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Maio de 2018

Comércio Justo: Mercadorias do mundo
Por: CARLOS REIS, Jornalista



Nas últimas duas décadas, o comércio justo deixou de ser uma pequena iniciativa de nicho para conseguir um alcance global. O movimento modifica as relações comerciais internacionais injustas por meio de um processo de intercâmbio de produtos respeitadores da Natureza.

 

 

Em 1964, na Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), os países do Sul defenderam, em vão, a nova concepção «Comércio, Ajuda Não» de apoio ao desenvolvimento. O movimento internacional Fairtrade é criado de seguida, baseado na promoção de uma aliança entre todos os actores da cadeia comercial, dos produtores aos consumidores, excluindo os intermediários não necessários, visando denunciar as injustiças do comércio e construir princípios e práticas comerciais mais íntegras e solidárias.

O comércio justo assume desde o início as missões da sensibilização dos cidadãos sobre as regras e o funcionamento do comércio internacional, nacional e local, e a actividade comercial baseada em regras justas e transparentes.

Nascido da indignação perante as injustiças do comércio internacional, o movimento elabora os princípios básicos do respeito e preocupação pelas pessoas e pelo ambiente. «Comércio e solidariedade sem justiça acaba transformando-se em caridade. E a caridade não produz transformação», define Rudi Dalvai, presidente da World Fair Trade Organization (WFTO).

Mercê do seu crescimento, práticas contraditórias no seio do movimento comércio justo dão origem a uma diferenciação de posicionamentos e opções. Actualmente, discute-se se o comércio justo deve assentar só nas exportações do Sul para o Norte, o lugar do comércio local e regional e a introdução de produtos de comércio justo nas grandes cadeias de distribuição e nas multinacionais. «As organizações de comércio justo têm de ser capazes de entregar o que defendem, melhorar o desempenho e manter a credibilidade. A renovação e inovação são necessárias a uma economia global mais justa», defende o presidente da WFTO.

 

Desafios e dilemas

Para o movimento, o comércio internacional é entendido como um complemento do comércio local e não como um motor de desenvolvimento. «Lutamos para modificar as relações comerciais internacionais injustas. Opomo-nos à liberalização do comércio e denunciamos a política da Organização Mundial do Comércio (OMC) ao impor a abertura dos mercados do Sul», defende a rede ibérica Espacio Comercio Justo, que se baseia numa relação de cooperação e não impositiva.

Em 2016, consumidores em mais de 130 países gastaram cerca de 7,9 mil milhões de euros em produtos Fairtrade, quase cinco vezes mais do que apenas uma década antes. Este crescimento significativo nas vendas beneficia agora mais de 1,6 milhões de produtores e trabalhadores em 73 países. «Numa década, o Fairtrade tornou-se o selo ético mais reconhecido e valorizado pelos consumidores e um parceiro confiável para quase 2000 empresas em todo o mundo», resume Darío Abril, director executivo da Fairtrade International.

Contudo, os produtos certificados Fairtrade ainda representam uma percentagem muito pequena (em média inferior a 1 %) das vendas mundiais de bananas, cacau, café, algodão, flores, açúcar e chá.

As realidades políticas, comerciais e sociais de hoje não são as mesmas que levaram à rápida expansão do comércio justo nos anos 1990. Nos últimos anos, algumas empresas começaram a afastar-se de padrões e certificações independentes para criar os seus próprios esquemas de sustentabilidade corporativa.

 

Certificação crítica

Comercializados por associações sem fins lucrativos através das Lojas do Mundo, centradas na relação com as importadoras e com os consumidores, os produtos do comércio justo começaram por não serem certificados. Com a vontade de alcançar o mercado de massas, surge o conceito de Selo de Comércio Justo, cujo objectivo principal é vender os produtos também nos supermercados, chegando assim a um público muito mais vasto.

«Em tempos de questionamento, o sistema de garantia de confiança torna-se ainda mais importante para os membros e consumidores», sustenta Rudi Dalvai, presidente da World Fair Trade Organization. No entanto, o selo Fairtrade só analisa o produto na sua origem ao centrar-se nas condições de produção, descurando a justiça na cadeia comercial do produto, do transporte à transformação e venda.

A Espacio Comercio Justo opõe-se à certificação Fairtrade por haver pequenas organizações de comércio justo que respeitam todos os princípios, mas não podem aceder ao selo porque não têm dinheiro para pagar a certificação. «As grandes multinacionais fazem um uso instrumental do comércio justo. A Nestlé e a Starbucks têm marcas próprias com o selo ‘Fairtrade’, mas a maior parte das suas compras são a preços muito inferiores a um preço justo e digno para os produtores. Aderem ao comércio justo apenas por questões de imagem e conquista de mais clientes», denuncia a rede ibérica.

Por outro lado, as grandes superfícies comerciais que comercializam produtos Fairtrade têm práticas laborais e comerciais pouco dignas e respeitadoras dos trabalhadores e pequenos fornecedores, além da falta de informação sobre os produtores e transparência sobre toda a cadeia comercial.

O objectivo do comércio justo não é vender mais, mas sim mudar as regras do comércio internacional, que prejudicam os países do Norte e do Sul, e sensibilizar as pessoas para o consumo responsável. «Com a certificação e o aumento das vendas não significa que haja uma maior consciência social ou que o comportamento face ao consumo tenha mudado», resume a rede de 30 organizações ibéricas. Ainda assim, os consumidores do comércio justo podem ter a certeza de que as suas compras têm um benefício contínuo para os produtores.

 

 

Lojas alternativas: Pouco conhecidas, bem aceites

 

Fundada em 2011, a Loja de Comércio Justo CIDAC, em Picoas (Lisboa), oferece produtos alimentares, de beleza, higiene e limpeza e de artesanato, que fazem parte de uma cadeia e aliança entre consumidores e pequenos produtores de África, Ásia, América Latina e também de Portugal. Vendem-se produtos éticos e promove-se uma cidadania que escolhe o consumo responsável.

A loja tornou-se um ponto de entrega semanal de cabazes de frescos (frutas e legumes) associados à iniciativa PROVE Promover e Vender e organiza e participa em bancas de venda de produtos de comércio justo em vários locais.

No Porto, a Loja de Comércio Justo Reviravolta, no Parque da Cidade, promove o consumo responsável e solidário, numa acção alargada a feiras e escolas. O propósito é divulgar e promover o conceito de comércio justo, através de acções de educação para o desenvolvimento sustentável e a venda de produtos alimentares biológicos, artesanato, roupas, brinquedos, cestos, louças e atoalhados.

«Em Portugal, o comércio justo parece mover-se para uma vertente que não se baseia somente nos critérios de origem dos produtos, dos produtores e da certificação, mas engloba outras dimensões, como a solidariedade para com os produtores locais, abrindo espaço para um comércio não só justo, mas também biológico, ecológico e solidário», nota a socióloga Sandra Lima Coelho à revista Plataforma ONGD.

O estudo sobre grau de conhecimento do comércio justo pela população portuguesa, promovido em 2017 pelo centro de sondagens de opinião CESOP, revela que o comércio justo é ainda um conceito pouco conhecido, embora com elevada aceitação dos seus princípios.


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