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Madagáscar: Uma ilha à deriva
5 de Junho de 2012

A revista «Além-mar» do mês de junho de 2012 apresenta uma reportagem especial sobre a ilha de Madagáscar, que está há três anos – após o golpe de Estado de 17 de Março de 2009 – numa crise política profunda, que também está a afectar seriamente a sua economia. Nem o seu actual presidente, Andry Rajoelina, que chegou ao poder com a ajuda do Exército, nem os seus três rivais dão o braço a torcer para sair do pântano.

 

A actual crise é a terceira que Madagáscar padece nos últimos vinte anos, e esta é sem dúvida a mais prolongada no tempo e a que mais prejuízos, a todos os níveis, está a trazer aos Malgaxes. A razão fundamental das três crises temos de procurá-la na recusa dos sucessivos presidentes em deixar o poder no momento devido, num cenário comum de processos eleitorais repletos de irregularidades e de um exército pronto a intervir na vida política ao mínimo argumento.

 

Além disso, a pobreza crescente propicia os protestos de um povo desesperado, disposto a agarrar-se a qualquer líder que prometa melhorar a sua situação. E a mudança de responsáveis políticos é, neste sentido, uma das perspectivas que mais frequentemente lhe ocorre.

 

A crise actual começou em finais de 2008, com o surgimento de manifestações generalizadas contra o então presidente Marc Ravalomanana, as quais acabaram por provocar a intervenção dos militares. Como resultado deste autêntico golpe de Estado, a 17 de Março de 2009, o presidente viu-se obrigado a demitir-se e a refugiar-se na África do Sul, enquanto o Exército entregava o poder ao jovem presidente da câmara de Antananarivo, Andry Rajoelina, de 37 anos, que nem sequer tinha a idade mínima que a Constituição malgaxe exige para ocupar o cargo.

 

O novo homem forte de Madagáscar proclamou-se, então, presidente da Alta Autoridade de Transição, que prometia organizar eleições democráticas em menos de dois anos e conduzir o país à normalidade com rapidez. As revoltas naqueles quatro meses de conflito custaram a vida a perto de 150 pessoas.

 

Influência da religião

A confissão religiosa dos presidentes também influi no desenrolar da crise. Marc Ravalomanana é vice-presidente de uma das principais igrejas protestantes de Madagáscar, cargo que acumulou com a presidência da República. Se somarmos a isto a sua actividade como empresário poderoso da construção e combinarmos tudo com a facilidade de utilizar as leis em favor próprio e de se apoderar de propriedades que o seu cargo lhe conferia – aqui se encontraria uma das principais razões da sua queda em desgraça aos olhos de grande parte do povo –, já estaria quase tudo dito.

 

É evidente que os protestantes se viram muito favorecidos durante o mandato de Ravalomanana, particularmente no que diz respeito aos seus templos. Não falta inclusivamente quem denuncie que nesse período o ex-presidente teria desviado fundos públicos para a sua Igreja.

 

Por outro lado, as relações de Ravalomanana com uma parte significativa da hierarquia católica foram quase sempre desastrosas e, conforme se soube recentemente, durante os últimos meses da sua presidência, um bispo católico livrou-se por pouco de ir parar à prisão.

 

Andry Rajoelina, por sua vez, é católico e tão-pouco tem pudor em mostrar-se como tal em público. Assim se explica que, desde o seu refúgio sul-africano, o próprio ex-presidente derrubado tenha assegurado mais do que uma vez que quem na verdade levou Rajoelina ao poder foram os católicos.

 

Madagáscar não é África

Madagáscar não é África e os malgaxes não gostam nada que lhes chamem africanos. Mas quando se chega à capital, Antananarivo – Tana, para os nativos –, cai-se na conta de que é um exagero. Porque, por mais grave que seja a ofensa, parece impossível que um malgaxe seja capaz de se aborrecer com alguém. Pelo contrário, a amabilidade é a tónica geral e permanente por toda a parte, independentemente de quem seja o interlocutor. E isto apesar de os jornais falarem de uma crise que dura há já três anos e continua a provocar sérias tensões no país.

 

Se, contudo, nos fixarmos na pobreza que pouco a pouco se apodera de todas as regiões de Madagáscar, no futuro cheio de interrogações que ensombram a ilha, nas dificuldades para encontrar um governo democrático estável, aceite sem problemas por todos… então já não há dúvida: a sorte dos Malgaxes é muito parecida com a dos seus vizinhos africanos do continente.

(BÉNILDE KOKOU)



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