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Fevereiro de 2019

África: Grande Muralha Verde
Por: CARLOS REIS, jornalista



 

A iniciativa Grande Muralha Verde tem a ambição de construir uma faixa de árvores que atravesse de oeste a leste o continente africano.

 

 

Há mais de uma década que um projecto procura devolver a vida às paisagens degradadas de África numa escala sem precedentes. A ambição é construir um cinturão de 37 espécies de árvores nativas com oito mil quilómetros de comprimento e 15 quilómetros de largura que atravesse o continente. A Grande Muralha Verde (GMV) irá do Senegal, na África Ocidental, ao Jibuti, no Nordeste do continente. As árvores deverão reduzir a erosão do solo, diminuir a velocidade do vento e ajudar a filtrar a água da chuva para o solo. Desta forma, impedirão o avanço do deserto e tornará o solo mais rico para pastagens e agricultura, ajudando as comunidades locais que dependem da terra. Quando completada, a grande muralha verde será a maior estrutura viva no planeta.

O muro ecológico está a ser concretizado em duas dezenas de países e mais de oito mil milhões de dólares foram já assegurados ou prometidos em apoio ao projecto. A ideia é que a iniciativa transforme as vidas de milhões de pessoas que sofrem com a desertificação e a mudança climática nas regiões do Sahel e do Sara. «A iniciativa GMV é a demonstração de liderança, mudança de pressupostos básicos e estratégias de abordagem dos Estados do Sahel-Sara para enfrentar as questões de desenvolvimento ambiental e climático e socioeconómico», garante Abdoulaye Dia, secretário executivo da Agência Pan-Africana da GMV.

 

Símbolo global

Entende-se por desertificação – segundo o conceito da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação – não a perda de terra para o deserto ou por meio de movimento de areia e dunas, mas a degradação da terra em regiões áridas, semiáridas e sub-húmidas, resultantes de factores como a pressão sobre ecossistemas frágeis, desmatamento e alterações climáticas.

A expectativa das Nações Unidas é de que a Grande Muralha Verde possa ajudar na solução de muitas ameaças que castigam as comunidades da região, como a seca, a fome, os conflitos e a migração. «A GMV proporcionará um futuro melhor para a juventude rural de África e uma oportunidade de revitalizar comunidades inteiras. Pode unir em torno de uma ambição comum e épica, a de fazer crescer uma maravilha do mundo do século xxi, através das fronteiras e em toda a África», antecipa Monique Barbut, secretária executiva da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD).

O cientista-chefe de Ciência, Tecnologia e Implementação da UNCCD explica que «a iniciativa representa a visão de lidar explicitamente com a área e mudar tudo, não em um ou dois lugares, mas em todo o horizonte». Barron Orr esclarece que o projecto tenta «criar um valor agregado para as pessoas que vivem nessas terras, não apenas plantando árvores, mas fazendo-o de uma forma ligada à economia que sirva para sustentar a subsistência delas e de futuras gerações».

 

Solução convincente

Perante a desertificação e a degradação do solo e o forte impacto negativo na segurança alimentar e meios de subsistência das comunidades locais, os chefes de Estado e de governo da União Africana lançaram, em 2007, a GGWSSI, uma iniciativa para apoiar os esforços das autoridades locais na gestão sustentável e uso de florestas, pastagens e outros recursos em terras secas.

Para a UNCCD, «a região do Sahel é a região de alguns dos desafios mais prementes da humanidade, onde a rápida degradação do ambiente natural é um factor-chave». Estatísticas da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação apontam que 46% das terras da região estão degradadas, comprometendo os meios de subsistência de quase dois terços da população do continente. Em 2017, cerca de 20 milhões de pessoas no Corno de África foram declaradas à beira da inanição após secas severas e crises alimentares. Até 2050, espera-se que os 100 milhões de habitantes do Sahel cresçam para 340 milhões.

«Construir a GMV, restaurando áreas secas degradadas, torna as comunidades mais fortes e mais resilientes às mudanças climáticas», assegura a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Da ideia inicial de uma linha de árvores do oeste a leste do continente, através do deserto africano, a visão evoluiu para a de um mosaico de intervenções que fortaleça a resiliência das pessoas e sistemas naturais da região. Assim, mais do que um muro florestal, a GMV é um conjunto de projectos de desenvolvimento rural que ajudam as populações a adaptar-se às mudanças climáticas. O primeiro passo para a GMV foi definido em 2011, com o desenvolvimento de uma estratégia da União Africana e com um investimento inicial de 1,75 milhões de euros. A iniciativa GMV é conduzida pela União Africana, em colaboração com o Banco Mundial, a FAO e o Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP).

 

Escala continental

No Senegal, em menos de uma década, já foram plantados 12 milhões de árvores resistentes à seca. No Níger, nos cinco milhões de hectares de terra recuperados são agora produzidas 500 mil toneladas de grãos por ano. Na Etiópia, 15 milhões de hectares de terras degradadas foram reabilitadas.

Para o cientista-chefe de Ciência, Tecnologia e Implementação da UNCCD, «o sentimento geral é de que se está a caminhar em direcção à meta, que é muito grande. São 100 milhões de hectares de terra que estão sendo recuperados». De acordo com Barron Orr, a expectativa é de que o projecto esteja concluído até 2030 e que com ele 10 milhões de empregos verdes sejam criados, 100 milhões de hectares de terras degradadas sejam restauradas e 250 milhões de toneladas de carbono sejam sequestradas. Assim, a GMV contribui directamente para os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável 2015-2030, promovidos pela ONU.

Uma década decorrida e cerca de 15% do projecto em andamento, «a iniciativa já está a trazer a vida de volta às paisagens degradadas da África numa escala sem precedentes, fornecendo segurança alimentar, empregos e um motivo para ficar aos milhões que vivem na sua faixa», avança a UNCCD, no que considera ser «uma solução convincente». Uma vez concluída, a GMV será a maior estrutura viva do planeta, três vezes maior que a Grande Barreira de Coral australiana.

 

 

 

documentário Great Green Wall

 

O realizador brasileiro Fernando Meirelles, autor dos filmes Cidade de Deus e O Fiel Jardineiro, é o produtor executivo do documentário Great Green Wall, uma jornada de esperança, sofrimento e perseverança orientada pela cantora pop/funk/soul maliana Inna Modja através da Grande Muralha Verde. Parte odisseia musical e viagem cultural, parte exploração da desertificação e alterações climáticas, Inna Modja segue numa missão para reunir os músicos mais emocionantes de África e gravar um álbum único que capta o espírito do muro ecológico.

Em produção ao longo de 2019, o filme reúne histórias pessoais de adversidade, determinação e triunfo do Sahel, visita cidades e savanas com um grupo de artistas-activistas compondo uma banda sonora ecléctica para o continente. «Este é um documentário esperançoso sobre uma iniciativa positiva», resume Fernando Meirelles.

 

 


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