Página Inicial







Actualizar perfil

Em Foco
Janeiro de 2019

Asia Bibi: O longo caminho para a liberdade
Por: MARGARIDA SANTOS LOPES, Jornalista



O «crime» desta mãe católica paquistanesa foi beber um copo de água de um poço reservado a muçulmanos. Condenada à morte em 2010, por «insultar Maomé», foi absolvida em 2018 – veredicto histórico do Supremo Tribunal de um país onde a lei contra a blasfémia permanece arma de vingança contra minorias religiosas.

 

A vida de Aasiya Noreen Bibi, pobre e analfabeta, fluía sem grandes solavancos, como o esgoto a céu aberto que corre pela esburacada aldeia natal de Ittan Wali, província paquistanesa do Punjabe. Até que o pouco que tinha se desmoronou num domingo tórrido, 14 de Junho de 2009.

Saiu de manhã cedo, sem ranger a porta de casa para não despertar o marido e os cinco filhos, no entusiasmo de ganhar 250 rupias (menos de 1,60 euros) por uma jornada laboriosa a apanhar bagas de fruto. Com este dinheiro, compraria dois quilos de farinha, o suficiente para alimentar a família com o tradicional pão chapati.

A tarefa era árdua, porque exigia um esforço físico extremo, sob um calor abrasador. Só receberia a quantia ajustada se enchesse o cesto da colheita. Mas o seu era maior do que os das companheiras de trabalho, pelo simples facto de estas serem muçulmanas e ela cristã. Não protestou. Estava habituada a ter de baixar a cabeça. A ser tratada como “intocável” cidadã de segunda classe.

Ao meio-dia, já desidratada, aproximou-se de um poço e usou um velho copo de metal para beber água fresca, que retirara com a ajuda de um balde. Começou então a ouvir vozes a resmungar. Ignorou o burburinho e voltou a encher o copo, para o oferecer a uma colega, também ela sequiosa. O gesto foi interrompido pela vizinha Musarat, costureira e coscuvilheira da aldeia, que gritou: «Não bebas dessa água – é haram [proibida]!»

Asia Bibi, como todos a conhecem, estava longe de imaginar que, naquele domingo de Junho, os seus gestos e palavras a fariam agonizar nove anos em duas prisões. O tormento é relatado em Blasfémia: Condenada à morte por um copo de água (Alêtheia Editores, 2011). Ela foi a voz e a jornalista francesa Anne-Isabelle Tollet a caneta.

 

«Não mereces viver!»

«Ouçam, todos vós, esta cristã sujou a água do poço quando a bebeu do nosso copo», sentenciou a hostil Musarat, frisando que Asia pertence a uma «casta poluta» (chuhda musali). «A água está agora impura e não a podemos beber.»

A acusação era tão injusta, que Asia ousou defender-se: «Creio que Jesus agiria de maneira diferente de Maomé.» Musarat disparou: «Como te atreves a pensar pelo profeta, seu animal imundo? Deves converter-te ao Islão e redimires-te!» A cristã contrapôs: «Acredito que Jesus morreu na cruz pelos pecados da Humanidade. O que é que o teu profeta Maomé fez pela Humanidade? E porque tenho eu de me converter e não tu» Os que apanhavam fruta aliaram-se a Musarat, bradando: «Não mereces viver! Vais pagar caro o que acabaste de dizer sobre o nosso santo profeta.»

E assim aconteceu. Em 15 de Junho de 2009, Asia Bibi, hoje com 53 anos, foi arrastada para um «julgamento popular», onde a forçaram a confessar-se culpada de insultar o «Mensageiro de Alá». Presa nesse mesmo dia, despejaram-na numa cela, imunda e solitária, onde os guardas a humilhavam diariamente e onde só a fé a impediu de se suicidar.

Em 2010, um tribunal em Sheikhupura, distrito a que pertence a sua aldeia, condenou Asia à forca, acusada de blasfémia, ao abrigo da secção 295-C do Código Penal do Paquistão, que prevê um único castigo – a morte – por «difamar o profeta Maomé». Um outro tribunal, em Lahore, rejeitou um recurso e confirmou a pena.

Em Janeiro de 2011, Salman Taseer, o governador do Punjabe que pedira o perdão presidencial para «uma vítima inocente de uma lei injusta», foi morto a tiro pelo seu próprio guarda-costas. Dois meses depois, o católico Shahbaz Bhatti, ministro dos Assuntos das Minorias – único cristão no Governo e quem sensibilizou o papa a interceder por Asia Bibi – foi igualmente assassinado.

 

Herança colonial

As ofensas à religião começaram a ser criminalizadas em 1860, dois anos depois de a Coroa Britânica ter assumido o domínio da maior parte do subcontinente indiano. Quem «perturbasse uma assembleia religiosa, conspurcasse cemitérios, ferisse sentimentos religiosos ou destruísse lugares/objectos de devoção» corria o risco de «um a dez anos de cárcer».

O Paquistão não só adoptou a legislação colonial, quando se separou da Índia em 1947, como a endureceu, a partir dos anos 1980, por ordem do general Zia-ul Haq, empenhado em islamizar o país e perseguir a comunidade Ahmadi, renegada como não-islâmica.

Inicialmente, as leis contra a blasfémia impostas pela ditadura militar previam um máximo de três anos de cadeia por «comentários depreciativos sobre personalidades muçulmanas». Em 1982, uma nova cláusula passou a prever prisão perpétua para os que profanassem o Alcorão. Em 1986, outra cláusula, distinta e vaga, foi introduzida para punir com a morte injúrias a Maomé.

As leis contra a blasfémia têm sido como uma espada de Dâmocles sobre as minorias religiosas, mas também sobre os muçulmanos – as maiores vítimas, segundo a Amnistia Internacional. «Violam os direitos humanos e encorajam ajustes de contas pessoais. Uma vez acusados, os suspeitos ficam enleados num sistema que os presume culpados até provarem a inocência.»

Entre 1987 e 2014, mais de 1300 pessoas foram acusadas. Desde 1990, pelo menos 65 foram mortas – não pelo Estado, mas por vigilantes enraivecidos. Actualmente, pelo menos 900 pessoas estarão presas.

 

Apoio da Igreja

Só em 31 de Outubro de 2018, num veredicto considerado «rigoroso, corajoso e histórico», é que o Supremo Tribunal do país ordenou a libertação de Asia Bibi, concluindo que a acusação não apresentou «provas irrefutáveis» que justificassem a pena capital.

A decisão judicial foi recebida com violentos protestos, organizados pelo partido Tehreek-e-Labbaik Pakistan (TLP), o mais irredutível dos defensores das leis contra a blasfémia, que quase paralisou o país.

No dia 8 de Novembro, Asia Bibi saiu, finalmente, da prisão de mulheres de Multan, em Rawalpindi, transportada num avião especial para Islamabad, a capital. À hora do fecho desta edição, ainda não era livre de deixar o país.

«Asia Bibi está agora em paradeiro desconhecido, nas mãos do Exército e com segurança máxima», revela à Além-Mar, do Paquistão, Josué Villalón, porta-voz da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS). «Por enquanto, não pode rever o marido e filhos, também eles num lugar sob protecção. A família está a ser cuidada pela Igreja, embora não possam sair de casa nem falar publicamente. Os filhos frequentam a escola e o marido tem trabalho.»

«Continua, porém, a temer-se que, caso Asia Bibi consiga a liberdade plena e sair do país, possa haver represálias contra a comunidade cristã e contra o Governo», refere Villalón. «Os bispos paquistaneses confiam no novo primeiro-ministro, Imran Khan. Já se encontraram com ele, e descrevem-no como um homem sincero, próximo e determinado a solucionar os grandes problemas do país, sobretudo a corrupção, a falta de emprego, especialmente entre os jovens, e o acesso à educação dos pobres e marginalizados, entre os quais se encontram os cristãos.»

 

Religiosos vs seculares

No dia 24 de Novembro, inesperadamente, Imran Khan decidiu mandar prender o líder do TLP, Khadim Hussain Rizvi, e outros 3000 membros/simpatizantes do seu partido. A 1 de Dezembro, Rizvi e outros três dirigentes extremistas foram acusados de terrorismo e traição, depois de exortarem soldados a revoltarem-se contra o chefe das Forças Armadas e funcionários do Supremo Tribunal a matarem os magistrados que absolveram Asia Bibi.

A advogada e activista dos direitos humanos paquistanesa Ayesha Ijaz Khan é crítica do novo chefe do Governo em Islamabade. «Um governo que erra mais do que acerta e que não estava preparado para lidar com o veredicto do Supremo Tribunal», lamentou, em declarações à Além-Mar. «Inexperiente, acabou por fazer um acordo com o TLP, para o apaziguar, aceitando que o caso fosse novamente revisto [pelos juízes] e que Asia Bibi fosse colocada numa lista de controlo de saídas, o que a impede de ser totalmente livre.»

Apesar de tudo, Ayesha Khan exultou com a prisão de Rizvi e seus discípulos. «Eles violaram a lei. Os seus protestos ultrapassaram as regras da decência e causaram imensos danos ao erário público. Deveriam, no entanto, ter sido acusados de incitamento à violência. Porque esta acusação pode ser avaliada de maneira muito mais tangível. Terrorismo e traição são sempre acusações dúbias. Podem abrir um precedente indesejável.»

Porque é que o TLP, movimento sufi, inicialmente moderado e inimigo dos talibãs deobanditas, ambos sunitas, se tornou um grupo temível, capaz de mobilizar multidões de fanáticos? «Esta é uma questão complicada», responde a advogada nascida em Rawalpindi, hoje a viver e a trabalhar em Londres. «Não podemos dizer que o TLP é popular, se tivermos como base o número de lugares que conquistou nas eleições [de Julho último] – apenas dois, e estes no Parlamento de Sindh. Mas podemos dizer que, apesar de não serem há vários anos os mais votados, os partidos religiosos continuam capazes de demonstrar o seu poder nas ruas.»

«É por causa desta força que os partidos políticos tradicionais tendem a tolerar os religiosos», acrescenta Ayesha Khan. «Mais relevante, porém, tem sido o papel do ‘Estado profundo’ na utilização dos religiosos para enfraquecer os seculares. O TLP, por exemplo, foi transformado em partido político antes das eleições de 2018, principalmente para que o voto dos [sufi] Barelvi pudesse enfraquecer o partido [do anterior primeiro-ministro] Nawaz Sharif, que o establishment queria naquela altura afastar do poder.»

Face à pressão do TLP e de outros radicais patologicamente obcecados com a «honra do profeta», é reduzida a margem de manobra dos partidos seculares representados no Parlamento para rever, e menos ainda revogar, as leis contra a blasfémia.

 

 

 

Paquistão: Uma Igreja «activa, visível e viável»

 

O Cristianismo no Paquistão remontará aos primórdios da Igreja, com a chegada do apóstolo Tomé à região. Ganhou raízes depois de 1570, quando missionários portugueses se fixaram em Lahore, capital do Punjabe.

 

Eusébio, bispo de Cesareia (263-339 d. C.), relata na sua História Eclesiástica que Tomé e Bartolomeu foram os primeiros discípulos enviados por Jesus a evangelizar a Índia e Parta (actual Irão). Uma tradição apoiada nos Actos de Tomé, texto apócrifo do Novo Testamento achado na Síria em 1822, adianta que o emissário de Jesus terá entrado, por volta de 52 d. C., em Taxila, a cerca de 32 quilómetros de Islamabade (hoje capital do Paquistão), onde converteu Gondofares, fundador do Reino Indo-Parta, e seus súbditos.

Nem todos crêem nesta narrativa, mas nada parece abalar a devoção ao Apóstolo (e mártir) da Índia, sobretudo desde que, em 1935, foi encontrada no campo arqueológico de Sirkap a Cruz de Taxila, que se mantém exposta na Catedral de Lahore, capital do Punjabe.

Foi a Lahore que chegaram os primeiros missionários católicos – portugueses – no século xvi, embora o Cristianismo só aqui se tenha firmemente estabelecido no final do século xix e início do século xx, com a presença de missionários protestantes.

Começaram por atrair as castas hindus mais elevadas, esperando que estas convertessem as mais baixas. Isso não sucedeu e os evangelizadores decidiram então privilegiar os esquecidos no último lugar da escala social, oferecendo-lhes a esperança de escapar a um sistema opressivo.

É do Punjabe, planície aluvial ocupada pelo Paquistão e pela Índia até à divisão do território em 1947, que é originária a quase totalidade (97 %) dos cerca de quatro milhões de cristãos paquistaneses. Quando os Britânicos deixaram o subcontinente, o Paquistão ficou com 62 % do Punjabe, hoje uma província onde vivem 60 % dos seus mais de 197 milhões de habitantes. A restante parcela foi atribuída à Índia, que a dividiu em três estados – Punjabe, Haryana e Himchal Pradesh.

Em 1947, a maior parte dos cristãos no Punjabe optou por viver no novo país muçulmano, e não na Índia, confiando que o Islão rejeitaria divisões com bases teológicas. A realidade é que continuaram a viver na pobreza e a trabalhar onde ninguém quer. As castas nunca desapareceram.

 

A fé de três gerações

«Os cristãos paquistaneses são uma comunidade marginal», descreve, em entrevista à Além-Mar, do Paquistão, Josué Villalón, porta-voz da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS). «Por lei, são cidadãos de segunda classe. Não podem aceder a determinados cargos públicos, políticos ou militares. São discriminados no mundo laboral. Apenas podem desempenhar trabalhos de servidão, no cultivo das terras, no fabrico de ladrilhos, na limpeza de sanitários e outros serviços domésticos. Além disso, sobre eles pende a cultura da impureza. Não podem tocar em bens de muçulmanos, porque os “contaminam”.»

Apesar de tudo, Josué Villalón está confiante: «Há uma tradição cristã desde há pelo menos três gerações. São fiéis muito praticantes. Uns 90 % frequentam a missa aos domingos. A sua fé é forte e simples.»

A Igreja Católica também tem feito «uma aposta grande no sentido de melhorar o nível educativo da comunidade, por meio de colégios, institutos, centros de formação profissional e universidades», adianta Villalón. «Pouco a pouco, começa a haver um número maior de cristãos mais qualificados, em particular nas zonas urbanas. Vão-se rompendo estereótipos e preconceitos a seu respeito. A diocese de Faisalabad, por exemplo, dirige 46 colégios primários, três hospitais, dez institutos e seis centros de formação profissional.»

 

O cardeal Coutts

Este dinamismo em muito se deve a Joseph Coutts, ex-bispo de Faisalabad (1998-2012) e arcebispo de Carachi que, em Junho de 2018, o Papa Francisco escolheu para ser um dos 24 novos cardeais. A sua nomeação foi por ele interpretada como um sinal de que, apesar das muitas perseguições, continua a haver no Paquistão «uma comunidade cristã activa, visível e viável».

Coutts, de 73 anos, nascido em Amritsar, na antiga Índia britânica, é o quinto cardeal com raízes em Goa e o segundo príncipe da Igreja do Paquistão. O primeiro foi Joseph Cordeiro, em 1973, também de ascendência goesa, a elite dos grupos cristãos.

Coutts, agora titular da igreja de San Bonaventura da Bagnoregio, tem sido muito elogiado, em particular por teólogos e políticos muçulmanos, pelo seu trabalho ecuménico e humanitário no Paquistão. As 56 escolas geridas pela arquidiocese de Carachi, tal como as de Faisalabad, admitem alunos de todas as classes sociais e religiões, subsidiando a educação dos mais pobres.

 

Margarida Santos Lopes

 

 

 

 

 

Um mosaico religioso

 

O Paquistão – único país criado em nome do Islão – foi incluído, em Dezembro último, pelo Departamento de Estado americano, numa lista de países «culpados de graves violações à liberdade religiosa», da qual fazem parte a Arábia Saudita, a China, a Coreia do Norte, a Eritreia, o Irão, Mianmar (Birmânia), o Tajiquistão e o Turquemenistão. Embora Washington não tenha aplicado sanções, as autoridades em Islamabade criticaram esta decisão, por desconsiderar «uma sociedade plural onde vivem juntas pessoas de diversas crenças».

 

■ O Islão é a religião oficial do Paquistão, observada por mais de 96 % dos habitantes. A ortodoxia sunita é maioritária (82 %). Os xiitas, a maior minoria religiosa, serão cerca de 11,8 %.

■ Os hindus paquistaneses (mais de 9 milhões saíram da Índia após a divisão do subcontinente em 1947 e mais de um milhão perderam a vida nesta transferência) constituem 1,85 %.

■ Os cristãos representam 1,59 %, metade dos quais são católicos.

■ Os ahmadis, seguidores de um “messias prometido” Mirza Ghulam Ahmad (1835-1908), nascido depois de Maomé, não são, por isso, considerados muçulmanos pelo Estado. Totalizarão 1,8 %, estimativa difícil de comprovar por serem muito perseguidos.

■ Outras minorias são os bahá’ís, os sikhs, os zoroastras ou os kalash.

 

Fonte: www.worldatlas.com

 

 


Comente esta informação

Imprimir   |   Enviar a um amigo



© copyright Missionários Combonianos - Revista Além-Mar | Todos os direitos reservados