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Fevereiro de 2019

Angola: Construir uma igreja ministerial
Por: HENRIQUE MATOS, jornalista



 

Um grupo de religiosas portuguesas partilham a vida e a fé com uma comunidade cristã, confiada aos leigos, no Sul de Angola. Juntos, leigos e consagradas, constroem uma Igreja ministerial, próxima e missionária.

 

 

Quinhentos quilómetros a sul de Luanda, a capital de Angola, fica Cassongue. Situada na província do Cuanza-Sul, é terra de missão para três religiosas portuguesas e uma angolana.

As Servas de Nossa Senhora de Fátima (SNSF) chegaram em 2008 e, até hoje, asseguram um trabalho pastoral de apoio à Paróquia de S. José, a par do apoio social e dos cuidados de saúde que prestam no Hospital Municipal.

Por aqui a população vive da agricultura e os rendimentos obtêm-se da terra e da criação de animais. O emprego é quase todo ele ancorado no Estado. A segurança pública, o ensino ou os cuidados de saúde constituem a base da oferta laboral remunerada.

A população é muito jovem, as crianças são em grande número e os idosos, um grupo etário reduzido, em sintonia com uma esperança de vida que neste país ronda os 61 anos.

É este o enquadramento social para o desafio missionário das SNSF. O seu trabalho é construir a comunidade, formar os leigos e assegurar a catequese.

 

Sempre em missão

A Irmã Maria Olinda chegou a Angola em 2010 e quatro anos depois estava em Cassongue para um trabalho pastoral que a leva a sair de casa às seis e meia da manhã para que tudo esteja a postos para a missa das sete na Igreja de S. José.

A igreja está cheia e o momento litúrgico começa com a oração de laudes. Por aqui, todos estão familiarizados com esta oração da Igreja e manuseiam sem dificuldade o ofício das horas, algo que permanece ausente das práticas de oração em muitas das nossas comunidades em Portugal.

O pároco, padre Morais, diz que «esta é uma comunidade rural distanciada das experiências urbanas» por isso, o sacerdote, que integra o clero da diocese do Sumbe, reconhece que «a presença das irmãs é essencial para dinamizar as comissões paroquiais como a Cáritas ou a Pastoral Familiar».

Na manhã de sábado, no final da celebração, todo o espaço envolvente da Igreja de S. José se transforma numa imensa sala de catequese a céu aberto. São catorze grupos que se constituem por idades e consoante a progressão nos conhecimentos da fé. As irmãs coordenam este trabalho, mas sempre na base da partilha de tarefas e responsabilidades.

Em Angola, encontramos uma Igreja muito estruturada no desempenho dos leigos e na forma como estes exercem a sua missão. Também em Cassongue são eles que assumem a transmissão da fé. Os catequistas são quase todos jovens que assumem com orgulho este serviço de Igreja.

Sabino Cruz imaginava que o seu caminho de Igreja terminava com o Crisma, mas a Irmã Lurdes, que nessa altura estava em Cassongue, apresentou-lhe um desafio. «Convidou-me a aprofundar a minha fé para que eu continuasse a servir a Igreja», comenta. Gabriel Quintino diz que quer partilhar os seus conhecimentos bíblicos com as crianças «para que assim elas possam ter mais noções da Palavra de Deus».

A presença das irmãs coordena este trabalho. «Elas estão sempre presentes e fazemos uma avaliação como estamos a desenvolver este nosso trabalho», diz Frederico Teles, também ele catequista na comunidade cristã de Cassongue.

«É da missão que eu gosto», diz a irmã Maria Olinda, que reconhece ser este um trabalho ainda mais apaixonante como serva de Nossa Senhora de Fátima.

Mas a comunidade cristã vai além da formação cristã. Outros sectores estão também entregues aos leigos.

José Soma é membro do Conselho Paroquial, estrutura onde se partilham e discutem os desafios da comunidade. Este responsável paroquial salienta que «o trabalho das irmãs vê-se no rosto da comunidade, no dinamismo e na alegria como esta vive a sua fé».

«Este povo não precisa de grandes coisas, fica contente com a nossa presença, com a nossa alegria, e eu sinto-me muito bem no meio dele», refere a irmã Maria Carreira.

Nos dias em que visitámos Cassongue, esta religiosa preparava um grupo de ministros extraordinários da comunhão. Ao mesmo tempo que lhes transmitia os conhecimentos elementares das alfaias litúrgicas, dizia-nos que aqueles homens e mulheres terão uma missão maior do que a de distribuir a comunhão.

«Eles vão para as zonas rurais distantes, onde o padre não pode estar com regularidade», naqueles lugares estes leigos «são a figura mais próxima do padre porque são eles a levar a comunhão».

 

Igreja de proximidade

Mas a presença das irmãs vai além do cuidado litúrgico ou pastoral. Na rua conhecem todos pelo nome e ninguém fica indiferente à sua passagem.

Fomos com as irmãs Maria Olinda e Teresa Anjo até ao Mercado de Cassongue. Apesar de estarmos no interior sul de Angola, por ali encontra-se de tudo. Do peixe seco a ferramentas, cosmética ou produtos de higiene e construção civil, é o grande centro comercial da região.

As irmãs aproveitam para fazer as compras necessárias, mas também para se informarem do estado de algum doente ou da criança que não viram na catequese. Estas mulheres querem cultivar uma Igreja de proximidade que se preocupa com as circunstâncias de vida de cada um.

A irmã Teresa Anjo tem um conhecimento especial das carências e necessidades que afectam o povo. Esta religiosa enfermeira descobre-as em cada consulta e atendimento que faz no Hospital Municipal de Cassongue.

«Deparo com muitas carências alimentares e doenças derivadas desta situação», refere. «As pessoas têm dificuldade de mudar hábitos e insistem numa alimentação pouco variada.» A irmã Teresa Anjo reconhece as dificuldades económicas, mas também o facto de frequentemente as galinhas e os animais serem vendidos para comprar mais mandioca. «O resultado é que as crianças crescem com poucas proteínas e muitos hidratos de carbono, o que tem consequências ao nível da saúde.»

 

Sementes vocacionais

Entre as três religiosas portuguesas encontramos ainda a irmã Rosária Monteiro, uma jovem angolana. É ela que está responsável pelo acompanhamento vocacional de algumas raparigas que se sentem impelidas à vida consagrada.

Na residência das SNSF há uma dependência vizinha habitada por jovens que chegam de diversas paróquias e regiões de Angola. Chamam-lhes vocacionadas, e são raparigas que querem aprofundar o chamamento à vida consagrada que um dia sentiram.

«O nosso pároco convidou-nos para um grupo de vocacionadas e enviou-nos em missão», diz Dionísia Vihemba, que chegou do Cuíto, na província do Bié. Já a sua companheira Maria de Fátima reconhece que o que a motiva é «aprofundar a sua vocação e crescer nos conhecimentos da fé».

A irmã Rosária Monteiro coordena os grupos de vocacionadas que as SNSF mantêm em Cassongue e em Luanda. Diz-nos que este é essencialmente um trabalho de formação, porque a prioridade é aumentar os seus conhecimentos na doutrina cristã. Muitas destas raparigas têm ainda pouco conhecimento do que é a vida religiosa e por isso participam na vida comunitária das irmãs e partilham com elas algumas tarefas de animação pastoral. A oração em comum é outra dimensão importante.

«Mesmo que nem todas cheguem a religiosas, sabemos que isso vai acontecer, embora desejássemos muito o contrário, o importante é que sejam umas cristãs empenhadas», comenta a irmã Rosária Monteiro.

Esta religiosa reconhece que também teve dúvidas no seu percurso vocacional.

«Em Angola temos o costume de os irmãos mais velhos ajudarem a criar os mais novos. Quando entrei no aspirantado, pensei se não deveria antes cuidar da minha irmã mais nova.»

Foi a mãe que acabaria por lhe tornar mais claro o caminho da sua vocação. «Ela disse-me: “Quando eu resolvi casar, ninguém me impediu. Por isso, segue o teu caminho, que eu crio os meus filhos”», recorda a irmã Rosária Monteiro.

 

 

 

 

Carisma missionário

 

As Servas de Nossa Senhora de Fátima foram fundadas por Luiza Andaluz em 1923, em Santarém. Esta congregação religiosa baseia o seu carisma na resposta a necessidades urgentes da missão da Igreja, na sociedade. Um trabalho que as religiosas desenvolvem na promoção humana e no apoio à acção pastoral.

Uma das particularidades desta forma de servir a Igreja é o facto de as irmãs assumirem também o mundo do trabalho no exercício de várias profissões e serem aí um sinal da presença de Jesus Cristo e da Igreja.

Em 1975, a congregação enviou as primeiras religiosas para Moçambique, inaugurando a primeira comunidade missionária fora de Portugal.

Hoje, as SNSF, além de Portugal, desenvolvem a sua missão no Luxemburgo, Bruxelas, Moçambique, Angola, Guiné-Bissau e Brasil.

 

 

 


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