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Outubro de 2017

A revolução da paz
Por: JAIRO GARCIA, Jornalista



O Papa Francisco esteve na Colômbia e expressou, com gestos e palavras, o apoio a uma revolução de paz. Uma visita que ajuda a sarar as feridas do passado e a dar passos firmes na construção da paz estável e duradoura, alicerçada nos pilares da verdade, reconciliação e justiça.

 

 

    A vigésima viagem apostólica de Francisco foi à Colômbia. Entre os dias 6 e 11 de Setembro, o papa esteve no país latino-americano como peregrino da paz e da esperança. Cumpriu, desse modo, a promessa que fizera de visitar os Colombianos depois que dessem os primeiros passos no processo de paz e reconciliação nacional. Na Praça Bolívar de Bogotá, na capital colombiana, o papa foi acolhido por dezenas de crianças portadoras de deficiência, vestidas de branco. O Santo Padre abraçou-as, fiel ao seu estilo e sem se importar com o protocolo.

Juntamente com uma dessas crianças e o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, Francisco acendeu simbolicamente a tocha da paz e da reconciliação. No discurso que se seguiu, o papa remeteu-se à obra Cem Anos de Solidão, título do romance mais famoso do Nobel da Literatura colombiano Gabriel García Marquez, para dizer aos Colombianos: «O tempo gasto no ódio e na vingança é muito... A solidão de estar sempre uns contra os outros já se conta por decénios e aproxima-se dos cem anos; não queremos que qualquer tipo de violência restrinja ou suprima nem mais uma vida.»

Com uma agenda repleta de celebrações e encontros, o Santo Padre comoveu-se com testemunhos de perdas irreparáveis e histórias valentes de perdão e reconciliação. Em Bogotá, Villavicencio, Medellín e Cartagena das Índias, o papa foi mensageiro de boas notícias e testemunhou a alegria e a ternura do Evangelho.

 

Igreja serviçal e profética

A Colômbia é o sétimo país do mundo com maior número de católicos, pois 45 milhões dos seus habitantes são baptizados. Os cristãos, como repetiu inúmeras vezes o pontífice durante a sua visita, estão chamados a ser protagonistas activos na construção da paz. Em Medellín, perante milhares de peregrinos, Francisco lembrou que «na Colômbia há tantas situações que reclamam, dos discípulos, o estilo de vida de Jesus, particularmente o amor traduzido em actos de não-violência, de reconciliação e de paz». Os seguidores do Mestre de Nazaré estão chamados a ser «os pés, os braços e as mãos do Cristo mutilado», como pediu o Santo Padre em Villavicencio.

Tradicionalmente, a Igreja Católica apoia e mobiliza o voto conservador, ainda se dentro da instituição, incluindo o episcopado, existem divergências na acção e no discurso pastoral. No entanto, o Santo Padre não quis «politizar» a visita. Pediu à Igreja colombiana que, sem aliar-se com uma ou outra parte, mas seguindo a lógica do Evangelho, seja profeta e se empenhe «com mais ousadia na formação de discípulos missionários. Discípulos missionários que sabem ver sem miopias hereditárias; que examinam a realidade com os olhos e o coração de Jesus, e julgam a partir daí. E que arriscam, actuam, comprometem-se». O papa pede uma Igreja valente, que se comprometa com a reconciliação e caminhe ao lado das vítimas, os mais pobres, os povos indígenas e os afrodescendentes.

No discurso que fez aos milhares de consagrados reunidos em Medellín, o papa recordou no seu estilo metafórico que «o diabo entra pela carteira» e que na Igreja «não pode haver lugar para o engano, a hipocrisia, as opções mesquinhas». E lembrou que «o veneno da mentira, da dissimulação, da manipulação e do abuso do povo de Deus, dos mais frágeis e especialmente dos idosos e das crianças não pode ter lugar na nossa comunidade; são ramos que decidiram secar e que Deus nos manda cortar».

 

Construir a paz com justiça

A Colômbia atravessa um tempo de transição sem precedentes na sua história recente. O acordo de paz assinado com a guerrilha das FARC – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – pôs fim a uma guerra interna que durou mais de 50 anos. Um conflito que deixou 220 mil vítimas e quase seis milhões de deslocados. No entanto, a discussão inerente aos acordos de paz também deu maior visibilidade e aprofundou a tradicional polarização social e política (que, apesar das nuances actuais se centra nas lutas e confrontações entre conservadores e liberais). Os políticos, de olhos postos nas eleições presidenciais do próximo ano, continuam a enfrentar-se em temas fracturantes, como a reinserção na sociedade dos ex-guerrilheiros, o sistema de justiça especial e a reparação das vítimas. Por isso, o papa apelou à unidade social e pediu constantemente que se adoptem atitudes de diálogo, perdão e reconciliação. Só desse modo se pode terminar com os principais focos de violência que ainda persistem no país – os múltiplos grupos de paramilitares, a guerrilha do ELN (Exército de Libertação Nacional), o narcotráfico – e consolidar o caminho da paz com justiça e equidade.

Francisco recordou que para que o processo de paz seja bem-sucedido é essencial que «no centro de toda a acção política, social e económica, se coloque a pessoa humana, a sua sublime dignidade e o respeito pelo bem comum. Que este esforço nos faça esquivar de toda a tentação de vingança e busca de interesses apenas particulares e a curto prazo». Por isso, o papa convidou todos os colombianos a «olharem-se no espelho», a entender as causas profundas do conflito e a reconhecer os próprios limites. Esse é o passo que permitirá empreender um caminho sincero de reconciliação com justiça social.

 

Cultura do encontro

O Papa Francisco foi recebido em Bogotá, a capital colombiana, num ambiente de festa, alegria e calor humano. Uma cerimónia marcada pelos gestos, que falam mais do que as palavras e expressam o Evangelho da ternura e da misericórdia. O pontífice recebeu das mãos de Emanuel, um menino que nasceu na selva enquanto a sua mãe estava sequestrada pelas FARC, uma pomba da paz. Ficava assim explícito que a viagem apostólica visava afiançar a paz «estável e duradoura» no país. O papa também cumprimentou vítimas da guerra, soldados e civis. O Santo Padre abraçou com emoção Juan Florián, que perdeu os dois braços e uma perna na explosão de uma mina terrestre e representava milhares de vítimas da guerra. No dia seguinte, o papa expressaria com palavras o sentido destes gestos de reconciliação que se repetiram durante a viagem e constituíram o centro da sua mensagem: «Que este esforço nos faça fugir da tentação de vingança e busca de interesses particulares a curto prazo. Quanto mais difícil for o caminho que conduz à paz e ao entendimento, mais empenho temos de pôr em reconhecer o outro, em sarar as feridas e construir pontes, em estreitar laços e ajudar-nos mutuamente.»

Na Nunciatura Apostólica, Francisco foi acolhido ao ritmo de rap e cúmbia colombiana, sons alegremente entoados pelos jovens do IDIPRON, uma entidade que atende crianças e jovens em situação de vulnerabilidade e é dirigida pelo P.e Javier de Nicoló, um verdadeiro apóstolo da juventude. O papa, visivelmente emocionado, pôs a ruana (capa típica, feita de lã) que lhe ofereceram e disse aos jovens que não perdessem a alegria nem se deixassem roubar a esperança.

No Parque Las Malocas, em Villavicencio, cidade onde a guerrilha das FARC teve forte presença, realizou-se no dia 8 de Setembro a oração pela reconciliação nacional. Um encontro efectuado perante a imagem mutilada do Cristo Negro de Bojayá, que testemunhou a maior chacina da história do conflito colombiano. Em 2 de Maio de 2002, dezenas de pessoas que se tinham refugiado numa igreja do departamento do Chocó, no Pacífico colombiano, foram chacinadas e a imagem foi mutilada, ficando sem pernas e sem braços. O Santo Padre destacou o simbolismo e espiritualidade do momento: «O Cristo ferido e amputado, para nós, é “mais Cristo”, porque nos mostra uma vez mais que Ele veio para sofrer pelo seu povo e com o seu povo, e para ensinar-nos também que o ódio não tem a última palavra, que o amor é mais forte do que a morte e a violência.»

Nessa tarde de chuva, Francisco ouviu emocionado o testemunho de sofrimento de quatro das vítimas do conflito que, desde 1963, afecta o país. Depois, nas suas palavras recordou aos milhares de colombianos presentes e todos os que o seguiam pelos meios de comunicação que «o ódio não tem a última palavra, que o amor é mais forte que a morte e a violência». Apelou de modo contundente para que a «Colômbia abra o seu coração de povo de Deus e se deixe reconciliar» e afirmou que todos os colombianos, de um modo ou outro, são vítimas e que o caminho para a paz e misericórdia é construído de «justiça e verdade». Para isso, disse o papa, é imperativo romper o círculo da violência, pois «está na hora de sarar as feridas, construir pontes, limar diferenças, renunciar à vingança».

Em Medellín, cidade onde na década de 1990 proliferou o narcotráfico e a confrontação armada entre grupos, o papa visitou a Casa São José, um centro familiar da arquidiocese que acolhe crianças e adolescentes vítimas de violência e abandono. O lar, instituído em 1942, acolhe actualmente 300 menores que recebem apoio médico e formação escolar. No início do encontro, Cláudia, uma das crianças residentes que perdeu os pais na guerra, deu o seu testemunho. Francisco disse-lhe que era uma «menina valente» e que Jesus «não abandona os que sofrem».

Em Cartagena, cidade das Caraíbas que é o orgulho turístico dos Colombianos, mas cidade desigual e onde 29 % da população vive na pobreza, o papa quis visitar São Francisco, um bairro-de-lata onde residem mais de oito mil pessoas, maiormente afrodescendentes. Mas ali brota a esperança com as obras sociais auspiciadas pela arquidiocese. O papa quis bendizer e colocar a primeira pedra em dois desses projectos: o centro Thalita Cum (que em arameu significa: Menina, a ti te digo, levanta-te), um espaço que procurará proteger as meninas das redes da prostituição e do tráfico de pessoas; e o programa Missão Maria revive, que constrói casas para as pessoas sem tecto.

Foi durante esta saída à periferia de Cartagena, no meio da gente sofredora e pobre, que o papa teve o pequeno acidente no papamóvel. Uma ferida ligeira que resultou de uma travagem brusca e deixou uma marca de sangue no rosto e na batina branca. Mas que, simbolicamente, expressa a cultura do encontro e da proximidade que o Papa Francisco encarna. Expressa a pedagogia evangelizadora do pastor «com cheiro a ovelhas» e as eventualidades de uma «Igreja em saída» que o pontífice sonha. Uma comunidade de discípulos missionários que vai ao encontro dos pobres e percorre as ruas estreitas e poeirentas das periferias geográficas e existenciais do mundo. Foi nesse bairro que o Santo Padre também entrou na casa de Lorenza Pérez, uma mulher humilde de 77 anos que, cada dia, alimenta na sua casa mais de 100 crianças pobres e abandonadas. Ela relatou com emoção esse encontro com o papa: «Abraçou-me fortemente, deu-me um beijo na face e apertou-me a mão com força e disse-me: “Você vale muito, dona Lorenza.”» O papa afirmou que nesses encontros pôde comprovar que o amor de Deus se faz concreto, se faz quotidiano. Escapando da manipulação política ou das ideologias em que o querem enclausurar, o papa mostra o amor evangélico em acção: ouve, abraça e acompanha as vítimas, apresenta conflitos em que se pode pôr paz, despossados e marginalizados que se podem ajudar. Encontros que, em si mesmos, são uma condenação e uma denúncia profética, mas, ao mesmo tempo, um ponto de inflexão; mostram como as nossas acções, grandes ou pequenas, podem gerar mudanças e concretizar a revolução da paz e da misericórdia no mundo. Como referiu o papa em Roma, ao comentar a viagem, «a verdadeira revolução, a do Evangelho, não ideológica, liberta verdadeiramente as pessoas e as sociedades das escravaturas de ontem e, infelizmente, as de hoje».

 

Escravos da paz

Em Cartagena, frente à Igreja de São Pedro Claver, apóstolo na época da colónia e «escravo dos negros para sempre», o papa lembrou a tragédia dos escravos de hoje e o sofrimento dos migrantes: «Ainda hoje, na Colômbia e no mundo, milhões de pessoas são vendidas como escravos, ou então mendigam um pouco de humanidade, uma migalha de ternura, fazem-se ao mar ou metem-se a caminho porque perderam tudo, a começar pela sua dignidade e os seus direitos.» Como São Pedro Claver, que fez da caridade a sua linguagem, o papa convidou os Colombianos a trabalharem «pela dignidade de todos, em especial os pobres e descartados da sociedade».

O Santo Padre insistiu em que os Colombianos não fiquemos no primeiro passo, mas «prossigamos caminhando juntos cada dia para ir ao encontro do outro» levando o abraço da paz. Convidou a que sejamos para sempre «escravos da paz» e, assim, construirmos com alegria a revolução da caridade, da reconciliação e da paz.

 

 


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