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Sudão do Sul: Armas chegam rápido, alimentos demoram
20 de Janeiro de 2014

O padre Raimundo Rocha, a viver e a trabalhar na cidade de Leer, envia-nos um relato da situação vivida actualmente no Sudão do Sul. De acordo com este missionário comboniano: “É incrível a forma rápida como chegam armas e munição e é muito triste e revoltante a forma lenta como chegam alimentos, remédios e proteção”.

 

Estima-se que mais de 470 mil pessoas fugiram de suas cidades por causa dos conflitos. A maioria encontra refúgio nas bases da ONU, escondidas no mato ou em cidades onde não há conflitos. Muitos se refugiaram em países vizinhos. Isso gerou uma crise humanitária enorme. Há pouca comida, água, remédio e abrigo.

 

“É incrível a forma rápida como chegam armas e munição e é muito triste e revoltante a forma lenta como chegam alimentos, remédios e proteção. Tem sempre uns poucos que lucram com as guerras e conflitos”.

 

De acordo com o padre Raimundo, Bor, capital do estado de Jonglei, foi a primeira a ser dominada pelas tropas dissidentes. Hoje, sob domínio do governo, é uma cidade “fantasma” e destruída. Várias vezes passou das mãos dos “rebeldes” para as mãos do governo.

 

“Malakal, capital de Upper Nile e da nossa diocese, foi a segunda a ser dominada. Hoje está nas mãos dos ‘rebeldes’ e parcialmente destruída. No domingo, 12 de Janeiro, um barco com mais de 200 pessoas em fuga naufragou no Rio Nilo. Todos morreram”.

 

“Bentiu, capital de Unity, nosso estado, está nas mãos do governo. É outra cidade ‘fantasma’ e destruída. A população fugiu. Milhares vieram para Leer, a maioria caminhando. Homens, mulheres, crianças, idosos, doentes caminharam 130 km até Leer e outras localidades em busca de proteção e alimentos. Muitos ainda estão na estrada. Muita gente foi assaltada no caminho. As tropas ‘rebeldes’ retornaram de Leer para Bentiu com muitos jovens recrutados para retomarem a cidade. A mesma ação que os ‘rebeldes’ pretendem fazer em Bor”.

 

O missionário conta ainda as dificuldades gerais provocadas por esta situação: “Além da insegurança que se instalou, enfrentamos também a crise da insegurança alimentar. Os que fugiam para Leer precisam de comida e no mercado existe pouca e além disso é muito cara. Os refugiados se cadastram com a Cruz Vermelha, mas infelizmente tem chegado pouco alimento. A fome que já existia onde o povo comia só uma vez por dia, agora aumenta e tem gente que nem comida para um dia tem”.

 

“A nossa paróquia acolheu algumas famílias e estamos procurando a melhor forma de ajudá-los. O hospital de Leer (administrado pelos Médicos Sem Fronteira) está cheio e continua a receber pacientes feridos de outras cidades. São trazidos pelos aviões da Cruz Vermelha e dos Médicos Sem Fronteiras”, refere o padre Raimundo.

 

No entanto, o missionário também refere que nem tudo é tragédia: “Existe muita solidariedade entre o povo. Em todas as casas e quintais tem gente. A hospitalidade do povo Nuer é incrível. Uma viúva com família grande acolhe 15 pessoas em sua casa. Confia na Divina Providência para manter esse povo todo. Muita gente é acolhida ao longo dos 130km de caminhada. Às vezes é suficiente um copo de água e uma dormida. A fé e a esperança também são grandes. E assim são muitos pequenos milagres. O amor fala mais alto concretamente”.

 

“Além disso, a boa notícia que lhes queria comunicar é que neste último sábado, 18 de Janeiro, as delegações que negociam o acordo de paz na Etiópia conseguiram assinar um acordo de paz que foi aceito pelo presidente Salva Kiir. Com isso se espera que os combates se encerrem para permitir mais negociações. Queira Deus que esse acordo inicial seja cumprido por ambas as partes e que não haja mais mortes e destruição. Deus seja louvado por isso”.

 

“Mas é preciso continuar rezando. Muita coisa precisa mudar para que haja paz definitiva. Continuem com as orações pela paz e reconciliação. Muita gente reza por nós e connosco e já se sente e vê os frutos das orações”, conclui o padre Raimundo.

 

Pe. Raimundo Rocha, Missionário Comboniano em Leer, Sudão do Sul



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