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Sudão do Sul: Dias de terror em Malakal
30 de Abril de 2014

Meses depois da independência, a guerra voltou, mais trágica ainda, ao Sudão do Sul. Um conflito tribal desabou sobre esta jovem nação e provocou já milhares de mortos e cerca de 1 milhão de refugiados. A Irmã Elena não consegue esquecer toda essa violência em Malakal, onde vivia. Mas, mesmo assim, quer voltar.

 

Malakal é agora uma cidade fantasma. Até os animais parecem ter fugido. Não há ninguém. Por vezes, escuta-se o ruído apressado de carros que transportam homens armados. Agora não há mais ninguém para matar, não há mais nenhuma mulher ou rapariga para violar. Não há mais nada. É difícil imaginar as ruas desertas de Malakal. Ainda há tão pouco tempo, parecia uma cidade normal, cheia de pessoas, com mais de 250 mil habitantes. Agora, não tem praticamente ninguém.

 

Sombras da violência

Em muitas casas ainda há vestígios de morte, da violência que tomou conta das ruas, em paredes esburacadas por balas, nas casas incendiadas, nos corpos que ninguém ainda reclamou. A Irmã Elena Balatti, missionária comboniana, também abandonou Malakal. Por mais que se esforce, por mais que tente esquecer, esta missionária italiana é obrigada a recordar os dias de pavor que viveu na cidade, quando bandos armados do chamado “white army” entraram na catedral, à procura de soldados fiéis ao Governo. Nem os locais de culto foram poupados. Muito menos os hospitais, orfanatos ou, até, as bases da ONU. Há relatos impressionantes de violência, de uma violência que não tem poupado ninguém, nem sequer crianças, mulheres ou idosos. “Houve pessoas mortas nas igrejas”, diz a Irmã Elena. “A cidade ficou destruída. Ainda tenho na memória a imagem do mercado, com as decorações de Natal, pouco antes do ataque de 24 de Dezembro. Agora aquele mercado já não existe. Todas as estruturas governamentais foram saqueadas e incendiadas.”

 

Guerra tribal

Na base desta guerra civil que envolve forças governamentais do presidente Salva Kiir e partidários de seu ex-vice-presidente Riek Machar, destituído em 2013, e que já causou 1 milhão de refugiados e dezenas de milhares de mortos, está um conflito tribal entre as etnias Nuer e Dinka. Foram elementos afectos à etnia Nuer, do ex-vice-presidente, que atacaram a cidade de Malakal. A violência contra as mulheres banalizou-se. No último dia, antes de apanhar o avião que a transportou para Juba, a capital, onde ainda se encontra, a Irmã Elena levou uma menina de 12 anos até ao hospital da Cruz Vermelha. Tinha sido violada, juntamente com outras nove crianças, na Igreja do Cristo Rei.

Foi dolorosa a decisão das missionárias combonianas de abandonarem a cidade de Malakal. “Éramos três irmãs. Depois de a nossa casa também ter sido saqueada, já não tínhamos onde morar. Ficámos ao lado dos sacerdotes locais, mas agora que todos fugiram nós também abandonámos Malakal. Já não havia razões para permanecermos numa cidade deserta.”

O Sudão do Sul é o país mais novo do mundo. Ganhou a independência em 2011, depois de meio século de luta contra o norte, maioritariamente árabe e muçulmano, em flagrante contraste com o sul onde predomina a religião cristã. Foi um conflito sangrento, que causou mais de 3 milhões de mortos. Agora, ao fim de poucos meses, voltou a guerra. Ainda mais violenta e incompreensível.

 

Partir para voltar

A Irmã Elena está em Juba, mas o seu coração continua em Malakal. Não há dia que passe que não recorde os gritos de ajuda das populações atacadas, o olhar aterrorizado da menina violada, ou as paredes das igrejas esburacadas pelas rajadas das metralhadoras.

A Irmã Elena quer regressar. Para isso é preciso que o cessar-fogo já assinado entre rebeldes e forças governamentais não seja apenas um papel com intenções mas sem valor. De todo o lado continuam a chegar notícias de ataques, de mortos, de violência. Ainda esta semana. Nem as bases da ONU, com campos de refugiados, são poupadas.

No meio da impotência, resta a fé. A Irmã Elena pede as nossas orações. As suas orações. Nada voltará a ser como dantes. O Sudão do Sul é como uma ferida aberta que dificilmente irá sarar. A Igreja tem um papel essencial a desempenhar depois destes dias de terror. É preciso acreditar. É preciso ter esperança. “Quero voltar, juntamente com as minhas irmãs combonianas, para continuarmos o nosso trabalho”, diz a Irmã Elena. Vamos ajudá-la?

 

O trabalho destas Irmãs Combonianas é apoiado pela Fundação AIS.

 

Texto: Paulo Aido - Fundação AIS



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