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Setembro de 2017

A piada, uma arma contra o conflito
Por: MARÍA RODRÍGUEZ, em Uagadugu (Burkina Faso)



 

Burkina Faso: o parentesco no escárnio

 

Comum na maioria dos países da África Ocidental, embora com uma presença especial no Burkina Faso, a parenté à plaisanterie (parentesco no escárnio) é uma forma de trato entre pessoas e comunidades que fortalece os vínculos entre grupos e indivíduos, mas que também se tornou um método efectivo para a resolução de conflitos.

 

Numa aldeia do Norte do Burkina Faso, enquanto carregam uma pequena furgoneta para levar os passageiros e as suas bagagens à capital, Uagadugu, um homem começa a gritar com outro. Todos os presentes olham para ele, curiosos, querem saber o que o irritou assim. De repente, o homem começa a conversar com aquele que o estava a incomodar e, pouco depois, começam a rir, apertam as mãos... E o desagrado esfuma-se por completo. Os pertences são carregados, todos ocupam os seus lugares e a pequena furgoneta inicia a marcha sem qualquer problema.

Entre os Bambaras do Mali, o que aconteceu ali é conhecido como senenkunya; no Burkina Faso, os Mossis chamam-lhe rakiré; na Costa do Marfim, é toukpé; diz-se gamu entre os Wolofes do Senegal e, para pôr um ponto final nesta lista de denominações, entre os Bantos é designado utani. É uma prática social amplamente utilizada na África Ocidental – especialmente no Burkina Faso – que os francófonos traduzem como parenté à plaisanterie, que poderia ser traduzido por relação ou parentesco no escárnio. Consiste num pacto entre parentes ou grupos étnicos que permite que alguém se dirija a outro por meio de crítica, zombarias e até insultos, mas que, paradoxalmente, permite que não se gere um conflito entre ambos.

Voltando à cena inicial, o homem que estava incomodado descobriu que o outro pertencia a uma das etnias enlaçadas na parentesco de escárnio. Como esse tipo de parentesco evita que haja conflitos entre eles, o homem deixou a fúria de lado, trocaram insultos, riram-se, apertaram as mãos e fizeram as pazes.

O Burkina Faso é um dos países que se sente orgulhoso de experimentar, após quase 60 anos de independência, a estabilidade social e a ausência de conflitos étnicos em larga escala, como ocorre em outros países subsarianos. O mérito torna-se maior quando se toma em consideração a enorme diversidade cultural deste país, com sessenta e uma comunidades diferentes. Praticamente todas estão unidas entre si pelos laços deste parentesco singular, o que faz com que não seja estranho escutar com frequência os Burquinenses a gozar e a rir-se nas ruas ao dizer coisas como «tu és um bêbado», ao que o outro responde «e tu és meu escravo»; ou esta interacção: «Ladrões, trapaceiros!» E, em resposta, «vocês também!». E seguirem-se gargalhadas.

Na verdade, não há ali nenhum ladrão. São dois membros de etnias diferentes que, unidos pela parenté à plaisanterie, trocam frases relacionadas com aspectos de que a tradição permite fazer troça.

 

Uma origem pouco clara

O modo e o quando se criou este tipo de vínculo é difícil de saber com exactidão. Em muitas ocasiões, afirma-se que foi estabelecido pelos antepassados, enquanto outras vezes se faz basear em mitos e lendas. Em qualquer dos casos, a ausência de fontes escritas numa cultura tradicionalmente oral bem como o subjectivismo de cada narrador costumam fazer que não haja uniformidade. Muitos destes parentescos têm origem no modo de vida das comunidades. Assim, por exemplo, diz-se que os Peúles e os Yargas – duas etnias que viajam constantemente, uns por serem pastores nómadas e outros por serem comerciantes – acabaram por criar entre elas a solidariedade do parentesco. Há também factos ou momentos históricos na origem dessa prática entre certos grupos. Momentos em que, por exemplo, dois grupos étnicos diferentes tiveram de partilhar o mesmo espaço e os desentendimentos levavam a conflitos. Como assinala Albert Ouédraogo, professor titular de Literatura Oral Africana na Universidade de Uagadugu, «em algum momento, alguém veria que era necessário entenderem-se e iniciava esta prática: a guerra através das palavras».

Este é o caso, segundo explica o Professor Alain Joseph Sissao no seu livro Alliances et parentés à plaisanterie au Burkina Faso, dos grupos étnicos que migram em busca de terras férteis para as suas culturas e aqueles que o fazem para encontrar pastagens suficientes para os seus rebanhos. Quando qualquer um desses grupos quer possuir exclusivamente uma região, surge o conflito. Nesse espírito, por meio do parentesco no escárnio, os Djans e os Dagaras estabeleceram um mercado comum para a troca de produtos. «A prática de comprar uns aos outros e de produzir e consumir uns com os outros cria um clima de paz e um enriquecimento mútuo graças à alteridade», escreve Sissao. Por outro lado, também as alianças matrimoniais e a proximidade geográfica são promotoras e origem da parenté à plaisanterie.

Estas alianças de parentesco podem ser estabelecidas de diferentes maneiras. Por um lado, pelos próprios parentes de sangue, e, por outro lado, entre duas etnias, entre duas regiões, entre duas povoações da mesma província, entre dois bairros de uma mesma localidade, entre grupos sociais no interior da mesma etnia e, inclusive, entre portadores de apelidos diferentes. Como diz o Professor Ouédraogo, «o parentesco no escárnio permite que pessoas de diferentes idades, classes sociais e estatutos zombem entre si, quando, regra geral, as piadas são feitas entre amigos da mesma idade e classe social».

Sissao sublinha que a troca de jogos verbais é «uma simulação de guerra com vista à paz: os dois antagonistas estão vinculados por um pacto mítico de não agressão». Neste sentido, a parenté à plaisanterie «surge como uma instância de reconciliação e de pacificação que garante, tanto no exterior como no interior, a coesão e estabilidade dos clãs comprometidos» e, por outro lado, «constitui-se como uma escola de retórica, onde o indivíduo aprende a arte de falar e de defender-se verbalmente», desde criança.

Estes jogos, que são assimilados desde a infância, através dos avós e dos pais, são desenvolvidos sob um intercâmbio de frases codificadas pela tradição, embora existam também criações modernas que as enriquecem e que demonstram como essa prática ancestral ainda está viva. Assim, uma conversa, neste contexto, entre um membro do grupo étnico bobo e outro peúl seria algo assim: «O peúl é um escravo, é um macaco, e macaco é o avô do peúl.» Ao que este responderá: «O bobo é feio, é um bebedor de cerveja e come lagartas.» Fazendo referência à escravatura entre os grupos no passado, um gulmance pode dizer a um yaadga: «Meu escravo, cativo, vem cá, os teus parentes não têm nada, eu compro-te, anda, cachorro extraviado...» E um yaadga diria a um gulmance: «Se não é por causa da areia, gulmance, tu não conheces nada, nem sabes como encontrar o dinheiro.»

 

As regras do parentesco

Não obstante, também há proibições que regulam o parentesco de escárnio entre indivíduos, etnias e grupos sociais. Por exemplo, são proibidas as relações sexuais entre certos grupos, com o objectivo de «salvaguardar a base da sociedade e evitar uma disfunção», refere Sissao. Também podem ser interditas entre grupos da mesma etnia, entre etnias ou pessoas do mesmo grupo étnico. Do mesmo modo, em alguns grupos não é permitido gozar com os defeitos físicos de um indivíduo. Tampouco são consentidos os insultos contra a mãe na maioria dos grupos. E uma proibição indispensável: derramar o sangue de um parente ou aliado na piada, pois o pacto seria quebrado.

As alianças e o parentesco no escárnio também se exprimem noutros âmbitos além da troca verbal. Estão presentes na celebração de um casamento, entre as famílias do homem e da mulher; nos enterros, entre a família do falecido e os seus aliados; no momento da sementeira e da colheita, e nas cerimónias de iniciação.

 

A plaisanterie na História

Ouédraogo dá dois exemplos de como o parentesco no escárnio interveio em momentos da história recente do Burkina Faso. O primeiro refere-se ao conflito fronteiriço entre Mali e Alto Volta (actual Burkina Faso). Sucedeu no tempo em que Moussa Traoré era presidente do Mali e Sangoulé Lamizana seu homólogo no país vizinho. Para resolver esta crise, o presidente da Guiné, Sékou Touré, que actuou como mediador, recebeu-os em Conacri. Uma vez reunidos, ele ordenou a Kouyaté, o seu griot – os griots são indivíduos que têm o compromisso de preservar e transmitir histórias, factos históricos, conhecimentos e as canções do seu povo – que cantasse antes de a cerimónia começar. O griot mostrou na sua música que ambos os presidentes estavam vinculados pelo parentesco de escárnio, e ainda antes de ele terminar de cantar, aqueles levantaram-se, saudaram-se e reconciliaram-se.

O segundo exemplo do Professor Ouédraogo alude a quando o presidente Lamizana chegou ao poder. O seu antecessor, Maurice Yaméogo, estava em conflito com os chefes tradicionais, fruto da colonização e das independências. Lamizana era da etnia samo e os chefes tradicionais eram mossis. Como estas etnias são parentes de escárnio, não podia haver conflito entre eles.

Esse tipo de parentesco é, como refere Sissao, «uma prática que permite divertir-se e esquecer um pouco os problemas quotidianos». Muitos pensam que é «uma biblioteca histórica que é necessário manter para salvaguardar a paz social e a calma no Burkina Faso», já que permite a coesão social e, pela qual «podem ser ditas certas verdades que, mesmo se fazem mal e ferem, são toleradas». Esta prática reforça a solidariedade interpessoal e étnica, cultiva o civismo e o respeito pelo outro, e ajuda a regular as tensões sociais. Assim, como diz Ouédraogo, é preciso ter em mente que «é necessário que o parentesco de escárnio seja usado antes do conflito para o prevenir e, depois, para reconciliar, mas que não funciona durante o mesmo. Nesses momentos não se raciocina». Como assinala Sissao, «a aliança e o parentesco de escárnio são, de facto, o código penal para regular de maneira tradicional conflitos entre populações».

A parenté à plaisanterie faz parte da vida quotidiana dos Burquinenses. A piada continua mesmo depois da morte. De facto, como conta Sissao, antes, quando um baribe morria, um ferobe podia dizer: «Já está, foste-te, pobre tipo. A tua astúcia acabou agora. Se não deixaste nada, tomarei a tua mulher. Ouve! Posso dançar em cima do teu sepulcro, não é proibido. Faço o que quero.» E acabar à gargalhada.

 

 

Nome oficial: Burkina Faso

Superfície: 274 500 km2

Capital política: Uagadugu (1 626 950 habitantes)

Presidente: Roch Mark Kaboré (2015)

População: 18 931 686 habitantes (CIA, 2016)

Idioma: francês (oficial), várias línguas locais do grupo mandé

Religião: muçulmanos, 61 %; católicos, 19 %; animistas, 15 %; cristãos protestantes, 4 %

Moeda: Franco CFA (1€=655 francos)

Esperança de vida: mulheres, 60 anos; homens, 57 anos (BM, 2015)

PIB per capita: 1528 (dólares)

 


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