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Sudão do Sul: Briga pelo poder continua
3 de Março de 2014

O Padre Raimundo Rocha, missionário comboniano a viver no Sudão do Sul, envia mais notícias sobre a situação da guerra civil que atinge o país.

 

Já são dois meses e meio desde que os conflitos começaram em Juba. Faz um mês desde que tivemos que deixar a nossa missão em Leer e fugir para o mato e pântanos com o povo. Agora me encontro bem com meus colegas em Juba, mas o povo continua no mato sem comida, muitos doentes e com medo.

 

Não é surpresa a falta de notícias nos meios de comunicação. Aqui em Juba a situação está tranquila. No começo apareceram algumas reportagens, muito mais sobre Juba, por causa da presença dos diplomatas e jornalistas na cidade.

 

A guerra mudou-se para os três estados de Unity, Jongley e Upper Nile e se concentra lá. No momento lá não tem comunicação, por isso não se sabe bem o que está acontecendo. Essa é a região rica em petróleo e não é por acidente que a guerra continua lá. Também é a terra do povo Nuer e do vice-presidente deposto.

 

Não se pode esquecer que é uma guerra civil política, uma briga por poder movida por interesses e gananciosos indivíduos ou grupos, mas com um contorno étnico muito acentuado.

 

São milhares de mortos, difícil saber ao certo, a maioria civis inocentes e quase um milhão de desabrigados.

 

Os campos da ONU estão superlotados de gente da comunidade e etnia Nuer. Há muito mais gente escondida no mato. Isso posso dizer muito bem porque ficamos na mesma situação por dezoito dias e sei bem o que o povo está vivendo nesse momento.

 

Os três estados onde há a guerra correspondem à nossa Diocese de Malakal, a maior e mais pobre do país e a que tem menos agentes de pastoral. Fomos obrigados a deixar as paróquias e missões, inclusive o bispo, após refúgio no mato ou na base da ONU. Ainda tem uma missão comboniana e uma paróquia com agentes de pastorais. Os demais estamos em Juba.

 

As destruições, saques e assassínios de forma cruel são verdadeiros horrores. Apesar disso e da pressão da comunidade internacional e muitas orações, os dois líderes, governo e oposição, não escutam os clamores do povo. As negociações de paz não avançam. Há uma necessidade urgente de conversão de mente e coração dos líderes desta jovem nação. É difícil enxergar o fim de tudo isso.

 

Porém, há muitos exemplos de solidariedade. Agradecemos a Deus por tudo isso. A três dias almocei com um grupo de brasileiros da Aeronáutica, Exército e Polícia do Brasil que integram a força de paz da ONU. Não são muitos. Também esteva uma portuguesa voluntária da ONU que me ajudou a retirar algumas pessoas da área de conflitos. O pessoal da ONU muito nos agradeceu pelas comunicações e trabalhos desde a missão. Ainda estão tentando encontrar um meio de levar alimentos para lá, mas é muito inseguro.

 

Éramos o único contacto com o resto do mundo quando estávamos em Leer. Soubemos que há dois dias os rebeldes atacaram as forças do governo que controlam a cidade, mas não houve mortos nem feridos. É uma indicação que os conflitos continuarão se não houver um acordo de paz.

 

A situação é pior em Malakal. Todo mundo teve que fugir e as igrejas não foram respeitadas. O ‘White Army’ (exército branco) formado por jovens Nuers é impiedoso. São jovens recrutados para a guerra e profundamente manipulados. Não temem matar ou morrer.

Vê-se que precisa de muita oração para mudar essa realidade. Sempre que puder lhes mandarei mais notícias. Continuem rezando por nós e nossos povos.

 

Pe. Raimundo Rocha, pároco de Leer, em Juba



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