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Novembro de 2018

Jovens são pouco ouvidos, o sínodo começa agora
Por: ANTÓNIO MARUJO, jornalista do setemargens.com



Vaticano: Assembleia sinodal

 

A Igreja deve escutar os jovens e ir aos lugares onde eles vivem. Duas das linhas de reflexão referidas com insistência no processo sinodal que foi dedicado aos jovens. O trabalho a sério começa agora, depois da publicação do documento final e enquanto se aguarda a exortação do papa sobre o tema.

 

Dizia o cardeal Charles Maung Bo, arcebispo de Rangum, Mianmar: «O que ouvimos ao longo do sínodo é que os jovens são desconsiderados, pouco ouvidos.» E acrescentava: «Não é que os jovens sejam inúteis, mas são “pouco usados”.»

Maung Bo falava, dia 23 de Outubro, na conferência de imprensa de apresentação do esboço de documento final do Sínodo dos Bispos que, nos dias 25 e 26 (já depois do fecho desta edição da Além-Mar), foi sujeito à votação dos seus 173 parágrafos, ponto por ponto. A assembleia, sobre o tema Os jovens, a fé e o discernimento vocacional, teve a participação de 257 bispos de todo o mundo e da Cúria Romana, além de vários convidados, secretários, delegados de outras confissões cristãs e auditores – estes últimos podiam intervir nos debates, mas não votar; 37 deles eram jovens e vários deram testemunhos de situações difíceis que vivem, por exemplo, no Iraque ou em África.

«Nós, bispos, perguntamos o que podemos fazer pelos jovens, mas os jovens fizeram muito por nós, ensinaram-nos», afirmou, sobre a experiência tida, o cardeal Luis Antonio Tagle, arcebispo de Manila (Filipinas), citado pela Ecclesia. O cardeal Sérgio da Rocha, relator geral do sínodo, explicou que o texto parte muito do instrumentum laboris, o documento de trabalho para os debates da assembleia. Com a diferença de que, entretanto, se acrescentaram os contributos dos membros do sínodo.

No instrumentum laboris, por seu turno, já se reflectiam muitos dos debates e do documento final da reunião pré-sinodal que, no final de Março, juntou em Roma 300 jovens de todo o mundo – entre os quais três portugueses. O documento de trabalho da assembleia de Outubro citava 75 vezes o texto final da reunião de jovens (o documento mais citado, a seguir, é o da exortação A Alegria do Evangelho, do Papa Francisco, mas apenas por 20 vezes).

No resumo do documento final oferecido pelo Vatican News, lia-se que o projecto de documento final mantinha a estrutura fundamental do instrumentum laboris (reconhecer, interpretar, seleccionar), mas reflectindo, agora, o episódio bíblico dos discípulos de Emaús: «Caminhava com eles»; «Os seus olhos abriram-se»; «Partiram sem demora».

No decorrer do processo sinodal – inquérito preparatório, reunião pré-sinodal de jovens de Março, documento de trabalho, assembleia de Outubro – vários temas se foram destacando, o que permite avaliar temas importantes do documento final e que seguramente aparecerão na exortação do papa. Desde logo, a importância dos jovens na vida da Igreja, confrontada com uma crise de adesão e confiança dos mais novos na vida e na estrutura eclesial; e o papel da mulher na sociedade e na comunidade eclesial, que vá além do “enfeitar igrejas”, afirmando a possibilidade de ter e ser uma voz activa no interior da comunidade.

 

Ouvir a «sabedoria feminina»

Na conferência de imprensa, o cardeal filipino também afirmou que o sínodo foi «particularmente sensível» à escuta das mulheres, reconhecendo que a experiência das jovens e da sabedoria feminina deveria ser «realmente ouvida». Todos devem aprender com «as suas dores, as suas forças, a sua coragem», acrescentou, citado pela Ecclesia.

Os temas da moral individual foram igualmente aparecendo ao longo do processo. A questão da homossexualidade, por exemplo, seria referida seguramente no documento sinodal, já tinha dito o arcebispo de Manila, mas o mais importante é a mensagem de uma Igreja que olha à «humanidade» de todos, «qualquer que seja a sua orientação sexual». Ao longo do processo, o tema esteve muito presente e na reunião dos jovens tinha merecido um debate profundo, já que as opiniões se separavam mais, em relação a este tema, do que sobre outros assuntos como o aborto ou a eutanásia, sobre os quais havia um maior consenso entre os jovens no sentido da recusa do princípio.

De resto, falou-se sempre muito de questões como a credibilidade da Igreja (ou a falta dela, por causa dos abusos sexuais), refugiados e migrações, paz e desenvolvimento sustentável, desigualdades sociais e emprego, tecnologia e redes sociais, ou economia e intervenção política. Outro tema que sobressaiu, até por ter que ver com o título geral da assembleia, foi a necessidade de um maior acompanhamento dos jovens e a importância de envolver os mais novos nos processos de decisão da Igreja.

O destinatário do documento final é, em primeiro lugar, o papa – que, a partir dele, redigirá uma exortação apostólica. No entanto, a partir do final da assembleia sinodal, a 28 de Outubro, o texto ficou disponível para toda a Igreja. Ao mesmo tempo, foi também aprovada e divulgada uma mensagem dos bispos aos jovens, onde vários destes temas são assinalados.

Na exortação que entretanto escreverá, pode já intuir-se que o papa não deixará de referir a necessidade de a Igreja ir procurar os jovens aos sítios onde eles estão, muito na linha da sua insistência de ir às periferias e do que se lia no documento da reunião de Março: «A Igreja deve buscar formas novas e criativas de encontrar as pessoas exactamente onde elas vivem, em lugares onde socializam naturalmente: bares, cafés, parques, academias, estádios e outros centros culturais populares. [...] De igual modo, nós precisamos da luz da fé em lugares mais desafiantes como orfanatos, hospitais, bairros marginalizados, regiões devastadas pela guerra, prisões, centros de reabilitação e zonas de prostituição.»

Na conferência de imprensa, o cardeal Tagle referiu-se ao pós-sínodo: «O que acontece depois desta celebração é que será realmente o sínodo: nas Igrejas locais, nas conferências episcopais, escolas, ordens religiosas e famílias...» O cardeal Sérgio da Rocha, ao falar do documento, também disse que o caminho sinodal prevê uma fase de concretização das propostas. «Será importante que as Igrejas particulares e as conferências episcopais possam assumir de maneira criativa e fiel a dinâmica do documento, a fim de adaptar ao seu contexto o que surgiu durante os trabalhos.» Ou seja, o processo não termina com «receitas pastorais a serem assumidas», o que seria «o oposto do discernimento».

 

A dificuldade de dar respostas

Se o sínodo começa agora e o mais importante está por fazer, uma das questões é o que podem ser as sugestões pastorais do documento final. A avaliar pelos relatórios dos 14 grupos linguísticos, o La Croix International notava que pode haver alguma dificuldade em transpor para a acção concreta a reflexão feita durante a assembleia, arriscando-se a formular apenas um conjunto de ideias gerais e de bons propósitos. Citado pela Ecclesia, o cardeal Tagle também assumiu a dificuldade: «Não é um sínodo que quer dar todas as respostas e soluções, claras, porque a vida não é clara. A vida dos jovens, hoje, não é clara.»

De qualquer modo, esta assembleia foi um passo importante no caminho sinodal que o Papa Francisco tem proposto para toda a Igreja. Uma reunião preparatória que deu a palavra aos jovens e a alteração de algumas das regras do sínodo, de modo a torná-lo mais operativo, foram passos importantes num caminho que será ainda longo.

A experiência da escuta, a que o cardeal Bo se referia, tal como o problema da linguagem, já tinham sido sublinhados no documento da reunião pré-sinodal de jovens, em Março. Para aí apontavam, aliás, algumas das expectativas dos três portugueses que participaram na reunião de Março: «Estes processos de auscultação têm de ser mais frequentes», dizia Rui Teixeira, 31 anos, escuteiro, em entrevista ao sítio 7 Margens. «O problema não é alterar tudo o que [a hierarquia] diz, mas dizê-lo com uma linguagem acolhedora, não como uma imposição que exclui», acrescentava Joana Serôdio, 30 anos, que integra a equipa do Departamento Nacional de Pastoral Juvenil. «É um erro quando a Igreja se quer pensar a si mesma e o faz para dentro», afirmava também Tomás Virtuoso, 24 anos, das Equipas de Jovens de Nossa Senhora.

Na meditação de uma das orações da última semana de trabalhos, um dos bispos participantes dizia, de acordo com o Vatican News, que os jovens querem uma Igreja transparente e pobre e que as palavras do Crucifixo de São Damião a São Francisco de Assis – «Vai e reconstrói a minha Igreja» – são hoje um estímulo para todos. «Opção preferencial pelos jovens quer dizer dedicação em termos de tempo, pessoas e recursos financeiros nas paróquias e nas dioceses de todo o mundo.»

A palavra cabe, agora, à acção de todas as dioceses, paróquias e comunidades à volta do mundo. E aos jovens.


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