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África: O empoderamento das mulheres
4 de Março de 2014

Uma nova geração de jovens e ambiciosas mulheres africanas está a surgir ansiosa por fazer reformas nos seus países e transformar o continente. Na Década da Mulher Africana, um grupo de profissionais inovadoras, ousadas e corajosas demonstra a energia necessária para fazer emergir a África do futuro.

 

A União Africana declarou 2010-2020 Década da Mulher Africana e há muito a celebrar porque as mulheres africanas já percorreram um longo caminho na luta pelos seus direitos e igualdade de género e contra a discriminação.

 

A Década da Mulher Africana abrange 10 áreas prioritárias, entre as quais a luta contra a pobreza, o empresariado feminino, a contribuição das mulheres para a paz, a segurança e a luta contra a violência, assim como os problemas de governo e de protecção jurídica da mulher. A iniciativa surge num momento em que as mulheres africanas continuam a sofrer da falta de protecção e do uso sistemático da violação como arma de guerra.

 

«As mulheres desempenham um papel indispensável, central e, muitas vezes, desconhecido, no continente africano. Estamos conscientes de que África não pode prescindir da mulher, que qualquer acção que queira ter êxito tem de ter em conta a mulher», avalia a queniana Litha Musyimi-Ogana, directora do Departamento Mulher, Género e Desenvolvimento da União Africana.

 

África tem tido grandes figuras femininas na sua história e actualmente a mulher desempenha um papel relevante, do nível mais baixo de subsistência até à capacidade de entrever as mudanças e de se associar em favor da paz. «As mulheres já trabalham pelo seu desenvolvimento, todas essas mulheres que vemos nas associações femininas, no microcrédito e na educação. São elas que levam a África para a frente», comprova Litha Musyimi-Ogana. A causa do bem-estar da mulher africana leva, através dela, ao bem-estar do continente.

 

Empoderamento e desenvolvimento

A maioria das mulheres africanas, em comum com as mulheres de todo o mundo, enfrenta uma série de restrições legais, económicas e sociais. Com efeito, algumas leis ainda as tratam como menores. Na RD Congo, por exemplo, uma mulher deve ter o consentimento do marido para abrir conta bancária. São elas que produzem 80 por cento dos alimentos em África, e ainda assim poucas são autorizadas a possuir a terra que trabalham. Muitas vezes, é mais difícil para as mulheres ter acesso à informação e tecnologia, a recursos e crédito. Os apoios financeiros formais são desviados para apoiar projectos propostos por homens, apesar da importância das mulheres como produtoras e promotoras, o que tem estimulado o crescimento de grupos e cooperativas de mulheres.

 

As mulheres africanas acabam por trabalhar o dobro do tempo dos homens, de 15 a 18 horas por dia, mas recebem remunerações inferiores. Com estas cargas de trabalho, muitas vezes as mulheres envelhecem prematuramente. «Os pesados encargos das mulheres em grande parte de África são o suficiente para quebrar as costas de um camelo», reconhece o investigador inglês Paul Harrison, autor de relatórios para as Nações Unidas. Como resultado, as mulheres estão menos bem preparadas para tirar proveito das oportunidades de empreendimento que estão a surgir em grande parte do continente.

 

Confinadas a trabalhos de pequena escala no sector informal e em desvantagem no acesso a postos de trabalho no sector formal, as mulheres africanas continuam com rendimentos médios do trabalho relativamente baixos.

 

Apesar de todos os obstáculos, as mulheres de carreira (com formação) continuam a mover-se em diferentes profissões, incluindo as tradicionalmente vistas como masculinas. As mulheres africanas já se encontram em níveis altos em muitas organizações de países do continente. «Estas mulheres podem estar em minoria agora, mas as coisas estão a mudar em toda a África», verifica a United Nations University. «A África está a tomar a liderança no empoderamento das mulheres, abrindo portas para elas entrarem na vida pública», afirma a directora do Departamento Mulher, Género e Desenvolvimento da União Africana. A marcha feminina está a conquistar novos patamares de autonomia e paridade. De acordo com estimativas da União Interparlamentar (IPU), uma média de 16,8 por cento dos assentos parlamentares são ocupados por mulheres na África Subsariana. «Realizar o potencial das mulheres liberta o potencial de uma nação», assegura Litha Musyimi-Ogana. As mulheres no poder e órgãos de decisão ajudam a impulsionar o desenvolvimento humano em África.

 

 

As mulheres mais reconhecidas de África pela sua capacidade empreendedora, activismo, posições na política, justiça e economia.

 

Ellen Johnson Sirleaf

75 anos. Economista. Presidente da Libéria. Dirigente do partido UP. Nobel da Paz 2011.

 

Ngozi Okonjo-Iweala

59 anos. Economista. Ministra das Finanças da Nigéria.

 

Joyce Banda

63 anos. Política. Presidente do Malauí. Fundadora e chefe do partido PP.

 

Gill Marcus

64 anos. Economista. Governadora do SARB, banco central da África do Sul.

 

Joice Mujuru

58 anos. Política. Vice-presidente do Zimbabué. Vice-presidente do partido ZANU-PF.

 

Graça Machel

68 anos. Professora e activista humanitária moçambicana. Fundadora da organização social FDC.

 

Fatou Bensouda

53 anos. Advogada e governadora civil da Gâmbia. Procuradora do Tribunal Penal Internacional (ICC).

 

Nana Oye Lithur

43 anos. Advogada e activista. Ministra do Género, Criança e Protecção Social do Gana.

 

Nkosazana Dlamini-Zuma

65 anos. Cientista e activista sul-africana. Presidente da Comissão da União Africana (AU).

 

Diezani Allison-Madueke

54 anos. Arquitecta e gestora. Ministra dos Recursos Petrolíferos da Nigéria.

 

Isabel dos Santos

41 anos. Engenheira e empresária angolana. Filha do presidente Eduardo dos Santos. Mulher mais rica de África.

 

Maria Ramos

55 anos. Economista e gestora sul-africana nascida em Portugal. Presidente do banco ABSA Barclays Africa.

 

Mamphela Ramphele

66 anos. Médica, académica, gestora e política sul-africana. Vice-chanceler da universidade UCT. Directora de gestão do Banco Mundial. Fundadora do partido Agang SA.

 

Linah Mohohlo

57 anos. Economista. Governadora do BoB, banco central do Botsuana. Membro do Fundo Monetário Internacional (FMI).

 

 

A religiosa católica Angélique Namaika, da RD Congo, foi distinguida com o prémio UNHCR Nansen Refugee Award 2013 pela fundação do centro de reintegração de refugiadas CRD Dungu.

 

A bióloga Rose Mukankomeje, directora da REMA, autoridade ambiental do Ruanda, foi distinguida com o prémio UNFF Forest Heroes Award 2013.

 

Carlos Reis – Jornalista

Revista Além-Mar – Março 2014



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