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Maio de 2018

Níger, fronteira da Europa
Por: MARCO BELLO, Jornalista



Pela sua posição estratégica, o Níger tornou-se o principal país de passagem de todo o tráfico ilícito, em particular o dos migrantes. Hoje quem não conseguiu atravessar o Mediterrâneo – e não morreu – foge das perseguições dos Líbios e tenta o caminho do regresso. Mas, frequentemente, encontra-se bloqueado a meio do caminho sem dinheiro. A União Europeia gostaria de deter o fluxo de gente em direcção ao Norte. E para o fazer utiliza dinheiro e exércitos.

 

Niamey. A cidade de areia com as suas casas baixas de cor ocre parece sempre igual. Tranquila e distante do frenesim de muitas metrópoles africanas, mais do que uma capital de um Estado poderia ser uma grande aldeia. De vez em quando, cruza-se com um camelo que avança bamboleando atrás do seu dono de turbante na cabeça. E, no entanto, há alguma novidade. Nos últimos anos, o trânsito automóvel aumentou notavelmente, e isso apesar de terem sido construídos dois nós viários, um dos quais na rotunda central que dá acesso à Ponte Kennedy, a ponte histórica das duas que ligam as duas margens do rio Níger. A mais recente foi construída pelos Chineses em 2011 e uma terceira está prevista, também pelos Chineses, este ano.

Mas as novidades são também outras, menos visíveis. Aproximamo-nos à central Rond-point da Liberté (Rotunda da Liberdade), ao lado do Grande Mercado, o mercado principal da capital. Aqui temos encontro com o Sheik Ahmed Touré, que se apresenta como agente consular da Guiné Conacri no Níger. O senhor Touré, guineense, tem já uma certa idade e passou os últimos quarenta anos da sua vida neste país. Pacato e gentil, enverga um casaco cinzento que lhe confere uma certa autoridade. O seu olhar sereno sonda-nos por detrás das lentes de óculos vistosos.

Já desde há alguns anos Touré tornou-se o ponto de referência dos migrantes guineenses, mas também senegaleses, marfinenses, malianos de passagem pela capital nigeriense. De maneira totalmente voluntária e gratuita, Touré organizou-se para ajudar de todas as formas possíveis estes jovens, hoje em fuga da Líbia, ontem em viagem para aquele país.

O nosso homem espera-nos para nos levar a um dos três foyers (ou centros) nos quais acolhe migrantes de passagem. Acompanhamo-lo. Por detrás da rotunda entramos numa ruela, quase um beco. Manda-nos estacionar. A pé conduz-nos por um atalho entre casas em banco (pronuncia-se «bancó»: lama e palha seca ao sol, material de construção tradicional, muito usado em âmbito rural e ainda, por vezes, no centro da capital). Acedemos a um pátio que parece o de um bairro periférico ou de uma aldeia: terra batida, fragmentos de paredes em lama rachadas, alguns bancos de madeira grosseira, um vaivém de pessoas.

Aqui somos imediatamente rodeados por alguns jovens que nos tiram as medidas com olhares entre o curioso e o hostil. Mas nós estamos com «tonton», o tio, como os jovens chamam Touré, a alcunha que por estes lados é destinada a pessoas mais idosas, pelas quais se tem grande respeito.

 

Centro Liberté (Liberdade)

Os jovens do centro têm histórias terríveis. Alguns aceitam contá-las. «Tinha algum dinheiro da minha família, mas perdi tudo na tentativa de chegar à Europa, sem conseguir chegar lá. Agora estou em Niamey desde há dois anos.» Quem fala é Mahomed, de 37 anos, de Faranah, na Guiné Conacri. «Aqui vou-me arranjando, faço de cabeleireiro para ganhar alguma coisa. Sou o responsável deste centro. Se vejo por aí algum migrante desorientado, aproximo-me e pergunto se quer vir para o Centro Liberté. Neste momento, somos cerca de 28. De manhã, saímos todos à procura de algum trabalho. Há quem saiba uma profissão. Depois reencontramo-nos aqui de tarde, partilhamos algum dinheiro para comprarmos arroz para cozinhar para todos e pomos de parte um tanto para pagar a renda deste lugar.»

Rodeados de jovens em pé que nos sondam, estamos sentados num banco de madeira, porque em África os hóspedes são sagrados. O senhor Touré conta-nos: «Procuro ajudar os meus compatriotas mas também outras pessoas da Cedeao [Comunidade Económica dos Estados da África do Oeste] em dificuldade. Encaminho-as de imediato para um dos três centros de acolhimento que assisto, onde hoje se encontram um total de mais de 70 pessoas. Quando tenho algum dinheiro, dou-lho para as primeiras necessidades. Além disso procuro pô-los em contacto com associações e ONG internacionais. Por exemplo, trouxe aqui a Cruz Vermelha Dinamarquesa, que lhes forneceu medicamentos, e prometeu-nos uma ajuda em alimentos e dinheiro para a renda.

A quem quer regressar ao seu país acompanho-o à Organização Internacional para as Migrações [OIM]. Mas as pessoas não gostam do sistema, porque a agência [da ONU] organiza autocarros para os levar aos seus países, dando-lhes apenas 60 mil francos [cerca de 91 euros, ndr], que é uma miséria face ao que gastaram para tentar a travessia, e também um montante insignificante para iniciar uma nova actividade económica.

Para os que permanecem nos centros, verifico quem sabe desempenhar uma profissão e procuro encaminhá-lo para um dos estaleiros da cidade.»

 

Níger, país na ribalta

O Níger, país desconhecido na Europa até há alguns anos, saltou hoje para a ribalta das crónicas por causa de dois elementos-chave: tornou-se um dos principais países de passagem, e tráfico, de migrantes dos Estados subsarianos em direcção à Líbia, de onde se tenta o salto em direcção à Europa; é central na luta contra o terrorismo jiadista em África.

Só os Franceses o conhecem desde há muito porque, além de tê-lo colonizado, desde a independência (1960) exploram as suas jazidas de urânio (de que é o terceiro produtor mundial), indispensável para as centrais termonucleares, que produzem mais de 72 % da electricidade transalpina.

O Níger é como que um funil onde se cruzam dois fluxos migratórios principais. O do Oeste (Senegal, Mali, Guiné, Serra Leoa, Libéria, Costa do Marfim, etc.) numa passagem por Niamey, e o do Sul (Nigéria, Camarões, República Centro-Africana, etc.) de passagem por Zinder ou outras localidades. Os dois fluxos encontram-se em Agadez, última cidade no deserto, onde depois os migrantes se dividem entre quem passa por Argélia em Tamanrasset para entrar na Líbia pelo Leste e quem passa por Dirkou e Madaua e entra na Líbia pela fronteira sul (ver mapa). Por isso o Níger tornou-se o primeiro país a sul do Sara, onde os jovens europeus querem estabelecer uma nova fronteira para bloquear os africanos.

Precisamente para a oposição aos fluxos migratórios, o Níger assinou acordos com a União Europeia em Valletta (Novembro de 2014), graças aos quais o país recebe financiamentos. Assim, em 2015 a Assembleia Nacional (o Parlamento) do Níger votou uma lei (a lei 36 de 2015) que, entrada em vigor no final de 2016, tornou ilícita qualquer actividade ligada com a migração. Tal legislação prevê também um grande aumento de forças militares e de polícia para a vigilância das fronteiras, das cidades e do rumo de trânsito dos migrantes.

Interrogamos o senhor Touré sobre a confirmação dos efeitos da lei: «Há ainda migrantes que tentam ir para a Líbia, mas são raros, porque existe a política de contenção, pelo que a partir da fronteira impede-se a sua entrada no Níger. Antes [da lei] aqui estava cheio de migrantes nos autocarros regulares das três principais companhias que viajam no Norte. Estavam em Niamey uma ou duas semanas, o tempo necessário para receber o dinheiro das famílias e continuar a viagem, ou então para que os passadores [aqueles que organizam as viagens, ou traficantes] se organizassem para os fazer partir. Agora tornou-se tudo clandestino, porque sabem que são procurados. Antes não se escondiam.»

 

Migrantes retornados

Outro aspecto que fez inverter o fluxo, ou seja, não só reduzir o de ida em direcção ao norte, mas incrementar o de ida em direcção ao sul dos chamados «migrantes retornados», é a mudança de tratamento que os Líbios, as várias milícias, reservam desde há alguns anos aos migrantes subsarianos.

«Parti para a Líbia duas vezes», conta-nos Ali Diubate, um rapagão de 32 anos, de Kankan, Guiné, que encontramos no Centro Liberté. «A primeira foi no mês de Janeiro de 2017. Extorquiram-me muito dinheiro no caminho. Passei por Agadez e Arlit no Níger, depois por Tamanrasset na Argélia. Ali apanhámos um veículo 4x4 para a Líbia. Os passadores meteram-nos num foyer, um lugar onde nos pediram o dinheiro. Depois passámos para outro foyer, o mesmo sistema. Mal chegámos a Trípoli fecharam-nos. Amarraram-nos e torturaram-nos, dizendo para contactar os familiares, caso contrário matavam-nos. Fizeram um vídeo com o meu telemóvel enquanto me maltratavam e obrigaram-me a publicá-lo no Facebook, para que o vissem familiares e amigos, para lhes pedir um resgate. A família mandou 3500 euros que os carcereiros dividiram entre si e depois libertaram-me. Cheguei ao porto, onde se parte nas barcaças, mas ali era ainda pior. Tiraram-me todo o dinheiro que ainda tinha. Com outros fomos obrigados a fazer trabalhos forçados. Depois decidi regressar, fugi e cheguei aqui a Niamey. Após quatro meses parti de novo, voltei a Trípoli, mas foi novamente terrível.» Ali mostra-nos sinais bem visíveis nos braços, as cicatrizes produzidas pelas torturas. «Estive outras duas semanas na prisão deles, mas consegui fugir e voltei para aqui.»

Ali vive no Centro Liberté desde há dois meses e lamenta que falte dinheiro para pagar a renda do tugúrio onde nos encontramos, que todavia é o único abrigo para ele e os seus companheiros. «Se fosse à OIM, ajudar-me-iam a chegar a Conacri [capital da Guiné]. Mas eu sou o primeiro filho da minha família, tomei toda a herança e perdi-a. Duas vezes. Tenho três irmãs e dois irmãos pequenos. Quando estava na prisão, da última vez, mandaram-me dinheiro mais uma vez. Venderam as vacas, o terreno da casa, para me libertarem. Tudo perdido. Tenho de conseguir juntar alguma coisa antes de regressar e recomeçar uma actividade na Guiné.»

Os migrantes de regresso reúnem-se na capital argelina, que é a primeira grande cidade no seu percurso de recuo. Escaparam das perseguições e das torturas dos Líbios, mas empobreceram as suas famílias de origem. A maior parte, em vez de voltar para casa, permanecem bloqueados neste país, um dos mais pobres do mundo, à procura de algum trabalho, que dificilmente lhes permitirá pôr de parte os montantes que dissiparam para pagar a viagem.

 

Quem vende quem

Boubacar Oullaré acabou de chegar ao Centro Liberté. Tem 28 anos e fala fluentemente francês. Diz-nos ser licenciado em Direito. Tinha um grande sonho, o de chegar à Europa. Em casa, na Guiné, deixou mulher e dois filhos pequenos. Explica-nos os mecanismos da viagem: «A transacção passa primeiro através de passadores africanos. Com eles faz-se Agadez, Arlit, Tamanrasset. Estes vendem-nos aos Tuaregues. De Tamanrasset a Djanet, que é a fronteira entre Argélia e Líbia, são os tuaregues que nos levam, depois vendem-nos aos Tubu (toubou) da Líbia. Estes levam-nos até Trípoli. Aqui metem-nos num compartimento, onde pedem quantias aos nossos pais, para fazer a travessia ou ser libertados. Trata-se na realidade de prisões clandestinas, não há liberdade, e propõem por meio da força negócios duvidosos que não podemos recusar. Se pagamos a quantia pedida, levam-nos até à costa. Aqui tiram-nos tudo, as roupas, até mesmo o cinto, porque se viaja em barcos de borracha, e não se pode correr o risco de os furar. Parte-se, mas há frequentemente barcaças que se viram na água. Neste caso, se nos recuperam os navios internacionais estamos salvos, porque nos levam para Itália. Se, pelo contrário, estamos em águas líbias, voltamos para a Líbia. Nós não tivemos sorte – diz com uma enorme desilusão no rosto. Naufragámos em águas líbias. Regressados à costa, eu tinha gasto todo o dinheiro. Tive de contactar novamente os meus pais para que me ajudassem. Por este motivo na Guiné não temos mais nada.»

E conclui, desconsolado: «Eu agora tenho vergonha de apresentar-me na minha terra, parti e perdi uma quantia colossal para fazer a viagem. Tudo perdido. Estamos aqui. E a nossa única esperança está em Deus.»

Deixando o Centro Liberté, os jovens, inicialmente hostis, parecem sofrer com a despedida destes visitantes estrangeiros que, de algum modo, representam a sua terra prometida. Alguns despedem-se em voz alta na sua língua, outros dão-nos a mão e olham-nos tristemente nos olhos, perecendo dizer: «Amanhã voltarás à Europa em poucas horas de avião. Eu tentei fazê-lo e perdi tudo. Arrisquei a vida. Peço-te, não me deixes aqui.»

 


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