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Fevereiro de 2019

O Papa e os jovens: O futuro é hoje
Por: ANTÓNIO MARUJO, jornalista do setemargens.com



JMJ do Panamá

 

No Panamá, Portugal recebeu a melhor notícia: caberá a Lisboa organizar a Jornada Mundial da Juventude de 2022. Até lá, podem os discursos, gestos e homilias do papa na jornada da América Central inspirar o guião da preparação do encontro em Portugal?

 

Foi na homilia da missa de encerramento das Jornadas Mundiais da Juventude do Panamá, dia 27. Contrariando muitos lugares-comuns e afirmações frequentes que se ouvem socialmente e mesmo dentro da Igreja, o Papa Francisco foi claro sobre o papel dos jovens: eles são o «agora de Deus», disse. E, dirigindo-se directamente aos mais de 100 mil que o escutavam, acrescentou, numa frase que nem sequer estava no texto preparado: «Ninguém te pode prometer um dia para amanhã, a tua vida é hoje.»

Nas suas intervenções públicas ou através dos seus encontros com jovens detidos num centro de reeducação e com jovens doentes de sida, Francisco não fez mais que repetir, de formas sempre originais, algumas das constantes do seu pontificado: Deus ama todas as pessoas por igual; Deus está nos mais frágeis, nos abandonados, nos esquecidos; a missão de qualquer crente, jovem ou adulto, homem ou mulher, é estar, como Jesus, sempre disponível para a escuta das fragilidades de todos e dar a cada pessoa o cuidado de que ela necessita.

Toda a homilia de domingo foi uma insistência em várias dessas ideias. Partindo do texto do evangelho do dia – quando Jesus vai à sinagoga de Nazaré –, comentou o papa: «Jesus revela o agora de Deus, que vem ao nosso encontro para nos chamar, também a nós, a tomar parte no seu agora.» E esse agora implica «anunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos a recuperação da vista, mandar em liberdade os oprimidos e proclamar um ano favorável da parte do Senhor».

Essa é a missão que Francisco entende ser própria dos jovens, como própria de qualquer crente. Eles não devem ser postos de parte nem se devem pôr de parte. Devem, antes, como Jesus, estar atentos a todas as situações que o exijam. Tal como Jesus, aliás, que se faz «rosto, carne, amor de misericórdia que não espera situações ideais ou perfeitas para a sua manifestação, nem aceita desculpas para a sua não-realização». Tal como Jesus, que é o tempo de Deus que torna justos e oportunos todos os espaços e situações e no qual «começa e faz-se vida o futuro prometido».

Depois de uma assembleia do Sínodo dos Bispos em cujo processo o Papa Bergoglio quis que os jovens fossem protagonistas; e depois de o documento final ter defraudado algumas expectativas, a insistência de Francisco, nas sucessivas intervenções que fez no Panamá, indicam que ele entende que os jovens não podem ser apenas um adorno na Igreja. Nem pode a sua participação limitar-se a querer afirmar que até há renovação de gerações no interior do catolicismo.

Não deve dar lugar a qualquer domesticação dos mais novos, porque isso também seria domesticar a palavra de Deus. Por isso, o papa pediu aos mais novos que não cedam a essa tentação. Ser jovem, disse-lhes, não pode ser sinónimo de ficar numa qualquer «sala de espera» aguardando a sua vez. «Enquanto esta não chega, inventam para vós ou vós próprios inventais um futuro higienicamente bem embalado e sem consequências, bem construído e garantido com tudo bem assegurado», afirmou. Uma tal perspectiva é uma «ficção da alegria»: «Assim vos tranquilizamos e adormecemos para não fazerdes barulho, para não fazerdes perguntas a vós mesmos e aos outros, para não vos pordes em discussão a vós próprios e aos outros; e entretanto os vossos sonhos perdem altitude, começam a adormecer-se e tornam-se ilusões rasteiras, pequenas e tristes, só porque consideramos ou considerais que o vosso agora ainda não chegou; que sois demasiado jovens para vos envolverdes no sonho e construção do amanhã.»

 

Redes sociais e vias-sacras contemporâneas

Quem estas coisas diz é o mesmo papa que sabe dirigir-se aos mais novos, entrar na sua linguagem, compreendê-la e compreender também os seus limites. Na noite da vigília, onde se ouviram testemunhos de jovens que enfrentaram situações difíceis – um casal com uma filha deficiente ou um ex-toxicodependente, por exemplo –, Francisco tomou a linguagem do mundo digital para apontar Maria de Nazaré, mãe de Jesus, como um modelo: ela «não aparecia nas redes sociais da sua época, não era uma influencer, mas sem querer nem procurá-lo, tornou-se a mulher que mais influenciou a História». Era, enfim, uma mulher «decidida», que deu um «sim» a Deus, sem hesitações.

E é também o mesmo que sabe bem compreender as situações mais dramáticas vividas pelas gerações mais novas: «Resumo-as em quatro “sens” que deixam a nossa vida seca e sem raízes: sem trabalho, sem educação, sem comunidade e sem família. Quer dizer, vidas sem raízes. Estes quatro “sens” matam.» Pelo contrário, qualquer pessoa, «pelo facto de ser deficiente ou frágil, é digna de amor», e alguém «pelo facto de ser estrangeiro, ter errado, encontrar-se doente ou numa prisão» também.

Na via-sacra de sexta-feira, o papa partiu do nome da própria celebração para dizer que, hoje, a via-sacra de Jesus se prolonga em milhentas situações: nas crianças impedidas de nascer, naquelas a quem se nega «uma infância, uma família», instrução ou a possibilidade de brincar, «jogar, cantar, sonhar»; nas «mulheres maltratadas, exploradas e abandonadas», nos jovens sem esperança nem trabalho ou que caem em «redes de exploração, criminalidade e abuso, que se alimentam das suas vidas». Ou ainda em jovens e famílias que vivem espirais de morte «por causa da droga, do álcool, da prostituição e do tráfico humano»; ou dos que se resignam e se conformam, nos idosos que vivem sós, nos povos nativos «despojados das suas terras, das suas raízes e da sua cultura» ou na nossa mãe Terra, «ferida nas suas entranhas pela contaminação da atmosfera, a esterilidade dos seus campos, o lixo das suas águas».

No dia anterior, na cerimónia de boas-vindas, a ideia sublinhada foi a de os jovens serem como construtores de pontes e não como construtores de muros que, semeando medos, procuram dividir. E, no encontro com os bispos, afirmou ainda que estes devem ter como modelo e referência Óscar Romero, assassinado enquanto celebrava missa, em Março de 1980, pela defesa que fazia da justiça social numa realidade toda ela feita de exclusões e terríveis desigualdades.

Devem sublinhar-se, entretanto, os gestos protagonizados pelo papa, precisamente nos encontros que teve com pequenos grupos de pessoas. O primeiro foi numa visita a uma prisão de jovens, com os quais fez uma celebração penitencial, distinguiu os olhares dos fariseus e o de Jesus: «São dois olhares bem diferentes que se contrapõem. Um olhar estéril e infecundo – o da murmuração e o do mexerico, que fala sempre mal dos outros e se sente justo; e o outro, que convida à transformação e à conversão – que é o do Senhor.» O segundo foi no lar do Bom Samaritano, que acolhe jovens doentes de sida, aos quais disse que aquela casa mostra «que o próximo é, antes de tudo, uma pessoa, alguém com um rosto concreto, com um rosto real, e não qualquer coisa a deixar para trás ou ignorar, seja qual for a sua situação».

O que tem tudo isto que ver com Lisboa 2022? Desde logo, umas jornadas da juventude não podem ser organizadas sem um processo sinodal, de larga participação, que inclua o contributo dos mais novos, no sentido em que os jovens são o «agora de Deus». Também, na perspectiva da reunião pré-sinodal de jovens e das próprias conclusões do Sínodo de Outubro, que essa participação se faça com pluralidade de olhares, aceitando a riqueza da diversidade e do pluralismo de ideias. Depois, com um sentido de missão claro, que vá além de uma organização perfeita: uma Igreja que acolha, em primeiro lugar, a centralidade de Jesus Cristo; e que acolha também os desafios do papa no sentido do compromisso com os mais frágeis, de uma presença fundada na escuta, de uma hospitalidade que se alargue às vidas das pessoas e não se reduza ao acolhimento de milhares de jovens durante uma semana.

Afinal, no Panamá, o papa fez o guião para a preparação da jornada de Lisboa.

 

 

 

 

Jornada Mundial da Juventude 2022: Lisboa acolherá os jovens do mundo

 

No final da missa celebrada no campo São João Paulo II, o cardeal Kevin Farrell, prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida (Santa Sé), anunciou que «a próxima Jornada Mundial da Juventude vai decorrer em Portugal».

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) reagiu com «grande alegria» ao anúncio de que a próxima Jornada Mundial da Juventude (JMJ) vai decorrer em 2022, na cidade de Lisboa.

O porta-voz do episcopado, P.e Manuel Barbosa, destaca em comunicado que este é um acontecimento «em que a Igreja em Portugal, e de modo particular o Patriarcado de Lisboa, conta com o apoio da Presidência da República e a colaboração das entidades governamentais e autárquicas».

No Panamá, o Presidente da República afirmou que a decisão do papa de convocar a Jornada Mundial da Juventude para Lisboa, em 2022, é uma «vitória de Portugal, da língua portuguesa e da lusofonia», confirmando desde já a sua presença.

O cardeal-patriarca de Lisboa disse no Panamá que espera entre 1 e 2 de milhões de jovens, no Verão de 2022, para a JMJ, na zona do Parque Tejo.

D. Manuel Clemente falava aos jornalistas após o anúncio, feito pelo Vaticano, de que a capital portuguesa vai acolher a próxima edição internacional da JMJ, maior evento juvenil organizado pela Igreja Católica.

Em conferência de imprensa, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa adiantou que o local «mais que provável» para os eventos conclusivos da JMJ 2022 será a margem norte do rio Tejo, junto ao Mar da Palha, que evoca o «Mar da Galileia», por onde Jesus andou. «Até é uma imagem bíblica, melhor não poderia ser», assinalou o patriarca.

 

 


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