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Mundo: Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos
17 de Janeiro de 2013

A «Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos», de 18 a 25 de Janeiro de 2013, decorre sob o lema «O que exige Deus de nós» (Miquéias 6,6-8) e a proposta dos temas para as celebrações ecuménicas do oitavário foi elaborada pelos cristãos da Índia.

 

 

Diálogo ecuménico: compreender-se para dialogar

 

O diálogo ecuménico, entendido como partilha da experiência cristã, é um caminho que se desenvolve em etapas e momentos consecutivos, servindo-se de muitos instrumentos. Um desses instrumentos é o confronto entre as expressões de fé e de doutrina das confissões cristãs, em vista da reconstituição da unidade.

 

Considerando a questão nesta óptica, podemos individuar três momentos ou exigências do diálogo: compreender, fazer-se compreender e dialogar. Para qualquer diálogo, é indispensável que os interlocutores se compreendam um ao outro para não incorrer em equívocos. Para o diálogo ecuménico é preciso conhecer a interpretação da fé e a práxis de vida cristã do interlocutor.

 

Três momentos

– Compreender: compreender-se a si mesmos e aos outros. Isso significa que para poder dialogar é necessário um sério empenho de formação pessoal e comunitária.

 

– Compreender-se a si mesmos: num diálogo ecuménico implica estar radicados em Jesus Cristo, conhecer bem os fundamentos da fé, a doutrina e a vida da própria Igreja, estando profundamente inseridos nela. Para um católico, compreender-se a si mesmo significa deixar-se iluminar e conduzir pelos princípios do Concílio sobre o diálogo e inserir-se no caminho que a igreja está a percorrer nestes últimos tempos.

 

– Compreender os outros: compreender o interlocutor, superando muitos esquemas fixos que nos impedem de conhecer o seu pensamento real e os fundamentos sobre os quais se apoia. Compreender os outros significa conhecer a sua história, quer na sua evolução interna, quer nas relações com os outros, discernindo os verdadeiros valores que se desenvolveram a partir de eventuais entrincheiramentos defensivos, ditados pela necessidade de salvaguardar uma própria identidade ou a própria sobrevivência. Significa, também, conhecer a sua doutrina tal como ela é exposta e interpretada.

 

Além da doutrina formulada, é preciso conhecer a sua espiritualidade, isto é, a sua experiência vivida e o modo como sentem e vivem a mensagem evangélica.

 

Compreender o outro exige não só inteligência, mas também sintonia, simpatia, amor, anseio do encontro com Cristo e o irmão. Significa considerar o outro no seio da sua cultura, colhendo os seus valores e suas formas expressivas. Aperceber-se-á que muitas diferenças são de carácter cultural e não afectam a doutrina nem a fé.

 

Fazer-se compreender

Se, para dialogar, é necessário compreender o outro, é outro tanto importante fazer-se compreender. Isso significa que ao exprimir o próprio pensamento e a própria experiência, é preciso procurar a linguagem e os modos que possam ser compreendidos pelos outros.

 

Por linguagem não se entendem apenas as palavras, mas também o modo de expor, o procurar encontrar referências e assuntos que valham para os outros, o dar mais peso a algumas afirmações do que a outras, o partir de posições partilhadas.

 

Um bom conhecimento de si e dos outros pode ajudar a encontrar a linguagem para se fazer compreender, que nem sempre é apenas a das palavras e dos raciocínios, mas também a linguagem da arte, da poesia, da partilha de uma experiência espiritual.

 

Compreendermos nós próprios, em primeiro lugar, muitas das nossas estruturas e práticas de vida cristã à luz do Concílio e purificá-las significa frequentemente fazer-se compreender pelos fiéis de outras igrejas. Fazer-se compreender pelas outras comunidades cristãs é sinal de sensibilidade fraterna e de vontade de paz.

 

Dialogar

Maturando a consciência de si e o conhecimento das outras Igrejas, com o Concílio Vaticano II a Igreja Católica entrou decisivamente no diálogo ecuménico. Visto que o diálogo abraça toda a vida, ele exprime-se a vários níveis, cada um dos quais é válido e precioso.

 

Há acima de tudo uma relação positiva, benévola e acolhedora entre as pessoas, que pode ser definida diálogo da vida, ou da simpatia, que consiste no aproximar as pessoas ou as comunidades, criando uma relação de recíproco respeito, estima e cordialidade, acolhendo e apreciando no seu valor até mesmo todas as diversidades.

 

Um segundo nível é aquele que poderia ser definido diálogo de colaboração, que empenha os cristãos a oferecer a todos os homens um «testemunho comum» no campo da caridade e do empenho social. Este diálogo é urgente sobretudo naqueles contextos em que as diferenças religiosas são pretexto para fomentar contrastes sociais.

 

O nível de diálogo que até agora obteve a maior atenção das Igrejas é o diálogo teológico. A necessidade de tal diálogo está fora de discussão, visto que muitas divisões tiveram a sua origem e são ainda causadas por diferenças doutrinais entre as Igrejas.

 

Como já foi observado, o diálogo não se pode deter ao nível da doutrina teológica, uma vez que ele compreende toda a vida e portanto, de modo particular, a experiência cristã. É na partilha espiritual que se realiza o diálogo da vida, um ecumenismo espiritual entendido como experiência espiritual partilhada. Assim João Paulo II convidava a traçar novos percursos e a concretizar novas iniciativas para o diálogo.

 

«É por isso urgente que se tome consciência desta gravíssima responsabilidade: hoje podemos cooperar em prol do anúncio do Reino ou tornar-nos fautores de novas divisões. Que o Senhor abra os nossos corações, os torne corajosos, capazes, se necessário, de forçar lugares comuns, fáceis resignações de acordo. Se quem quer ser o primeiro é chamado a fazer-se servo de todos, então pela coragem desta caridade se verá crescer o primado do amor» (Orientale Lumen, 19).

 

Os Frutos do Diálogo

O diálogo ecuménico, em vez de mortificar a vida e a missão das Igrejas, reforça a sua vitalidade e eficácia missionária. Como sublinhava João Paulo II na encíclica Ut Unum Sint, os frutos do diálogo são multíplices: a fraternidade reencontrada (41-42), a solidariedade no serviço à humanidade (43), as convergências na Palavra e no culto divino (44-46). Frutos específicos derivam do diálogo com as Igrejas do Oriente, como a valorização das tradições litúrgica e mística (50-63), e com as do Ocidente, como o aprofundamento da Palavra de Deus (64-76). João Paulo II na encíclica Redemptor Hominis: reconhece os frutos recebidos do diálogo ecuménico:

 

«Nesta união na missão, da qual decide sobretudo o próprio Cristo, todos os cristãos devem descobrir aquilo que os une, ainda antes de se realizar a sua plena comunhão. Esta é a união apostólica e missionária, missionária e apostólica. Graças a esta união, podemos juntos aproximar-nos do magnífico património do espírito humano, que se manifestou em todas as religiões, como diz a Declaração do Concílio Vaticano II Nostra Aetate. Graças à mesma união, abeirar-nos-emos também de todas as culturas, de todas as concepções ideológicas e de todos os homens de boa vontade. Aproximar-nos-emos com a estima, respeito e discernimento que, já desde os tempos apostólicos, distinguiam a atitude missionária e do missionário» (Redemptor Hominis, 12).

 

A abertura recíproca ao diálogo abrirá portanto as Igrejas ao diálogo com todos os homens, aceitando os seus desafios e deixando-se interpelar. No diálogo com o exterior, as Igrejas poderão purificar-se no seu interior.

 

Conclusão

Fazer do diálogo uma práxis de vida eclesial significa transformar todos os sectores da pastoral e da vida da comunidade cristã. O diálogo tornar-se-á então um estilo de vida no seio da comunidade, na teologia, na pregação, na catequese e na liturgia. Será espontâneo no testemunho de todos os cristãos, no serviço ao homem. O diálogo ecuménico, mais do que um intercâmbio de palavras entre cristãos ou teólogos de Igrejas diferentes, é uma tomada de consciência do valor e da amplitude da obra de Cristo pelos homens; é caminho de purificação para as Igrejas, as quais só juntas poderão responder melhor à sua missão mostrando aos homens a beleza e a novidade de um mundo transformado pelo Evangelho de Jesus Cristo.

(ANA MARIA SGARAMELLA, Missionária comboniana)



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