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Janeiro de 2019

Desafios da missão
Por: IR. MARIA DO CARMO BOGO



 

A missão é um desafio permanente. Nunca é tarde para recomeçar e servir os mais pobres, como nos conta a Ir. Maria de Deus. O importante é estar atentos às interpelações que a vida nos oferece e dar respostas criativas e generosas.

 

 

A irmã Maria de Deus Meirinho Dias é natural do Soito, Sabugal, diocese da Guarda. Consagrou-se a Deus para a missão na congregação das Irmãs Missionárias Combonianas em 1971. No ano seguinte, partiu para a América Latina, sendo o Equador a sua primeira missão. Nos primeiros anos, esteve em Muisne, uma pequena ilha banhada pelo oceano Pacífico. Colaborava na capacitação técnico-profissional de pequenos grupos de mulheres e nas tarefas pastorais, nomeadamente na preparação dos casais para a celebração do sacramento do matrimónio. Esteve depois a trabalhar nas periferias de Quito, capital do Equador, e em São Lourenço, uma povoação na fronteira com a Colômbia. Da América do Sul a Ir. Maria de Deus foi enviada, em 1978, para o México. Depois de uns anos de trabalho missionário no país dos Astecas, regressou a Portugal. Recuperou forças e, em 2003, com 65 anos, regressou ao primeiro país de missão.

 

Promoção das mulheres

«Depois de uma pausa de quatro anos em Portugal senti-me com ânimo para voltar ao Equador na esperança de trabalhar na promoção da mulher», comenta. «Fui enviada para o Equador para iniciar uma nova etapa da minha vida. Pus mãos à obra! Acompanhada por uma irmã comboniana que tinha experiência na área da promoção da mulher, dispus-me a receber delas formação em trabalhos manuais. Bordar postais em cartolina, fazer bolsas de jeans e bordá-los com fita de seda, fazer sacos de croché... Em poucos meses, senti-me capacitada para acompanhar algumas senhoras que quisessem aprender o que eu já sabia.»

No trabalho pastoral que desempenhava, a Ir. Dias reunia-se aos domingos com os católicos na capela para a celebração da Palavra de Deus, pois «por falta de um sacerdote não podíamos celebrar a Eucaristia», refere. «Ali fiz a proposta de iniciar um minicurso em trabalhos manuais com aquelas que o desejassem. Não houve grande entusiasmo, porque tinham pouca confiança nas suas capacidades. Mas, com tempo e paciência, perante as provas de um trabalho realizado em concreto, a confiança e a auto-estima começaram a emergir.»

O objectivo desses pequenos cursos «era que as senhoras aprendessem a fazer trabalhos e assim alcançassem uma certa independência económica. Felizmente, os resultados foram muito positivos. O primeiro trabalho que saiu das mãos daquelas mulheres foi um saco bordado com fita de seda. Dava gosto ver aqueles rostos brilharem de contentamento e cheios de esperança. Outros trabalhos bonitos e úteis estariam disponíveis para venda, beneficiando-as e às suas famílias. Dá gosto ver a mudança destas mulheres ao tomarem consciência das suas capacidades de aprendizagem e de gestão das suas vidas, embora tudo ao seu redor lhes diga o contrário», comenta a missionária com alegria.

 

Sempre em caminho

Como missionária, a Ir. Dias sabe que a vida é feita de desafios. E nunca teve medo de os aceitar. Pediram-lhe para ir trabalhar mais a sul, na periferia de Lima, a capital do Peru, e aceitou com alegria. Apesar da proximidade geográfica, os desafios que a esperavam eram grandes. Tinha de aprender a conhecer um novo contexto sociocultural e político, outras pessoas. Um trabalho de inculturação e adaptação que o missionário necessita de realizar cada vez que muda de missão.

Há décadas que as irmãs missionárias combonianas estão presentes no Sul de Lima, numa zona árida, um deserto de rochas e areia. Vivem num bairro que é conhecido como Chancheria, pois é um lugar onde as pessoas se dedicam à criação de suínos. Foi na década de 1990, quando a violência do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso começou a castigar os camponeses da serra e selva peruana, que começou um grande êxodo para a capital. Fugiam do conflito e procuravam novas oportunidades. Sem possibilidades de conseguir trabalho e sem apoios oficiais, centenas de deslocados instalaram-se neste lugar inóspito. Construíram pequenas choças de tábuas e plástico. Paulatinamente, aumentaram os habitantes e muitas casitas surgiram nas ladeiras escarpadas e húmidas, mas persistia a pobreza extrema. Estes deslocados têm uma história marcada pela violência, a perda das terras e do trabalho, a perseguição, o desaparecimento e a morte de familiares e amigos. No entanto, nunca perderam os seus valores, sobretudo a solidariedade. «Apesar das carências e limitações, desde a falta de alimentação à ausência total de higiene e cuidados de saúde, impressiona-nos o sentido de solidariedade destas pessoas. Sabem estender a mão aos recém-chegados, que são sempre os mais necessitados», menciona a comboniana. «Perante casos de doentes graves, por exemplo, sem seguros de saúde e sem poder contar com a ajuda do Estado, estas pessoas são criativas na solidariedade e entreajuda. Organizam churrascos comunitários e arranjam dinheiro para levar o doente ao médico e fazer tudo o que é possível para a sua recuperação.»

Neste contexto de pobreza, conta a Ir. Maria de Deus, «os agentes pastorais da nossa zona vimos a necessidade de dar vida a um centro de apoio às famílias marcadas pela violência (mortos, feridos e desaparecidos)». Esta iniciativa, lançada no ano 2017, «é uma grande oportunidade para anunciar o Evangelho. A Palavra de Deus ilumina as situações humanas concretas, dando esperança e conforto segundo as necessidades de cada pessoa. Escuta, acolhimento, confiança e compaixão são o lugar do encontro com o Deus da Misericórdia que todos procuramos», conclui a missionária.


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