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Setembro de 2017

Alfabetização no mundo digital
Por: BERNARDINO FRUTUOSO, jornalista



A alfabetização é um direito humano e a base para a construção de um futuro melhor e sustentável para todos. No mundo, ainda há 758 milhões de pessoas que não sabem ler nem escrever. Numa sociedade cada vez mais global e marcada pelas comunicações digitais, é necessário garantir que todos tenham acesso às oportunidades que emergem com as novas tecnologias.

 

Vivemos na era das comunicações ubíquas, da Internet, das redes sociais. Podemos ter a sensação de que nesta torrente contínua de imagens, sons e textos que nos envolve todos somos alfabetizados e temos capacidade para entender essas mensagens. Mas, na realidade, não é assim. Apesar do avanço nas políticas de aprendizagem e de educação nos últimos anos, o mundo ainda está muito longe da alfabetização universal. Em 2015, havia 758 milhões de adultos, incluindo 115 milhões de pessoas com idade entre 15 e 24 anos, que não tinham capacidade de ler ou escrever uma simples frase. Uma realidade que, devido a políticas e mentalidades discriminatórias, afecta mais as mulheres, que somam dois terços dos analfabetos no mundo.

 

Alfabetização universal

Como um fundamento dos direitos humanos e da dignidade, a alfabetização é vital para a erradicação da pobreza, para a igualdade de género, e para sociedades mais inclusivas e sustentáveis. Como recordava Ban Ki-moon, ex-secretário-geral da ONU, ao lançar no ano passado o programa de desenvolvimento global e sustentável, a Agenda 2030, é necessário que os governos e seus parceiros, incluindo o sector privado, unam forças para uma alfabetização universal. «A alfabetização fica no centro da Agenda 2030», frisava Ki-moon. A literacia é a «base para os direitos humanos, para a igualdade de género e para sociedades sustentáveis. É essencial para os nossos esforços no sentido de acabar com a pobreza extrema e promover o bem-estar para todos. É por isso que os Objectivos do Desenvolvimento Sustentável visam ao acesso universal à educação de qualidade e às oportunidades de aprendizagem para a vida das pessoas», sublinhava Ban Ki-moon.

O quarto Objectivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS 4) convoca os países «a assegurar a educação de qualidade inclusiva e equitativa, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos». A meta 4.6 do ODS 4 exige que os Estados-membros garantam que, até 2030, «todos os jovens e uma proporção substancial de adultos, tanto homens quanto mulheres, estejam alfabetizados e tenham adquirido conhecimentos básicos em matemática». Cumprir essa meta é fundamental, pois a alfabetização ajuda a erradicar a pobreza, reduzir a mortalidade infantil, alcançar a igualdade de género e assegurar o desenvolvimento sustentável, a paz e a democracia. Como refere Irina Bokova, pessoas analfabetas «não recebem nenhum dos benefícios da globalização e sofrem todos os seus custos. Essas mulheres e esses homens são mais vulneráveis a problemas de saúde, à exploração e a abusos de direitos humanos. Eles também são mais propensos ao desemprego e ao recebimento de salários mais baixos. Incapazes de ler ou escrever, eles não conseguem realizar o seu potencial pleno, e comunidades inteiras permanecem presas em círculos viciosos de pobreza, os quais fornecem as condições para a violência e os conflitos».

 

Investir em educação

Cerca de 250 milhões de alunos da escola primária não têm capacidades básicas de alfabetização e 124 milhões de crianças e adolescentes estão fora da escola. A literacia é um fenómeno que discrimina por género. Segundo Irina Bokova, pelo menos 62 milhões de meninas em todo o mundo não têm acesso à educação. Malala Yousafzai, Prémio Nobel da Paz de 2014 e nomeada Mensageira da Paz da ONU pelo secretário-geral António Guterres, apela constantemente ao investimento em educação. Ela sabe, por experiência pessoal, que essa aposta pode mudar o mundo. Em declarações à rádio das Nações Unidas, a jovem paquistanesa afirmou: «Tenho lutado pela educação das meninas desde que eu tinha 10 ou 11 anos, quando o terrorismo começou no Vale do Swat, no Paquistão, e as meninas não podiam ir para a escola. Aprendi muito vendo o terrorismo, o extremismo, por ter sofrido um atentado aos 15 anos e agora num palco global em que luto pelo direito das meninas à educação. O que aprendi foi que a geração futura precisa de educação, de educação de qualidade. Se quisermos ver um futuro brilhante e desenvolvido, se quisermos ter uma vida melhor, precisamos investir na educação para as meninas. Isso é crucial.»

 

Alfabetização digital

Vivemos na era da informação e numa cultura cibernética. As tecnologias digitais – incluindo Internet, telemóveis e todas as outras ferramentas para gerir informações digitais – estão a mudar radicalmente a forma como vivemos, trabalhamos, aprendemos e socializamos com as outras pessoas. Essa transformação ocorre rápida e intensamente, devido ao desenvolvimento e à crescente expansão das tecnologias. Por exemplo, em 1980 o número de pessoas com telefonia móvel era de algumas dezenas de milhares de pessoas, agora 4917 milhões (66 por cento da população do planeta) têm telemóveis. Na África, no ano 2000, os utilizadores de telefones móveis eram poucos, mas na actualidade são 995 milhões, ou seja, 81 por cento da população do continente1.

As tecnologias oferecem novas possibilidades às pessoas e ajudam a melhorar a vida quotidiana em muitos aspectos. Hoje obtemos informação com mais facilidade e rapidez, podemos ter acesso a conhecimento que antes era custoso e inalcançável para muitos. As tecnologias também permitem realizar serviços e trabalhos de modo mais rápido e mais eficaz, por exemplo, no campo da administração, no sistema de saúde, agricultura ou indústrias. Nas sociedades dotadas de menos infra-estruturas, as tecnologias digitais oferecem igualmente oportunidades para que as pessoas tenham acesso a informação e serviços que não estão disponíveis nos seus ambientes mais próximos.

No entanto, persiste no mundo um grande «fosso digital». Milhões de pessoas no planeta são excluídas da revolução digital. Os dados afirmam que metade da população mundial, 3900 milhões de pessoas, não tem acesso a Internet. Aproximadamente 2000 milhões não usam telemóvel e quase 500 milhões vivem em regiões onde não há sinal de telefone móvel2. Em 48 países menos adiantados (PMA), só uma em cada sete pessoas está ligada3. Todavia, milhões de pessoas não têm conhecimentos, habilidades e competências necessárias para navegar através de redes ou usar as novas tecnologias digitais.

O analfabetismo digital também é sinónimo de pobreza e exclusão. Recorda a Unesco que só com estratégias concertadas e efectivas de governos, empresas e da sociedade em geral se pode evitar que milhões de pessoas continuem marginalizadas nas sociedades cada vez mais digitalizadas. A alfabetização digital é uma competência essencial que necessita ser fomentada, seja nas novas gerações como entre os adultos.

 

Processo contínuo

A literacia e a alfabetização digital são competências fundamentais para o êxito em todos os sentidos. Seja para o acesso ao conhecimento como para a vida e o trabalho. Pessoas analfabetas permanecem na periferia da aldeia global. Todavia, nos novos contextos sociais em rápida transformação, o processo de alfabetização é um desafio e uma actividade contínua. Níveis de competência adquiridos em determinado momento podem ser insuficientes, desactualizados ou perdidos noutro momento. A alfabetização é um processo de aprendizagem ao longo da vida.

 

Notas

 

1 Digital Yearbook, 2017. Informe disponível em:

https://www.slideshare.net/wearesocialsg/2017-digital-yearbook.

2 Comissão da Banda Larga da ONU, 2016.

3 Banco Mundial (2016), Relatório sobre O desenvolvimento Mundial 2016.

 

 

 

Números

 

4917 milhões de pessoas têm telemóvel no mundo (Digital Yearbook, 2017)

995 milhões de africanos têm telemóvel (Digital Yearbook, 2017)

3900 milhões de pessoas não têm acesso a Internet (ONU, 2016)

500 milhões de pessoas vivem em regiões onde não há sinal de telefonia móvel (ONU, 2016)

 

 

 

 

Projecto Despertar Jovem

 

A Família Comboniana (missionários, missionárias e leigos) desenvolvem na Paróquia de São Tiago de Camarate, na periferia de Lisboa, o projecto Despertar Jovem – Espaço de Cidadania em Desenvolvimento. A iniciativa tem como propósito o acompanhamento de crianças e adolescentes no seu crescimento integral e ajudá-los a despertar para uma cidadania activa.

Nesta zona da capital portuguesa, vizinha do Aeroporto Internacional de Lisboa, vivem pessoas que migraram dos países lusófonos na África e do Brasil, mas também de outras nacionalidades e etnias, principalmente asiáticos e ciganos. Esta diversidade na população de Camarate é facilmente perceptível na escola secundária, onde muitos dos alunos são de origem estrangeira.

O projecto Despertar acompanha uma vintena de meninos e meninas na faixa etária entre os 6 e os 16 anos. Com a ajuda de voluntários, procura-se colmatar lacunas educacionais e colaborar no crescimento integral no âmbito escolar, familiar, interpessoal e lúdico.

 

 


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