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Março de 2017

Cultivar a esperança
Por: CLAUDIA CARAMANTI



Pagodes antigos e magníficos, paisagens fascinantes, mas também arquitecturas em degradação, estradas cheias de miséria, crianças trabalhadoras e relatos de campos de refugiados. Uma visita fascinante por Myanmar, a antiga Birmânia, país que está a viver profundas mudanças sociopolíticas depois de mais de 50 anos de domínio militar e 60 anos de guerra civil.

 

Yangon está a mudar rapidamente, embora não sendo a capital oficial, permanece, todavia, o centro mais importante de Myanmar. Há vinte anos era uma cidade silenciosa, parada no tempo, mergulhada no verde dos seus parques e das suas alamedas. Agora, isso não chega para conter um trânsito exagerado que levou os motoristas dos autocarros a abandonar o trabalho, protestando contra os engarrafamentos que bloqueiam as estradas durante horas. Estaleiros de novos edifícios, hotéis e centros comerciais surgem por todo o lado e ocupam os espaços verdes que ainda restam.

Procuro alojamento perto do centro e da catedral católica, onde grandiosos edifícios públicos em estilo clássico, com arcadas e colunas em ladrilho, recordam o papel de capital no período colonial britânico. Nas avenidas que levam ao pagode Sule, encontro cozinhas de rua. Sento-me em bancos minúsculos entre os veículos estacionados. São-me servidos saborosos pratos típicos: sopas de esparguete, ravióis fritos, saladas picantes de papaia. Os Birmaneses fritam quase tudo, alface, ovos, maçãs e pequenas tartes de farinha de grão-de-bico e arroz. As vísceras de animais são enfiadas em espetos e são depois cozidas em potes de caldo a ferver.

Yangon tem ainda muito fascínio, embora a sua degradação continue implacável. Ao longo dos passeios, as lajes de pedra desconjuntadas deixam entrever o escoamento das águas sujas. Sobre as fachadas elaboradas de edifícios decrépitos e cobertos de mofo permanecem vestígios de delicadas cores pastel. Ao longo das paredes e nos tectos crescem silvas e, até, arbustos, que lentamente abrirão brechas.

Falei com Kaythi, uma senhora birmanesa de Sydney conhecida no hotel. Quer dar-me a conhecer o seu pai, que tem 86 anos e está a escrever as memórias dos últimos 70 anos da história birmanesa. Esteve na Marinha durante a guerra, depois combateu contra os Karens1. Durante muitos anos trabalhou no comércio marítimo, conseguindo fazer emigrar a família para a Austrália. Hoje admite que se tivessem vencido os Karens a história de Myanmar teria sido certamente melhor.

Conheci a população Karen em 1994, em Tathein, capital da região de Ayeyarwady, no delta do rio Irrawaddy, apreciando a sua altivez, a honestidade e a hospitalidade. Tive uma experiência muito interessante no complexo católico de S. Peter. Era zona insegura para nós estrangeiros, e por isso permaneci aí durante dez dias vigiada pelo Exército, com a proibição de sair do convento sem a companhia de pelo menos duas religiosas.

Agora que é possível viajar nas regiões outrora proibidas, onde as minorias sempre foram hostis à ditadura, procurarei descobrir outras realidades.

 

Bagan, região Mandalay

Encontro-me diante do pagode mais famoso de Bagan, Ananda. Detenho-me a conversar com o miúdo que está a vender garrafas de gasolina para motoretas. Chama-se So. A nossa conversa é feita de gestos. Não sei birmanês, e ele sabe só algumas palavras em inglês. Pergunto se me pode escrever o seu nome. Não sabe. Nunca foi à escola. Encontrarei mais crianças trabalhadoras como ele, eficientes profissionais nas suas tarefas. Só tem 10 anos, cinco irmãos, uma mãe semicega, o pai nunca o conheceu.

Uma senhora de mota pára para comprar gasolina. Apresenta-se, e explica-me: a escola é a pagar e muitas famílias não se podem permitir essa despesa, e ainda menos renunciar ao trabalho das crianças. So Mi U parece-me pequeno para os seus 10 anos. Fixo-o: tem uma mancha escura na cara, os cabelos pretos são espetados e curtos.

Bagan é zona de interesse histórico e arqueológico, mas a Unesco não aprovou os pesados trabalhos de restauração feitos pela junta militar. Os locais protegidos de Myanmar são outros, pouco conhecidos e de difícil fruição. Contudo, aqui, escondidos no matagal, surgem hotéis com piscina e campos de golfe. Em tempos existiam as casas de bambu, espalhadas entre as ruínas. Há vinte anos os habitantes foram deslocados para a New Bagan. A cada família foi destinado um lote de terreno no qual construir uma casa, nada mais.

 

Ngapali, Estado de Rakhine

O Estado de Rakhine encontra-se no extremo oeste de Myanmar, na fronteira com o Bangladesh. O voo faz escala em Ngapali, localidade turística junto ao mar das Andamane.

Su Su e Simon são meus vizinhos de choupana e convidam-me para um jantar típico birmanês: sopa de budi, uma espécie de curgete, em caldo de cebola e gengibre, e frango frito com açafrão-da-índia. Su Su nasceu em Pathein e trabalha como enfermeira em Londres. Simon nasceu em 1946 do casamento de um oficial da Marinha inglesa, a residir em Moulmein, capital do Estado de Mon, com uma mulher birmanesa. «Tinha seis anos quando nos mudámos para Londres. A minha mãe achou difícil adaptar-se à nova vida, com quatro filhos para criar sem as ajudas que tinha no país.» Agora Simon gostaria de voltar a viver em Yangon, mas o trabalho que sabe fazer, urbanista, é mal pago. Em Ngapali os terrenos próximos do mar foram comprados por chineses e por grandes grupos que construíram hotéis de luxo.

Pego na bicicleta e paro numa povoação de pescadores. A tradição de secar o peixe pequeno ao sol ficou circunscrita a uma zona da praia. Vejo descarregar dezenas de raias enormes e junto-me ao grupo dos curiosos. Depois prossigo pela extremidade que fecha a baía a sul. Aqui atracam barcos que levam passageiros e caixas de peixe muito pesadas. Noto o esforço que fazem os quatro homens que carregam as caixas. Esforço e pobreza não mudaram, apesar de haver hotéis e restaurantes luxuosos.

Vejo que se trabalha para arranjar as estradas e construir pontes de cimento. São muitas as miúdas ocupadas nos estaleiros, a carregar brita e a transportar tijolo por 4-5 dólares por dia.

Conheço Benno, um altoatesino que vive em Banguecoque com a mulher, artista chinesa. Ali fundou uma organização sem fins lucrativos, chamada Ajudar sem Fronteiras. Conhece Myanmar há 15 anos e actualiza-me. Parece que em Myanmar há funcionários públicos corruptos que facultam aos chineses documentos falsos para poderem comprar propriedades.

 

Thandwe

A carrinha de caixa aberta carregada de passageiros sobe ao vale onde outrora se cultivava arroz. Vejo que construíram uma casa de repouso, um campo desportivo e dois mosteiros budistas. As monjas jovens e as idosas com o seu hábito rosa e a cabeça rapada noutros tempos eram raras. Creio que os mosteiros femininos sejam úteis como abrigos para mulheres idosas e sós, e para jovens órfãs. Alguns edifícios históricos, de estilo exótico, permaneceram. O que outrora fora o bonito mercado de madeira preta, onde simpáticas costureiras com cachos de orquídeas nos cabelos estavam ao trabalho no sector têxtil, tinha desaparecido num incêndio. Agora, numa nova e anónima estrutura de cimento, vende-se roupa chinesa, de cores vistosas e fibras sintéticas. Apanho uma moto-táxi e peço para me levar à missão católica, a poucos quilómetros do centro. Encontro o pároco, P.e Miguel, que acaba de chegar de uma visita às suas aldeias.

Quando chegaram os primeiros missionários franceses, dedicaram a igreja a Nossa Senhora de la Salete, e ergueram um bonito crucifixo sobre o morro. Estamos no cimo de uma série de colinas que se perdem no horizonte. Cúpulas douradas de pequenos pagodes brilham ao longe. A maioria dos birmaneses é budista, e os missionários levam o Evangelho às minorias, desde sempre hostis ao poder central.

 

Pagodes em Mrauk U

Para chegar a Mrauk U, capital no século xvi, lugar remoto onde surgem monumentos extraordinários ainda pouco visitados, são precisas quatro horas de navegação. Chego ao cais ainda de noite. Subo ao convés do barco e observo o espectáculo do embarque. O passadiço são duas pranchas sobre as quais as pessoas passam com cargas incríveis, sem perder o equilíbrio.

Faz frio, mas aninho-me no soalho do convés na companhia de mulheres e crianças, enroladas em mantas. Ao longe, vejo montanhas azuis e voos de gaviões sobre um rio amplo que se perde no mar. Mais à frente o rio estreita e aparecem redes triangulares. Os pescadores estão no trabalho, as suas choupanas sobre estacas e os barcos formam uma paisagem tranquila.

Vejo as miúdas a irem ao poço, carregar às costas grandes bilhas de alumínio. Uma delas tem um rosto absorto, bonito, com mescla de tanakha, um cosmético erval tradicional de cor branca, sobre as bochechas. Veste à marinheira, com uma casaca branca e azul que contrasta com a pobreza do ambiente. Indica-me uma colina com o pagode mais bonito, Mahabodi swegu. Dirijo-me para lá por um caminho intransitável e chego ao pagode escondido pelo matagal. Entro e noto as paredes esculpidas em faixas, com as histórias de Buda e a vida da aldeia de há 400 anos. Lutas, animais, também um homem com a cabeça baixa. Prossigo para ver outros pagodes e vejo uma miúda, sentada na beira da estrada de terra batida, com um recém-nascido no colo. Tem uma ferida no rosto triste, o seu olhar amedrontado diz-me que não está consciente do facto de ser mãe, não me parece que tenha mais que 15 anos. As choupanas são pobres, cozinha-se no chão, dorme-se sobre pavimentos de bambu elevados sobre estacas, todos juntos.

Mrauk U é um estaleiro aberto, estão a abrir hotéis e a asfaltar estradas, apostando no turismo. Às 7 da manhã passam as carrinhas de caixa aberta para recolher os jovens que trabalham nos estaleiros. Os mais velhos trabalham nas estradas em construção, alisando o grés preto com as mãos. Com um chapéu cónico e um resguardo no rosto, lançam à pazada a areia e o cascalho. Os homens guiam veículos barulhentos.

Os templos são de pedra escura, parecem fortalezas com muitos pagodes em forma de sino. Quem chega aqui fica fascinado com o pôr-do-sol e com o amanhecer que se podem admirar do alto das colinas, numa atmosfera mágica.

 

Notas

1 O conflito, que os especialistas definem como de «baixa intensidade», continua a ceifar vítimas e a causar sofrimento. Tudo começou em 1949. Depois de ter obtido a independência da Grã-Bretanha, no final da II Guerra Mundial, o novo presidente do país, Aung San – pai de Aung San Suu Kyi, futuro chefe da Liga Nacional para a Democracia (LND) e Nobel da Paz – assinou, em acordo com os chefes das diversas comunidades étnicas que compõem o complexo mosaico birmanês, o Tratado de Panglong. O acordo oferecia a cada povo a possibilidade de escolher – dentro do prazo de dez anos – o seu destino político e social. Este tratado nunca foi respeitado por Rangoon (Yangon) porque, depois de um golpe de Estado e o assassínio de Aung San, o poder passou à ditadura militar do general Ne Win. Assim, desde há sessenta anos, os Karens – um povo que conta uns sete milhões de pessoas – empunham as armas.

 

 

 

 

Suu Kyi: a luta pelos direitos humanos

 

Daw Aung San Suu Kyi foi a voz principal a favor dos direitos humanos e da liberdade na Birmânia (Myanmar), país dominado por um governo militar por mais de 50 anos (1962-2016).

Nascida em Rangoon e educada na Universidade de Oxford, tornou-se politicamente activa em 1988 quando o conselho birmanês suprimiu violentamente um levantamento em massa, matando milhares de civis. Suu Kyi escreve uma carta aberta pedindo a formação de um comité independente para apoiar eleições democráticas.

Em 1989, foi posta em prisão domiciliária. Apesar da sua prisão, a LND ganhou as eleições com 82 % dos assentos parlamentares, mas a ditadura militar negou-se a reconhecer os resultados. Suu Kyi permaneceu na prisão quase de forma contínua desde então, rejeitando a oferta de liberdade do Governo, já que lhe exigia abandonar a Birmânia.

Suu Kyi recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1991.

Em Fevereiro de 2016, depois das primeiras eleições livres em mais de 25 anos, a LND obteve 80 % dos votos e Suu Kyi conquista a maioria no Parlamento nacional. A Constituição elaborada pelos militares veda-lhe a presidência – a mais alta figura do Estado não pode ter filhos de nacionalidade estrangeira e Suu Kyi é viúva de um britânico com quem teve dois filhos. Nomeia para o cargo de presidente um homem de confiança, Htlin Kyaw, que assume um papel mais cerimonial, e cria o lugar de ministra do gabinete presidencial, que lhe permite ser uma espécie de primeira-ministra.

Suu Kyi, obrigada a entender-se com os militares, que têm 25 % dos lugares do Parlamento, tem como desafios prioritários para o país a luta contra a pobreza e a corrupção e superar o défice de escolaridade, formação profissional, quadros superiores e infra-estruturas.

 

 

 

 

 

Myanmar

 

Nome oficial: República da União de Myanmar (antiga Birmânia)

Superfície: 676 563 Km2

Governo: República presidencialista

Capital: Nay Pyi Taw (1,1 milhões de habitantes)

População: 53 897 154 (BM, 2015)

Esperança de vida: 65 anos (BM, 2014)

Idiomas: Birmano (oficial), no país existem umas 117 línguas diferentes

Grupos étnicos: Birmanos (68 %), shan (9 %), karen (7 %), rakhine (4 %), chineses (3 %), indianos (2 %), mon (2 %), outros (5 %)

Moeda: Kyat

PIB per capita: 1160 dólares EUA (BM, 2015)

Religião: Budismo Theravada (89 %), cristãos (4 %, dos quais 3 % são protestantes e 1 % católicos), muçulmanos (4 %), outras (3 %)

 

 


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