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Março de 2018

Cinco anos depois, um pontificado intenso
Por: ANTÓNIO MARUJO, Jornalista do religionline.blogspot.pt



 

Papa Francisco foi eleito em Março de 2013

 

Como condensar cinco anos tão intensos? Cada viagem ou discurso do Papa Francisco resume muitas das suas propostas para a missão dos cristãos neste tempo. Algumas pistas.

 

É indiferente que homilia ou discurso do Papa Francisco se ouve, que mensagem sua se lê ou em que gesto se repara. Em todos os casos, estaremos sempre diante de afirmações que sintetizam uma ideia, uma intuição ou uma sugestão fundamental do Papa que veio “do fim do mundo”. E que, ao longo destes cinco anos, ele tem repetido, sublinhado, pedido ou clamado.

Repare-se, por exemplo, na recente viagem do Papa Francisco ao Chile e ao Peru. Nela se incluiu a defesa dos mais pobres, as referências à ecologia e à defesa da “casa comum” na região que é ainda o pulmão do mundo (a Amazónia), a insistência no discernimento como caminho para resolver os dramas de tantos casais, o acolhimento das vítimas de abusos sexuais de membros do clero, o pedido de uma missão da Igreja incarnada na realidade, a proposta de uma espiritualidade centrada na misericórdia... A viagem incluiu, mesmo, episódios que traduziram o mal-estar e a oposição (muitas vezes não declarada) que existe em relação a várias das reformas que Francisco pretende introduzir. Ou o confronto com uma sociedade profundamente secularizada, como é o caso do Chile. E ainda a consciência do próprio papa de que nem tudo correu da melhor forma, como revelou o seu pedido de desculpa pelo modo como se referiu ao caso que envolve um bispo chileno por, alegadamente, ter encoberto casos de pedofilia de membros do clero.

Nestes cinco anos, o papa publicou já alguns documentos fundamentais para entender o seu programa – as exortações Evangelii Gaudium (EG), acerca da missão da Igreja no mundo, e Amoris Laetitia (AL), sobre a família, ou a encíclica Laudato Si’ (LS), sobre “o cuidado da casa comum”; fez viagens inesperadas a sítios esquecidos do mundo, começando pela ilha de Lampedusa, aonde chegam tantos refugiados em busca de uma vida mais digna e alertando contra a “globalização da indiferença”; sublinhou a relação entre questões como a miséria, a economia, o trabalho, a justiça climática e a vida familiar; centrou a acção da Igreja nos mais pobres, dizendo na EG que «no próprio coração do Evangelho aparece a vida comunitária e o compromisso com os outros»; encetou um processo de reforma da Cúria, consciente de que esta deve ser uma estrutura ao serviço do Evangelho e não de algumas pessoas que usam a Igreja para exercer o seu poder; valorizou a homilia, insistindo na necessidade da sua boa preparação, da atenção à Bíblia e ao quotidiano dos crentes; mostrou como a acção pessoal, fundada numa espiritualidade da misericórdia, pode ser mais consequente com o Evangelho e ajudar muitas pessoas a recuperar a sua dignidade...

 

Dialogar ou rezar

A oposição – declarada ou subtil – de que o papa actualmente é alvo constitui uma das principais notas após cinco anos de pontificado. Será mesmo, porventura, uma das coisas que mais o farão sofrer, justificando o seu pedido insistente para que rezem por ele. Mas o próprio tem repetido – como fez na EG 31 – que o bispo e também o papa deve estar sempre pronto a ouvir todos e não apenas os que estão “sempre prontos” a lisonjear.

No encontro privado com jesuítas chilenos, que decorreu a 16 de Janeiro e cujo teor foi narrado pelo padre jesuíta Antonio Spadaro na revista La Civiltà Cattolica, o papa referiu-se a essas manifestações e revelou que não olha para as dificuldades como “resistência”, pois isso significaria “renunciar” ao discernimento. “É fácil dizer que há resistência e não perceber que nesse confronto também pode haver um fragmento de verdade.”

A possibilidade da discordância no interior do Cristianismo vem desde as primeiras comunidades, como se pode ler das divergências entre Pedro e Paulo, ou da discussão “tão violenta” entre Paulo e Barnabé, narrada no capítulo 15 dos Actos dos Apóstolos. O próprio Paulo confirma na Carta aos Gálatas (2, 11-14) ter-se oposto “frontalmente” a Pedro, por este estar a comportar-se “de modo condenável” e repreendendo-o “diante de todos”.

Desta vez, no entanto, a oposição não é frontal ou, quando o é, usa argumentos falsos ou deturpa afirmações do papa, vendo mesmo intenções erróneas nas suas decisões e propostas. «As resistências depois do Vaticano II, ainda presente, têm esse significado: relativizar, eliminar o Concílio», disse ele aos jesuítas chilenos. Mas, perante tais resistências, a atitude certa é «dialogar, quando o diálogo é possível» ou, quando não se encontra «bondade espiritual, simplesmente» rezar por elas.

 

O quadro mental

Uma das razões para a oposição são as propostas do papa para a integração de pessoas que contraíram segundo matrimónio e querem aceder aos sacramentos. O papa tem insistido no processo de discernimento que os membros do casal devem fazer.

No encontro referido, também explicou a razão da insistência: «Uma das coisas que a Igreja mais precisa hoje [...] é discernimento. Estamos habituados ao ‘pode-se fazer ou não se pode fazer’. Eu também recebi, na minha formação, o modo de pensar ‘até aqui podemos ir, a partir daqui já não podemos’. Havia um jesuíta colombiano que nos veio ensinar moral no Colégio Massimo [em Buenos Aires]. Quando falou do sexto mandamento, alguém ousou perguntar: ‘Um casal de namorados pode beijar-se?’ [...] E ele disse: ‘Sim, pode! Não há problema! Basta, no entanto, colocar um lenço no meio’. Este é um quadro mental com que se faz teologia em geral. Um quadro mental baseado no limite.»

As questões ligadas à família são, no entanto, mais vastas e reflectem muitas “feridas” da humanidade. Por isso ele insiste tanto na ideia da “misericórdia”, como referiu na carta às famílias do mundo, a propósito do Encontro Mundial que decorrerá em Agosto, em Dublin (Irlanda), sob o título “O Evangelho da família: alegria para o mundo”.

Os crimes de pedofilia cometidos por alguns membros do clero têm sido outra preocupação maior do papa. No encontro com jesuítas chilenos, como em várias outras ocasiões, o papa voltou a referir-se a estes escândalos como «a maior desolação que a Igreja está a passar», que o deixa «envergonhado». E acrescentou: «A percentagem de pedófilos que são padres católicos não atinge 2 %, é de 1,6 %. Não é muito... Mas seria terrível, mesmo se fosse apenas um desses irmãos nossos! Porque Deus o ungiu para santificar crianças e adultos, e ele os destruiu. É horrível! Devemos ouvir o que uma vítima de abuso sente!»

Dependente muitas vezes das informações que lhe chegam, o papa acabou, na viagem ao Chile, por se deixar enredar numa polémica local. Depois de defender o bispo Juan Barros, acusado de ter encoberto crimes do padre Fernando Karadima, o papa acabou por pedir desculpa pelas suas declarações e decidiu enviar o arcebispo maltês Charles Scicluna ao Chile, para que este investigue o que se passou.

 

Família, jovens, Amazónia

Cinco anos depois da eleição, podem estas situações perturbar um pontificado que veio abrir janelas que há muito se encontravam fechadas ou apenas entreabertas? Apesar das dificuldades, o papa não mostra qualquer abrandamento nas suas propostas fundamentais. Para Francisco, a Igreja só se realiza no serviço ao mundo – ou seja, às pessoas –, como traduz o título do Encontro Mundial das Famílias, já citado.

A mesma intuição está presente na convocação do Sínodo dos Bispos sobre os jovens, que se realizará em Outubro deste ano, reflectindo a preocupação do papa com uma Igreja que deve ter em atenção o futuro da humanidade, desejavelmente mais pacífico, solidário, justo e dialogante. A solidariedade entre gerações, entre crentes de diferentes confissões e entre crentes e não-crentes são notas que o papa sublinha amiúde. Não por acaso, uma assembleia pré-sinodal decorrerá já neste mês de Março, no Vaticano, reunindo jovens de diferentes regiões do mundo, de diferentes igrejas cristãs e, mesmo, de outras religiões.

Outras realidades que preocupam o papa condensam-se no Sínodo sobre a Amazónia, que decorrerá em Outubro de 2019. As alterações climáticas, a defesa da “casa comum”, o cuidado com o futuro da humanidade, a relação das questões do clima com os temas da justiça social, da economia e da pobreza não deixarão de estar presentes na preparação da assembleia.

Num dos últimos actos da sua viagem ao Peru, o papa referiu-se à Amazónia como uma reserva de biodiversidade e uma «reserva cultural» que se deve preservar perante os «novos colonialismos». Secundou ainda desejos dos povos indígenas: «Queremos que os nossos filhos estudem, mas não queremos que a escola elimine as nossas tradições, as nossas línguas, não queremos esquecer-nos da nossa sabedoria ancestral.»

Pode dizer-se que estes desejos – do conhecimento, do respeito pela tradição, da afirmação da cultura e da sabedoria – são os desejos do Papa Francisco para a Igreja, nestas primeiras décadas do século xxi.


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