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Abril de 2017

Escalar o poder (com religião)
Por: PAOLO MOIOLA, Jornalista



 

A expansão das novas Igrejas evangélicas / 1

 

Na América Latina, a expansão das novas Igrejas evangélicas, pentecostais e neopentecostais, parece imparável. O seu proselitismo vai sobretudo contra a Igreja Católica, que vê reduzir os seus fiéis. Outrora consideradas movimentos exógenos (exportados dos Estados Unidos), desde há umas décadas estas Igrejas assumiram formas distintas e autóctones. Até a sua função social se transformou: de instituições que impeliam à demissão tornaram-se frequentemente actores políticos influentes e ambiciosos. Mas sempre numa óptica conservadora e muitas vezes fundamentalista. Os casos da Guatemala e do Brasil.

 

«Pagar as facturas é uma luta todos os meses? As dívidas parecem não ter fim? […] Sabem que a cada 27 minutos um brasileiro entra no clube dos milionários? […] Muitos já tomaram uma decisão para mudar a sua vida financeira, alcançar o sucesso e, principalmente, ser felizes.»

Estas palavras excitantes e carregadas de esperança para o futuro não são tiradas de um anúncio de uma sociedade financeira ou de apostas. Não, são as promessas de uma Igreja. Pela precisão da «Igreja Universal do Reino de Deus», uma igreja evangélica neopentecostal nascida no Brasil há poucos anos (1977). Partimos dela para tentar dar conta de um fenómeno: o nascimento e a difusão de centenas de Igrejas evangélicas num continente, o latino-americano, onde – como escreveu Pietro Canova no seu conhecido ensaio – «por finais de 1930 a Igreja Católica se apresenta como um bloco monolítico»1. Trata-se de igrejas nascidas na galáxia do movimento protestante (este ano celebram-se os 500 anos da afixação das «95 teses» de Lutero na porta da igreja do castelo de Vitemberga, na Alemanha), e todavia bem distintas dele.

 

A génese histórica

Uma das teses mais defendidas (e debatidas) para explicar o fenómeno das igrejas evangélicas na América Latina é a do interesse dos Estados Unidos: aquele país tinha necessidade de intervir (também) em âmbito religioso para defender a sua posição hegemónica sobre o continente.

São dois os elementos teóricos quase sempre recordados para sufragar esta afirmação. O primeiro é uma simples citação, datada de 1912, de Theodore Roosevelt, ex-presidente dos Estados Unidos e defensor da doutrina Monroe (a que justificava a supremacia americana sobre a América Latina): «A meu ver, enquanto estes países [latino-americanos, ndr] permanecerem católicos, a sua assimilação aos Estados Unidos será uma tarefa árdua e difícil.» O segundo elemento é o «Relatório Rockefeller», apresentado em 1969 pelo então presidente americano Richard Nixon. Nele, ao descrever a situação do continente latino-americano, Nelson Rockefeller afirmava entre outras coisas que, depois de 400 anos, a Igreja Católica estava a romper com o seu passado, alinhando-se a favor da mudança social e política. De recordar que aqueles eram os anos da teologia da libertação, nascida e difundida precisamente na América Latina e acusada (também por uma parte do próprio mundo católico) de ser portadora de uma ideologia filocomunista, contrária à propriedade privada, ao sistema capitalista e aos Estados Unidos. A Igreja Católica – lê-se ainda no relatório – tinha-se transformado «numa força de mudança, mudança até mesmo revolucionária, se necessário for». Para contrastar aquelas ideias era portanto necessário reforçar todos aqueles movimentos que se movessem numa óptica de conservadorismo social e de fundamentalismo religioso. As Igrejas evangélicas respondiam a este objectivo.

Nas últimas décadas, o fenómeno continuou (e continua) a ritmos cerrados, mas mudando e precisamente assumindo conotações menos coloniais. «Enquanto antes – escreve Pietro Canova no seu ensaio – podiam ser consideradas movimentos “exógenos”, hoje elas [as novas Igrejas evangélicas] apresentam-se profundamente inculturadas e contam milhões de seguidores. Em vários países constituem amplos sectores da população rural e suburbana e os seus dirigentes são todos autóctones e profundamente enraizados na realidade.»

 

O caso da Guatemala

Além da ligação umbilical com os Estados Unidos, também uma outra característica destas Igrejas mudou com o tempo: a aproximação à realidade e o desinteresse face ao mundo político.

«A Igreja (evangélica) – escreveu o pastor valdense Giorgio Bouchard – dialoga com a realidade histórica, prega, anuncia, testemunha a mensagem evangélica, mas não “cria” a sociedade civil, não a cristianiza. A síntese da posição comum a todos os evangélicos é a autonomia do político face ao religioso2.» Uma afirmação, esta, que talvez seja válida (ou fosse válida) para as Igrejas evangélicas históricas, mas não para as novas denominações.

Fortalecidas pelo crescente número de seguidores, as novas Igrejas não só não são neutrais face à realidade política, mas intervêm activamente para induzi-la ou – explicá-lo-emos – se tornam elas mesmas instrumentos de pressão política.

Um dos primeiros a usar para fins eleitorais e de poder os novos movimentos religiosos foi o general guatemalteco Ríos Montt, que em 1978 deixou a Igreja Católica para entrar na Iglesia Cristiana del Verbo, uma igreja pentecostal ligada à californiana Christian Church of the Word e à direita religiosa americana. Em 1982, ele assume a presidência do país com um golpe militar. Seguidamente desempenhou diversos cargos antes de acabar sob processo por genocídio. Em 1991, tornou-se presidente um seu colaborador, Jorge Serrano Elías, também ele evangélico. De novo, em Outubro de 2015, foi eleito presidente o evangélico Jimmy Morales. A conclamada pertença religiosa destes líderes não trouxe benefícios (menos corrupção, mais moralidade, etc.) à Guatemala. Pelo contrário, o país centro-americano continua a ser um dos mais pobres e injustos do continente.

 

O caso do Brasil

O Brasil é o maior país católico do mundo (cerca de 123,2 milhões de pessoas, equivalente a 64,2 % da população em 2010)3 e, ao mesmo tempo, um dos países onde o avanço evangélico é mais evidente e cheio de consequências.

Atendo-nos aos dados do Recenseamento de 2010 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil existem vinte Igrejas evangélicas oficiais, contando as novas (pentecostais e neopentecostais) e as históricas (luterana, baptista, presbiteriana, metodista). Atendendo a estas estatísticas, no total elas reúnem 42 275 438 pessoas. Todavia, de 2010 a 2016 o crescimento das igrejas evangélicas prosseguiu: segundo uma sondagem do instituto Datafolha4, os evangélicos são hoje 29 % dos fiéis brasileiros, sete pontos percentuais a mais relativamente ao recenseamento de 2010, quase totalmente acrescentados às novas Igrejas. A mesma sondagem assinala que 44 % dos evangélicos se declaram ex-católicos.

Esta rapidíssima progressão das novas Igrejas teve e tem consequências significativas sobre a política do país. Em Brasília os parlamentares evangélicos são 90 (sobre 594), dos quais 87 deputados e três senadores (dados de Setembro de 2016). Entre as novas Igrejas evangélicas emergem a Assembleia de Deus com 19 deputados, a Universal com sete e a Evangelho Quadrangular com quatro.

Em confirmação da visão conservadora que as caracteriza, há que dizer que no Congresso os políticos evangélicos estão aliados com os latifundiários e com os partidários da ordem («bandido bom é bandido morto»), formando o chamado alinhamento BBB («bancada Bíblia, boi, bala»). Um alinhamento que, entre Maio e Agosto de 2016, votou compacto para destituir a presidente Dilma Rousseff e eleger no seu lugar Michel Temer. Este encontrou depois em Marcos Pereira, bispo da Igreja Universal, o seu ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Um outro bispo da Universal, Marcelo Crivella, antigo senador, é o novo prefeito do Rio de Janeiro desde 1 de Janeiro de 2017.

Edir Macedo, fundador e chefe indiscutível da Igreja Universal, sabe como mover-se no mundo dos meios de comunicação. Não apenas controla o colosso Rede Record, a segunda rede televisiva do Brasil, mas também produz livros de sucesso. A sua autobiografia em três volumes, Nada a perder, tem vendido milhões de exemplares. Nela, entre outras coisas, o bispo Macedo não esconde a sua hostilidade à Igreja Católica: «O destino da Igreja Universal é travar a Católica.» Ainda mais interessante é Plano de poder, o seu livro de 2008, em que explica que a conquista do poder e a instauração de uma república evangélica no Brasil são um passo inevitável. Melhor, a ascensão dos evangélicos é – segundo Macedo – algo de determinado pela Bíblia e uma nação evangélica responde a um plano divino.

 

Sucesso, saúde, felicidade

Feita esta breve excursão sobre o fenómeno, enfrentamos agora uma questão-chave: a que se deve o êxito das novas Igrejas evangélicas e a simultânea perda de consensos da Igreja Católica?

Os motivos são múltiplos. Pode-se começar por recordar um proselitismo fundado sobre um uso muito eficaz dos meios de comunicação (pense-se no «televangelismo» de importação americana). Há também uma disponibilidade económica que muitas vezes é considerável. Ela deriva das receitas para os eventos especiais, da venda de produtos (música, livros) e sobretudo da recolha do dízimo (a décima ou a oferta que deveria corresponder a um décimo das entradas dos fiéis), considerado indispensável para obter a benevolência divina. Nem devem ser ignorados os escândalos de ordem sexual que, em vários países, envolveram padres católicos, afastando os fiéis.

Há depois a chamada «teologia da prosperidade» que atrai. E compreende-se facilmente o motivo: ela promete – como referimos – êxito, saúde, felicidade.

Em São Paulo (Brasil), na Avenida Celso Garcia, 605, surge o Templo de Salomão da Igreja Universal. Construído à semelhança do antigo Templo de Salomão em Jerusalém, pode acomodar 10 mil pessoas. No dia da inauguração, a 31 de Julho de 2014, entre as dezenas de autoridades, na primeira fila ao lado de Edir Macedo, encontrava-se a então presidente Dilma Rousseff e o seu vice Michel Temer, actual presidente.

Impossível saber quantos dos dois milhões de fiéis da Igreja Universal (que seriam nove segundo fontes da organização) tenham sido bafejados pelo êxito. De certo foi-o o seu fundador e proprietário. Edir Macedo é de facto um dos homens mais ricos do Brasil. Segundo a revista americana Forbes, especializada em temas financeiros, Macedo situava-se no 1638.º lugar na lista mundial dos milionários de 2015.

Em abono da verdade, ele não é o único pastor brasileiro a ter enriquecido com uma Igreja. Outros quatro exibem patrimónios multimilionários: Valdemiro Santiago da Igreja Mundial do Poder de Deus, Silas Malafaia da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Romildo Ribeiro Soares da Igreja Internacional da Graça de Deus, Estevam Hernandes Filho da Igreja Apostólica Renascer em Cristo. A sondagem da Forbes5 conclui assim: «Como diz a Bíblia, a fé move as montanhas. E também o dinheiro.» Expressando-nos de maneira um pouco menos irreverente que a revista norte-americana, podemos dizer que a teologia da prosperidade funciona. Sobretudo para quem a prega.

 

Notas

1.      Pietro Canova, «Un Vulcano in eruzione. Le sètte in America Latina», Emi, Bolonha, 1987, p. 23.

2.      Giorgio Bouchard, «Chiese e movimenti evangelici del nostro tempo», Claudiana, Turim 2003, p. 10.

3.      Este dado é do recenseamento IBGE de 2010. Agora os números são mais baixos, embora não haja acordo sobre as cifras.

4.      Instituto Datafolha, «Perfil e opinião dos evangélicos no Brasil», Dezembro, 2016.

5.      Anderson Antunes, «The Richest Pastors in Brazil», Forbes, 17 de Janeiro, 2013.

 

 

Igrejas evangélicas: das históricas às neopentecostais

 

De Martinho Lutero a Edir Macedo

 

Passaram quinhentos anos (1517-2017) desde o cisma produzido pelo frade agostinho Martinho Lutero. Neste lapso de tempo as Igrejas evangélicas multiplicaram-se e diferenciaram-se. Com elas difundiram-se também fenómenos particulares como o televangelismo e a teologia da prosperidade.

 

Séc. XVI – Com o frade agostinho Martinho Lutero difunde-se na Europa o movimento protestante que levará ao nascimento das igrejas cristãs evangélicas: luterana (1517), anglicana (1534) e calvinista (1535).

1607 – Na Grã-Bretanha e Países Baixos, o pastor anglicano dissidente John Smith funda, com o jurista Thomas Helwys, uma das primeiras Igrejas baptistas, que encontrarão fiéis sobretudo nos Estados Unidos, colónia inglesa até 1776.

Século XIX – Partido da Grã-Bretanha, na segunda metade do século desenvolve-se nos Estados Unidos o movimento pentecostal.

1882 – O pastor baptista americano Russel Hernan Conwell, durante um sermão (Acre of Diamonds), teoriza a chamada «teologia da prosperidade»: cada um pode tornar-se rico se verdadeiramente o quiser. A teologia terá a sua maior difusão com o pastor carismático americano Kenneth Hagin a partir de 1974.

1911 – Dos Estados Unidos chegam ao Brasil, a Belém, capital do Pará, os missionários cristãos de origem sueca Gunnar Vingren e Daniel Berg. Fundam a primeira Assembleia de Deus (denominação assumida somente em 1918) do país, que se tornará a primeira Igreja evangélica do Brasil por número de fiéis.

1914 – Luigi Francescon, um italiano emigrado nos Estados Unidos, funda em Santo António da Platina (Paraná) a Igreja pentecostal Congregação Cristã no Brasil.

1914 – Nos Estrados Unidos, em Hot Springs, Arkansas, é fundada a Igreja pentecostal The Assemblies of God, mãe das Assembleias de Deus nos outros países, mas geridas de maneira autónoma.

1934 – Nos Estados Unidos, William Cameron Townsend funda o Summer Institute of Linguistics (SIL, mais conhecido como Instituto Linguístico de Verão), organização evangélica com o objectivo de traduzir a Bíblia noutras línguas, em particular as línguas indígenas. Difundir-se-á rapidamente em muitos países latino-americanos (com não poucas polémicas e problemas).

1942 – Nos Estados Unidos, em Sanforf, Florida, Paul Fleming funda a New Tribes Mission (Novas Tribos), orientada para a evangelização dos povos indígenas.

1961, 1 de Outubro – Nascimento do televangelismo. Nos Estados Unidos vai para o ar a primeira transmissão da The Christian Broadcasting Network (CBN), a rede televisiva fundada pelo pastor Pat Robertson, que se tornará rapidamente um dos mais conhecidos e poderosos televangelistas.

1965-1971 – Em âmbito católico, nasce e teoriza-se a teologia da libertação.

1969 – Nos Estados Unidos, durante a presidência de Richard Nixon, é apresentado o «The Rockefeller Report on the Americas», um documento essencial para a futura política americana na América Latina. Nele, entre outras coisas, recomenda-se a tomar cuidado com a Igreja Católica, considerada demasiado próxima de ideias revolucionárias.

Anos 70 – No Brasil nascem as Igrejas evangélicas neopentecostais caracterizadas pela teologia da prosperidade e por uma ênfase contra o Diabo.

1977, Julho – No Rio de Janeiro, Edir Macedo funda a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), que em poucos anos se tornará a primeira igreja neopentecostal do país bem como uma potência mediática e económica.

1979 – Nos Estados Unidos, o pastor baptista Jerry Falwell funda a Moral Majority, poderosa organização evangélica ligada ao Partido Republicano.

1981 – Nos Estados Unidos, durante a presidência de Ronald Reagan, é fundado The Institute on Religion and Democracy, uma organização da direita americana que se ocupará de assuntos religiosos.

2015, Setembro – Na Guatemala, é eleito presidente Jimmy Morales, evangélico da Igreja baptista.

2016, Março – No Uruguai, desde sempre o mais laico entre os países latino-americanos, é eleito presidente da Câmara dos deputados Gerardo Amarilla, evangélico da Igreja baptista.

2016, Maio – No Brasil, o novo presidente Michel Temer nomeia ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Marcos Pereira, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd).

2016, Outubro – No Brasil, é eleito presidente da Câmara do Rio de Janeiro o senador Marcello Crivella, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd).

 

 

 

 

Glossário essencial

 

Protestantismo – A palavra «protestante» aparece pela primeira vez no texto da dieta de Spira (Alemanha) em 1529: «Nós protestamos, diante de Deus, […]». No curso dos séculos, o movimento protestante alargou-se formando uma galáxia de igrejas cristãs entre si independentes.

Igrejas protestantes – O Cesnur divide o protestantismo em três momentos: o primeiro, o segundo e o terceiro. Ao primeiro pertencem as Igrejas luteranas, as reformadas, a Igreja valdense, e, embora com maiores distinções, a Igreja anglicana. Ao segundo, as Igrejas baptistas e as metodistas. Ao terceiro, as Igrejas pentecostais.

Igrejas evangélicas – Na América Latina os termos Igrejas protestantes e Igrejas evangélicas são usados de maneira indistinta (com predomínio do segundo).

Seita – No sentido originário é um grupo que contesta a doutrina e as estruturas da Igreja e que na maior parte dos casos comporta dissidência, rejeição, ruptura. Dado o juízo de valor negativo ou muito negativo que a palavra inclui, com o tempo passou-se a uma terminologia mais neutra: «novos movimentos religiosos», «novas igrejas».

 

Fontes: AA. VV., «Grande dizionario delle religioni», Cittadella Editrice - Edizioni Piemme, 1988; Massimo Introvigne - Pierluigi Zoccatelli (Cesnur), «Le religioni in Italia», Editrice Elledici, Torino 2006.

 

 


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