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Setembro de 2017

Um salto no escuro
Por: PAOLO MOIOLA, jornalista



 

Encontro com o padre Alejandro Solalinde

 

Todos os anos, milhares de migrantes centro-americanos procuram atravessar o México para chegar à fronteira norte e entrar ilegalmente nos Estados Unidos. É uma viagem extenuante e muito perigosa por causa dos narcotraficantes e das autoridades locais. Pouquíssimos atingem a meta. A maioria volta para trás ou fica pelo caminho suportando violências e vexames e pondo em risco a própria vida.

Neste quadro de desespero, insere-se a obra do padre Alejandro Solalinde e dos seus refúgios para migrantes. É este o seu relato.

 

São 4301 os quilómetros de fronteira terrestre do México. Mais precisamente, são 3152 os da fronteira norte com os Estados Unidos e 1149 os da fronteira sul com Guatemala e Belize. Duas fronteiras que contribuem para fazer do México um «país de partida, passagem e chegada de migrantes»1.

Para enquadrar os problemas, são suficientes três dados: a pobreza afecta 57 milhões de mexicanos num total de 127 milhões; em 2016 foram assassinadas 22 967, um novo recorde, sem contar os milhares de pessoas desaparecidas; a corrupção custa todos os anos nove por cento do produto interno bruto2.

Do México se foge (é o segundo país no mundo com mais migrantes3) e ao México se chega, mas quase sempre só para tentar o salto para os Estados Unidos, o American dream. Um projecto este de difícil realização e sobretudo muito arriscado por causa dos perigos com que os migrantes podem esbarrar. Na melhor das hipóteses, furtos e extorsões. Na pior, sequestros, violações, mutilações, comércio de seres humanos, desaparecimentos e assassínios.

A confirmar a gravidade da situação está o padre Alejandro Solalinde, sacerdote mexicano de 72 anos (muito bem conservados), fundador do albergue de migrantes Hermano en el Camino, um centro para o acolhimento dos migrantes ilegais em Ixtepec, no Estado mexicano de Oaxaca.

O padre Solalinde, candidato ao Prémio Nobel da Paz 2017, vive desde há anos sob escolta por causa da sua condenação à morte decretada pelos narcotraficantes, que à custa dos migrantes fazem grandes negócios.

 

Padre Alejandro, conte-nos em poucas palavras quem é o senhor.

Antes de mais, diria que sou um missionário católico. Trabalho em Ixtepec, Estado de Oaxaca, no albergue-refúgio dos migrantes. Comecei em 2005, quando pedi ao meu bispo para me ocupar deles. Não foi fácil porque parecia um desperdício que um sacerdote se dedicasse à gente de rua, aos migrantes. Mas, por fim, consegui permissão.

 

O refúgio quantas pessoas recebe?

Neste momento, o albergue de migrantes acolhe uma centena de pessoas por dia. Os migrantes ficam dois dias ou no máximo três, para depois retomar o caminho.

 

De onde provêm?

Sobretudo das Honduras, de El Salvador, Guatemala, Nicarágua. Mas também do Brasil, Venezuela, Costa Rica, Peru, Equador, Panamá e também do Belize. Segundo as estatísticas, 50 % destes fica no México, ao passo que 25 % renuncia e volta para trás. Rende-se.

 

E quantos deles chegam até à meta final, ao «paraíso» americano?

Atendendo aos números, cerca de 25 % dos migrantes alcançam a meta e conseguem entrar, mesmo com Donald Trump. Quem controla a fronteira não é o México ou os Estados Unidos, mas continua a ser o crime organizado. Se uma pessoa paga ou transporta a droga, eles conseguem fazê-la passar. Não há muro que resista. Por sofisticado que seja.

 

Na Europa, a maioria dos migrantes são jovens e homens. E aqui?

Também aqui a maioria são jovens. Eu calculo que sejam cerca de 80 % do total. Mas também há crianças e mulheres. Pessoas idosas vi poucas, provavelmente resignadas a permanecer no seu local de origem. E também os doentes ficam em casa. São as pessoas mais jovens e saudáveis as que viajam.

 

O acolhimento

Como se desenrola um dia típico no Albergue de Ixtepec?

Não há um dia igual ao outro, mas uma coisa é idêntica: cada dia é sempre muito intenso. De manhã cedo – pelas cinco e meia – rezo e leio o evangelho do dia. Faço exercícios. Lavo e passo a ferro as minhas roupas: se quero ser honrado, ninguém o deve fazer por mim.

Depois desço ao andar onde se encontram os migrantes. Por vezes almoço com eles, depois de estes terem feito as limpezas do local.

Depois visito os diversos sectores do albergue para ver como está tudo a decorrer: a carpintaria, a padaria, a quinta, a cozinha (sector este que sempre precisa de muito trabalho).

Temos também uma biblioteca e uma sala de computadores onde as pessoas podem comunicar com os seus familiares. Há uma secção médica com dois médicos e duas enfermeiras. E também uma secção de psicologia com cinco técnicos. Em suma, somos uma pequena cidade.

 

Quando os migrantes chegam ao centro, o que é que o senhor faz? Como é que os recebe?

Eu não posso falar com cada um. Então reúno-os. Normalmente, na capela. Depois de terem comido, de se terem lavado e trocado de roupas, então chamo-os. A primeira coisa que lhes digo é: «Como correu a vigem até aqui?» E depois: «Levante a mão quem vem das Honduras. Quem da Guatemala. Quem de El Salvador.» E assim por diante. Deste modo dou-me conta de que grupo é. E ainda: «Levante a mão quem é cristão evangélico.» A quem a levantou digo para apresentar a sua igreja com o respectivo nome. A cada igreja fazemos um aplauso. Sim, é uma forma de reconhecer que o seu caminho é correcto. E que somos irmãos na fé. Depois faço o mesmo com os católicos. Por fim, digo: «Levante a mão quem não tem nenhuma igreja ou religião.» E também aqui muitos levantam a mão.

Depois pergunto o que aconteceu durante a viagem. Peço que me digam se já apresentaram a sua denúncia ou ainda não.

 

A que denúncia se refere?

A lei diz que se um migrante foi vítima de um delito, deve ter um visto humanitário. Do mesmo modo se no seu país é perseguido ou se o seu país é lugar de violência.

O nosso departamento de registos avalia a condição jurídica de cada pessoa que chega. E antes ainda a sua condição psicofísica: se uma pessoa precisa de tratamentos, é enviada à enfermaria. Se apresenta problemas emocionais por causa do que passou, é enviada ao grupo dos psicólogos.

 

Além do senhor, quantas pessoas estão ao serviço do albergue?

Temos um grupo de oito pessoas efectivas. Mas somos ajudados por numerosos voluntários que provêm de todo o mundo. Inclusive da China e da Austrália. E muitíssimas pessoas que chegam da Europa.

 

Narcotraficantes e migrantes: de Calderón aos Zetas

Quando e porque é que os cartéis da droga – os chamados narcos – começaram a mostrar interesse pelos migrantes?

Tudo começou com Felipe Calderón, o anterior presidente, que fez uma guerra insensata (e perdida) ao narcotráfico [60 mil mortos e 26 mil desaparecidos entre 2006 e 2012, ndr]. Esta guerra provocou a decapitação de alguns cartéis e uma espoliação de outros, entre os quais os Zetas.

Estes últimos ficaram sem liquidez para pagar a droga. A droga não se pode pagar a crédito: tem de ser paga imediatamente. Portanto, os Zetas pensaram obter dinheiro dos migrantes. Sabiam que eles não possuem nada, mas têm amigos e familiares nos Estados Unidos. Começaram, portanto, a sequestrá-los e a pedir resgates. Em poucos meses conseguiram extorquir milhões de dólares. Além do resgate, depressa compreenderam que dos migrantes se podia obter mais: com a prostituição, a exploração laboral, o tráfico de órgãos.

 

Quantos cartéis estão envolvidos?

Principalmente os Zetas e em menor medida o cartel do Golfo. Os outros não se sabe, mas certamente não traficam com os migrantes de forma sistemática.

 

E as autoridades mexicanas que fazem?

São parte do negócio. Os agentes de migração, os polícias, os políticos de qualquer nível são cúmplices, sobretudo no caso dos migrantes. Sabem que é uma fonte de dinheiro fácil e muito abundante.

Eu costumo definir o meu governo como uma “narcocleptocracia”. Os narcotraficantes infiltraram todas as instituições mexicanas. É raro – eu nunca conheci nenhum – encontrar um político ou um funcionário que não roube.

 

Também Enrique Peña Nieto, o presidente do seu país?

É o mais corrupto. Neste momento, a população mexicana atribui-lhe um nível de popularidade de nove por cento! É um repudiado.

 

Que pensa de Donald Trump, presidente do país que está nos sonhos dos migrantes?

Trump é um pobre homem. A única coisa que tem é dinheiro. Viveu para acumular dinheiro, mas não poderá levá-lo consigo.

 

Viajar na «Besta»

No Mediterrâneo existem as carroças do mar ou os barcos de borracha, aqui existe a Besta.

Começaram a chamá-la Besta porque é um comboio de carga, não destinado a transportar pessoas. Por isso os migrantes viajam em cima do tejadilho ou nos pequenos espaços entre os vagões. Durante 12-13-14 horas.

Podem acontecer muitos acidentes, sobretudo se as pessoas adormecem. Ou quando sobem a bordo os homens do crime organizado que os derrubam se não pagam. O comboio parte do Sul, de Chiapas, a cerca de uma hora da Guatemala. Há diferentes ramificações e pode chegar até Mexicali ou Ciudad Juarez, na fronteira com os Estados Unidos.

 

Também o senhor frequenta o (presumido) paraíso americano?

Sim, viajo até aos Estados Unidos 4-5 vezes por ano. Para me encontrar com grupos de emigrantes, para compreender como estão a correr as coisas ou o que podemos fazer pelos seus direitos. São mais de 34 milhões os mexicanos que vivem lá legalmente. E seis milhões que não têm documentos. Todos enviam dinheiro para o México. Os últimos números apontam para 27 mil milhões de dólares por ano. Por isso digo que, depois do narcotráfico, as remessas são a maior receita para o país.

 

O direito a emigrar e o modelo capitalista

Na Europa discute-se sobre os migrantes que deveriam ser acolhidos e os que deveriam ser rejeitados. Em sua opinião, existe um «direito a emigrar»?

Eu creio que exista um direito a não emigrar quando existam todas as adequadas condições de vida nos locais de origem. Todavia, o sistema capitalista desfez as condições de vida nos países de origem dos migrantes: pela violência, pela falta de trabalho, pela ausência de uma possibilidade de desenvolvimento para os jovens.

Os movimentos migratórios sempre existiram. Mas é a primeira vez na História da humanidade que as migrações são do Sul para o Norte. Historicamente sempre foram o oposto: do Norte para o Sul.

 

Em todo o mundo as migrações e os migrantes são o problema do século. Que acha que se pode fazer?

Se partimos da ideia de que o problema é estrutural, isto é, que nasce do sistema liberal-capitalista, então a única solução é mudar o modelo. A verdade é que não se pode continuar assim. Não é possível ter 99 por cento da população mundial que vive com as migalhas deixadas cair do um por cento da população.

 

O senhor usa sempre palavras muito enérgicas, sem adocicar as situações.

Uso palavras muito enérgicas porque a realidade é muito dura. É preciso dizer as coisas claramente.

 

Teme pela sua vida?

Eu tenho medo pelo México. Neste momento temos vários governantes nas prisões, outros expatriados. Não um. Muitos. [Eram 16 em Abril de 2017 num total de 32, ndr].

 

Mas foi alvo de ameaças e agressões físicas.

Sim, pontapearam-me. Também me encarceraram duas vezes. A 24 de Junho de 2008, tentaram queimar o refúgio e a mim próprio. Noutra ocasião, o presidente da câmara e a junta municipal mantiveram-me preso durante sete horas dizendo: «Tu daqui não sais enquanto não assinares que encerras o refúgio.» Respondi: «Podes matar-me se quiseres, mas eu não assinarei nada. Esta é uma propriedade da Igreja Católica.»

Na noite desse mesmo dia chegaram grupos de migrantes. Disse ao presidente da câmara: «Se acontecer alguma coisa aos migrantes ou a membros da minha equipa, eu denuncio-o.» «O senhor está a ameaçar-me», disse-me ele. «Pense como quiser», respondi-lhe.

 

Todavia, dessa vez não foram os narcotraficantes. Foram as autoridades!

Há alguma diferença? Certamente que não! São a mesma coisa! Não se pode dizer aqui está o crime organizado e ali a autoridade.

 

Isso é muito triste.

Tristíssimo. O México está a viver uma situação muito difícil. De decadência total.

 

Apesar de ser obrigado desde há anos a viver sob escolta, o senhor parece muito sereno.

Eu sou um homem de fé. Jesus continua a inspirar-me. Sinto-me muito orgulhoso de ser baptizado, de ser uma pessoa consagrada, missionária, itinerante do reino de Deus. Eu não estou só.

Define-se «migrante» a pessoa nascida num país diferente do de residência e que deixou voluntariamente a seu país de origem. Sob esta definição, seriam 244 milhões os migrantes no mundo4.

A este número tem de se juntar outro: aquele que diz respeito às pessoas que foram obrigadas a deixar as suas casas. Esta condição diria respeito a 65,6 milhões de pessoas, assim distinguidas; 22,5 milhões de refugiados, 2,8 milhões de requerentes de asilo e 40,3 milhões de deslocados internos5.

Migrantes, refugiados, requerentes de asilo, deslocados internos: em qualquer parte do mundo em que o fenómeno se apresente, surgem problemas.

Pessoas como o padre Alejandro Solalinde são louváveis pela obra que desenvolvem e mereceriam realmente o Nobel, mas a questão de fundo é epocal e actualmente no horizonte não se entrevêem soluções indolores.

O direito a não emigrar – ou o direito a permanecer na sua casa – seria a única, verdadeira solução. Mas permanece um objectivo difícil e muito distante.

Significaria garantir a cada pessoa alimento, trabalho, casa, educação, saúde. Um sonho que o actual sistema económico e político não parece tencionar vir a considerar.

 

 

Notas

1 Relatório da Organização Internacional para as Migrações (OIM, agência da ONU).

2 Estes dados são confirmados por várias fontes, entre as quais: instituto IMCO, instituto público Coneval, Sistema Nacional de Segurança Pública (relatório de 20 de Junho de 2017).

3 Fonte: «International Migration Report 2015», Nações Unidas.

4 Ibidem.

5 Fonte: Relatório «Global Trends. Forces Displacement in 2016», UNHR.

 

 

 

migrantes no méxico

 

150-420 mil é a estimativa dos migrantes ilegais que, cada ano, entram no México pelo Sul, principalmente dos países centro-americanos: Honduras, El Salvador, Nicarágua, Guatemala.

Fontes: OIM (ONU) e Instituto Nacional de Migración (México).

 

100 mil é o número estimado dos delitos cometidos, cada ano, contra os migrantes: furtos, sequestros para extorsão, desaparecimentos, assassínios, violações, mutilações, tráfico de seres humanos para prostituição, comércio de órgãos, etc. Os Estados mexicanos mais envolvidos: Chiapas, Tabasco, Oaxaca, Guerrero, Veracruz, Chihuaua, Baixa Califórnia e Taumalipas.

Fonte: Programa de Asuntos Migratorios (Prami) da Universidad Ibero-americana (México).

 

35-70 mil é o número dos migrantes desaparecidos no México nos últimos vinte anos. Os migrantes são ilegais e, enquanto tais, formalmente invisíveis.

Fonte: Programa de Asuntos Migratorios (Prami) da Universidad Ibero-americana (México).

 

10 mil milhões é a estimativa do negócio gerado pelas actividades criminais desenvolvidas à custa dos migrantes.

Fonte: Human Rights Watch.

 

 

 

imigrantes nos eua

 

11 100 000 é a estimativa dos imigrantes ilegais presentes nos Estados Unidos em 2015.

Fonte: Pew Research Center.

 

5 600 000 é a estimativa dos imigrantes ilegais de nacionalidade mexicana presentes nos Estados Unidos. São de longe a nacionalidade mais representada, mas em decréscimo relativamente aos anos passados.

Fonte: Pew Research Center.

 

3,4 % é a percentagem dos imigrantes ilegais sobre o total da população dos Estados Unidos.

 

 


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