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Quaresma 2014: Tempo de mudança
4 de Março de 2014

A sugestão do despojamento vai contra a corrente do tempo de crise que vivemos, onde cada grupo social defende os privilégios que tem.

 

A Quaresma deve ser para os cristãos um tempo forte de preparação para a Páscoa: um tempo, como diz o Papa Francisco na sua mensagem «de conversão e de mudança».

 

A mudança a que acena o papa ganha desejo no mais íntimo do coração humano mas inspira-se e torna-se possível no registo de Deus que, em Cristo, abraçou a nossa pobreza para nos enriquecer com a sua riqueza; operou, isto é, a mudança mais radical, a transfiguração da condição humana no seu sonho mais genuíno, o divino.

Por estranho, por mais radical que pareça, o caminho dessa mudança é de abaixamento e pobreza, no seguimento de Cristo que se esvaziou da sua condição divina para dela nos fazer dom e com ela nos enriquecer. Por isso, lembra-nos Francisco, «a Quaresma é tempo propício para o despojamento. Far-nos-á bem questionar-nos acerca do que nos podemos privar a fim de ajudar e enriquecer a outros com a nossa pobreza».

 

A sugestão deste exercício de despojamento é contra a natureza e vai contra a corrente do tempo de crise que vivemos, onde cada grupo, corporação e classe defende, com unhas e dentes, os privilégios que tem. Por isso, Francisco lembra que esta mudança, por que genuinamente anela o coração humano com sonhos divinos, tem uma dimensão custosa: «Não esqueçamos que a verdadeira pobreza dói: não seria válido um despojamento sem esta dimensão penitencial. Desconfiemos da esmola que não custa nem dói.» Por isso, conclui o papa, a mudança é possível se nos sintonizarmos com o registo de Deus, se nos configurarmos com Cristo e nos fizermos pobres para irmos ao encontro dos nossos irmãos, testemunhando a quantos vivem na miséria material, moral e espiritual, o amor divino que a todos quer resgatar, como a nós resgatou da pobreza, da desorientação e da falta de sentido da vida.

 

Entretanto, o tempo, da Quaresma e da crise que nos acompanhará para lá dela, é de expectativa; de uma esperança fundada não sobre as promessas feitas de palavras que o vento leva, mas sobre o anúncio de uma Páscoa, a de Cristo e nossa, que promete mudança e inaugura tempos e registos novos, onde, como augura o Papa Francisco, «as consciências se convertam à justiça, à igualdade, à sobriedade e à partilha».

 

Manuel Augusto Ferreira – Director da revista Além-Mar



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