dezembro ia acabar de forma tão abrupta. Explicou desta maneira à agência France Press o que ocorreu nesse dia: «Abri as portas às seis da manhã, como de costume, e não vi nada estranho. Meia hora depois, apareceram grupos de homens armados, que instalaram postos de controlo nas ruas que conduzem à igreja e começaram a revistar as pessoas que vinham orar, impedindo que passassem as que não podiam mostrar os seus cartões de eleitor. Estranhei ver vários homens desconhecidos, todos eles vestidos com calças pretas e camisa branca, que se misturaram com os fiéis. Depois da comunhão, o representante da Comissão Laica pegou no microfone e exortou as pessoas a regressarem a suas casas sem participar na marcha prevista. De repente, um dos agentes lançou uma granada de gás lacrimogéneo que entrou na igreja e feriu um homem com gravidade, ao queimar-lhe as costas. Outros abriram fogo com as suas armas e vi uma mulher cair ferida, a sangrar da cabeça.»

A «marcha prevista» daquele dia era uma manifestação pacífica convocada, na conclusão das missas do fim de ano, pela organização católica Comissão Laica de Coordenação, para exigir o diálogo político na República Democrática do Congo e o respeito da Constituição. O Governo proibiu o protesto e, após uma intervenção brutal, ao fim desse dia, soldados e polícias mataram oito pessoas (sete em Kinshasa e uma em Kananga), feriram 92 e procederam a 180 detenções. A Comissão Laica não se atemorizou e convocou novas manifestações no domingo, 21 de Janeiro, e nesta segunda ocasião morreram seis pessoas, 49 ficaram feridas e outras 94 foram detidas. Em muitos casos, os próprios familiares das pessoas mortas encontraram sérias dificuldades por parte da polícia para poder recuperar os corpos dos seus entes queridos. O Papa Francisco, que se encontrava no Peru no final da sua visita à América do Sul, pediu às autoridades congolesas que «evitassem toda a forma de violência e procurassem soluções baseadas no bem comum». De forma mais precisa, o que os católicos congoleses exigiam era o respeito do Acordo de São Silvestre, um documento assinado a 31 de Dezembro de 2016, após árduos meses de negociação entre partidários do presidente Joseph Kabila e a oposição, e que contou com a mediação dos bispos católicos. Com esse acordo pretendeu-se pôr fim à crise política aberta no Congo depois de as eleições previstas antes do fim do ano não se terem realizado. O acordo autorizava o presidente a permanecer no poder, de forma excepcional, mais um ano (até finais de 2017). Segundo a Constituição, Kabila – vencedor das eleições de 2006 e 2011 – não pode apresentar-se a um terceiro mandato, mas, de cada vez que se lhe perguntou sobre os seus planos para o futuro, sempre respondera de forma muito vaga, fazendo temer que quer eternizar-se no poder. As novas eleições estão previstas para Dezembro de 2018. O Governo e os partidários de Kabila mantiveram sempre que os adiamentos se devem às dificuldades logísticas para organizarem actos eleitorais num país do tamanho da Europa Ocidental, com uma infra-estrutura muito limitada. A oposição, porém, entende que o presidente não tem nenhuma intenção de deixar o poder e que a sua estratégia é estender a violência por todo o país para dessa maneira ter sempre uma desculpa com que justificar novos adiamentos.

A falta de compromisso do mandatário congolês fez que os bispos se retirassem da mediação política no início de 2017 e causou uma grave deterioração das relações com a Igreja, a ponto de, em Março do ano passado, o Vaticano anunciar o cancelamento de uma visita do Papa Francisco ao país, prevista para 2017. Não é a primeira vez que a Igreja Católica estava na vanguarda para exigir mudanças políticas na República Democrática do Congo. Em Fevereiro de 1992, pelo menos treze pessoas morreram derrubadas pelas balas das forças de segurança, numa marcha multitudinária convocada a favor da democratização por cristãos de Kinshasa. Era a época em que Mobutu Sese Seko vivia os seus últimos anos de ditadura, e tentou congelar a Conferência Nacional Soberana que, desde havia dois anos, procurava, arduamente, abrir caminho a uma transição pacífica. O presidente desta assembleia cívica era o prelado Laurent Monsengwo, então arcebispo de Kisangani e actualmente cardeal e arcebispo de Kinshasa, uma das figuras mais respeitadas no país e que nunca temeu enfrentar os poderosos.

 

Uma prisão ao ar livre

Pouco mudaram as coisas desde então no que se refere ao respeito dos direitos humanos na República Democrática do Congo. Durante os protestos de Dezembro e de Janeiro, houve cenas incríveis de polícias e soldados a dispararem balas reais contra multidões que marchavam pacificamente cantando hinos religiosos, e com Bíblias e rosários nas mãos. Em muitos casos, os agentes de segurança cercaram as igrejas logo muito cedo e entraram nos templos disparando para o ar e agredindo com sanha os fiéis que oravam nos bancos. Foi o caso da paróquia de Saint Michel, no bairro de Bandalunmgwa, segundo contou o seu pároco: «Quando estávamos a rezar, os soldados entraram a disparar; muita gente caiu para o chão, enquanto eu fiz o possível para não interromper a missa.» Além disso, durante os protestos de 22 de Janeiro, a polícia deteve doze sacerdotes. E depois dessa data continuaram as acções de intimidação. A 3 de Fevereiro, a polícia deteve o sacerdote passionista Sebastien Yebo quando acabava de oficiar a missa na sua paróquia de Saint Robert, em Kinshasa. «Durante a eucaristia, um homem pôs-se à frente do altar e começou a filmá-lo. Quando o padre desceu dali, vários polícias começaram a bater-lhe e arrastaram-no a reboque do veículo, antes de o levaram», contou uma religiosa que presenciou o incidente. Libertaram-no no dia seguinte, após um intenso interrogatório no qual, de acordo com o testemunho do religioso, tentaram envolvê-lo em actos de colaboração com a milícia de Kamwina Nsapu, na região de Kasai. Kabila, que astutamente tentou apresentar uma suposta imagem de divisão na Igreja Católica no que se refere ao apoio aos protestos, não contou com a sólida reacção das mais altas instâncias eclesiásticas. Além da condenação do cardeal Monsengwo, que comparou a situação no país com «uma prisão a céu aberto» e afirmou que «já é hora de os medíocres abandonarem o poder», o porta-voz da Conferência Episcopal do Congo (CENCO) insistiu em que nenhum bispo do país desaprovara a iniciativa da Comissão Laica. Pela sua parte, o núncio recordou que a Doutrina Social da Igreja apoia a defesa dos direitos políticos e civis, e criticou «a reacção desproporcionada das forças de segurança contra os manifestantes pacíficos». Segundo o núncio, foram 134 as paróquias atacadas por polícias e soldados. Numa circular dirigida aos bispos, o representante do Vaticano declarou também que «a Comissão Laica de Coordenação tem personalidade jurídica própria dentro da Igreja Católica e pode organizar as suas actividades em todo o território da arquidiocese».

 

Carta aos governantes

Como sinal de unidade perante esta situação, a 10 de Fevereiro os sacerdotes, religiosos e religiosas de Kinshasa publicaram uma carta dirigida aos governantes do país, na qual protestavam contra a repressão: «Se vós, os dirigentes, sentis a obrigação de usar a violência contra o povo, permiti também que o sacerdote tenha a obrigação de denunciar esta barbárie. Estamos conscientes da confiança que tendes nas vossas armas para reprimir os pobres que gritam o seu sofrimento e a sua desolação. Mas podeis ter a certeza de que se tendes as armas, é Deus quem tem a vitória.» Depois de aconselhar os responsáveis que evitem as estratégias inspiradas no medo, o ódio e o egoísmo, lembraram-lhes que eles não fazem política, antes assumem a sua missão profética, e denunciaram «o terror, nunca antes visto, que chegou mesmo a despir em público sacerdotes, a insultá-los, brutalizá-los e sequestrá-los durante o exercício das suas funções pastorais». Longe de intimidar a Igreja Católica, as medidas de repressão do Governo de Kabila apenas conseguiram reforçá-la mais como a força principal a favor de uma mudança democrática. A Igreja, com o seu carácter apartidário e um prestígio granjeado durante muitas décadas, está em condições de ocupar este espaço, que corresponderia à oposição política, mas que, actualmente, os opositores ao regime não podem realizar, ao aparecerem cada vez mais débeis e divididos. As últimas acções dos católicos na rua seguem as mensagens da CENCO, que pediram a Kabila que declare sem rodeios que não procurará apresentar-se de novo a uma reeleição, e ao povo congolês – fizeram-no em Junho de 2017 –, que «se levante e tome o seu próprio destino nas suas mãos». Não é certo que Kabila tenha escutado a mensagem. Tudo parece indicar que o povo congolês sim.

 

 

 

Dados básicos da RD Congo

 

Extensão territorial: 2 344 888 km2

Capital: Kinshasa

População: 79 773 600 habitantes

Governo: República presidencialista

Idiomas: Francês (oficial), lingala, suaíli e quicongo

Taxa de alfabetização de adultos: 61,2 %

População menor de 15 anos: 46 %

Esperança de vida: 50 anos

Aceso a água potável: 46 %

PIB por habitante: 451 francos (1 €=1018 novos francos congolenses)

Índice de Desenvolvimento Humano: 0,433

Religião: Cristianismo 95,8 % (católicos 47 %; não católicos 48,8 %); muçulmanos 1,5 %; religiões tradicionais e outras 2,7 %

Povos: Lubas, congos, mongos, ruandas, zandis, bangis, ungalas, teques, boas, tchoques (no total, cerca de 200)

 

 


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