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Novembro de 2018

Mulheres não são campo de batalha
Por: FERNANDO FÉLIX, jornalista



Nobel da paz 2018

 

O Nobel da Paz 2018 foi atribuído ao médico ginecologista Denis Mukwege, da República Democrática do Congo, e à activista dos direitos humanos Nadia Murad, do Iraque, que curam e protegem as mulheres vítimas de violência sexual como arma de guerra, e exigem que os abusadores sejam responsabilizados pelas suas acções.

 

Denis Mukwege tem 63 anos. É filho de um pastor da Igreja Pentecostal. Tinha apenas 5 anos quando, em 1960, o país proclamou a independência da Bélgica e começou uma história marcada pela corrupção e a guerra civil, expressões da cobiça pelas riquezas minerais do território. Logo nesse ano, assumiu protagonismo o militar Joseph Mobutu, que, cinco anos mais tarde, tomará o poder, mudará o nome do país para Zaire e irá governar em ditadura durante trinta e dois anos.

Com 12 anos, Mukwege vê Mobutu ser deposto por Laurent Kabila, que altera o nome do país para República Democrática do Congo. É a chamada primeira guerra do Congo, a que se segue outra, mais longa: entre 1998 e 2003; mais ampla: envolveu nove países da região; e mais atroz: caracterizou-se pela extrema violência, pela deslocação maciça de populações, pelas violações em larga escala e pelo desmoronamento dos serviços de saúde pública.

De acordo com estimativas da organização não-governamental International Rescue Committee (IRC), de 2006, estas duas guerras causaram a morte de perto de quatro milhões de congoleses. Por sua vez, as organizações não-governamentais Human Rights Watch e Amnistia Internacional, entre outras, denunciaram o uso sistemático da violação como arma de destruição da unidade familiar, a base da sociedade congolesa, e como estratégia de propagação deliberada do VIH, com consequências catastróficas.

Em 2018, Denis Mukwege continua a ver o seu país em guerra, mantendo-se as práticas horrendas das chacinas, das violações, do uso de crianças-soldados e do agravamento da pobreza da população.

Ele, ainda jovem, sentiu-se motivado para estudar Medicina ao acompanhar o pai e ver como ele orava pelos doentes. Encontrou na fé cristã o fundamento da igual dignidade de homens e mulheres perante Deus e nunca cessou de condenar frontalmente a mentalidade e as práticas machistas, afirmando-as como ofensivas à fé.

Em 1999, com 44 anos, fundou o Hospital Panzi, em Bukavu, no Sudoeste do país, junto à fronteira com o Ruanda, com 350 camas, para tratar e ajudar crianças e mulheres vítimas de violência sexual em contexto de guerra.

Nas últimas duas décadas, o Doutor Milagre, como lhe chamam, por ser um dos maiores especialistas mundiais na reparação e tratamento de danos físicos provocados por violação, e a sua equipa, trataram cerca de 30 mil mulheres que foram violadas pelos combatentes desde 1996. Estas mulheres apresentavam consequências físicas de longo prazo, como a fístula anorrectal, que leva à incontinência, a infecções e a lesões que complicam o parto.

A equipa de Mukwege cuida não apenas do corpo, mas leva as mulheres a lutarem por si mesmas, a reconstruírem a sua vida, com vista à autonomia e reintegração na sociedade, prestando-lhes apoio psicológico, assistência jurídica e facultando-lhes recursos graças a um sistema de microcrédito.

 

Não é suficiente atribuir prémios

A respeito de Denis Mukwege, Berit Reiss-Andersen, presidente do comité norueguês do Nobel, referiu: «É o símbolo mais importante e unificador, tanto nacional como internacionalmente, da luta para acabar com a violência sexual na guerra e nos conflitos armados. O seu princípio básico é o de que a justiça é um assunto de todos. Homens e mulheres, oficiais e soldados, autoridades locais, nacionais e internacionais, todos partilham a responsabilidade de denunciar e combater esse tipo de crime de guerra. Condenou repetidamente a impunidade por violações em massa e criticou o Governo congolês e de outros países por não fazerem o suficiente para impedir o uso da violência sexual contra as mulheres como estratégia e arma de guerra.»

De facto, Mukwege – também galardoado com os prémios Olof Palme (2008), Sakharov (2014) e, em Portugal, o Prémio Calouste Gulbenkian (2015) –, ao falar no Parlamento Europeu na cerimónia do Prémio Sakharov, frisou que, na República Democrática do Congo e em muitos outros locais, «o corpo da mulher é transformado num verdadeiro campo de batalha». Todavia, ele, em cada mulher violada vê a sua mulher; em cada mãe violada, vê a sua mãe; e em cada criança violada, vê os próprios filhos. Por isso não pode calar a sua voz. E, apelando para o fim da violação como arma de guerra, disse aos eurodeputados: «Este prémio não terá qualquer significado para as vítimas de violência sexual se vós não vos juntardes a nós na nossa procura por paz, justiça e democracia.»

 

Luta contra o tráfico sexual de mulheres

Nadia Murad tem 25 anos. Pertence à minoria étnico-religiosa dos Yazidis, composta por cerca de 400 mil pessoas e cujas crenças misturam componentes de várias religiões antigas do Médio Oriente. A maior parte dos seus membros vive no Norte do Iraque.

Ela tinha 21 anos quando foi sequestrada pelo grupo terrorista autoproclamado Estado Islâmico (EI), em Agosto de 2014, e mantida como escrava sexual na cidade de Mossul durante três meses. O rapto de mulheres e a violência sexual fazia parte da estratégia militar empregada pelos terroristas contra minorias religiosas. Estima-se que 6500 meninas e mulheres yazidis foram vítimas de violação e outros abusos por parte daqueles extremistas islâmicos.

Nadia conseguiu escapar aos terroristas e, desde então, tem estado à frente de uma campanha para libertar as yazidis prisioneiras, obter informações acerca dos membros do seu povo ainda desaparecidos e impedir o tráfico de seres humanos. Em Setembro de 2016, tornou-se a primeira embaixadora da Boa Vontade das Nações Unidas para a Dignidade dos Sobreviventes de Tráfico Humano.

O comité norueguês do Nobel salientou que Nadia Murad se «recusou a aceitar os códigos sociais que exigem às mulheres que fiquem em silêncio e envergonhadas pelos abusos a que foram sujeitas», elogiou a sua «invulgar coragem» ao contar a sua história e falar em nome de outras vítimas.

No livro Eu Serei a Última, as palavras de Nadia são um grito contra a indiferença e a hipocrisia. Ela conta que, no Verão de 2014, os combatentes do EI cercaram a sua aldeia durante duas semanas. Tudo foi programado. As mulheres foram separadas dos homens. Estes foram levados em carrinhas e assassinados. As jovens foram vendidas como escravas, e mudavam de proprietários, quando se fartavam delas.

 

Mensagem do Nobel

Há dez anos, foi assinada a Resolução 1820 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que considerou pela primeira vez o uso da violência sexual como arma nos conflitos um crime de guerra. O exemplo dos que trabalham para a cumprir alerta para o muito que ainda há por fazer.


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