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Sudão do Sul: Darfur sem fim
16 de Julho de 2013

Que se ouçam disparos aqui e além, de noite ou de dia, intermitentes e passageiros como muitas outras vezes os temos ouvido é banal e comum nestas terras. Porém, naquela noite de quarta para quinta-feira o tiroteio foi demasiado longo e não se esperava e muito menos se desejava que se transformasse numa tão assanhada batalha de vários dias. A parte central da cidade e o bairro de Malaja sofreram maiormente. Mas quase não houve lugar em Nyala que tenha escapado à violência militar naquela semana, de forma muito especial nos dias 4 e 5 de Julho de 2013.

 

Já tinha chegado a maioria dos alunos do curso de língua inglesa que funciona nas instalações da paróquia católica. Não houve tempo para sugestões nem anúncios mas também não foi necessário, pois num abrir e fechar de olhos o recinto ficou literalmente vazio. A mesma coisa aconteceu nas outras escolas da cidade, estabelecimentos ou instituições onde diariamente se juntam pessoas em grande número. As lojas, como também os muitíssimos e grandes mercados ao ar livre, seguiram o mesmo rumo: salve-se quem puder. Os cidadãos retiraram-se para dentro de casa, dando campo livre aos dois grupos rivais que tentavam eliminar-se mutualmente como crianças no jogo do esconde-esconde. Com a diferença fatal de que este era um jogo bélico verdadeiro em que as armas eram de fogo real. Além disso, acrescente-se que um grande número de pessoas também não foi poupado à despiedada crueldade dos soldados que destruiram e fizeram pilhagem das suas lojas e armazéns a seu bel-prazer.

 

Para nós os três missionários da comunidade comboniana a situação não foi diferente da do comum cidadão em Nyala. Optámos por não arriscar sair de casa, à espera que passasse a tormenta do tiroteio que se ouvia ora de mais longe, ora de mais perto ou mesmo a poucos metros de distância da missão, por vezes distinguindo-se também o som de armas pesadas.

 

Dois dias depois, quando o perigo pareceu ter diminuido consideravelmente, saí à rua, muito cautelosamente e com algum temor. Havia pouca gente e o mercado quase não tinha vida. Tinha apenas acabado de pagar o quilo das lentilhas à vendedeira quando esta se levantou de um salto e nos encontrámos com toda a outra gente correndo na direcção oposta donde viera o som da rajada de metralhadora.

 

Passados que foram cinco dias o som ameaçador da guerra tinha praticamente deixado de se ouvir. No entanto, o recolher obrigatório continuava em vigor desde as sete e meia da tarde até às sete horas da manhã. Tive ocasião de observar alguns dos sinais devastadores e profundamente tristes do pós-combate nas ruas de Nyala.  Paredes baleadas, vidraças estilhaçadas, mercados arrasados. Ambos os hospitais, o civil e o militar, ainda continuam a cuidar dos feridos mais graves, entre eles um grande número de civis inocentes. Ouve-se o lamento das mais de trinta famílias enlutadas. Já sem lágrimas para chorar, grita enraivecida a mãe duma criança atingida por fogo cruzado: “Não foi suficiente a miserável situação das doenças, da pobreza e da fome em que nos deixaram os janjauides e o seu ‘patrão’ de Cartum para, além disso, termos também agora de chorar os nossos mortos caídos em mais uma batalha sem sentido!”

 

O combate foi entre o exército das fronteiras – cujos membros foram sempre conhecidos por janjauides – e o exército da segurança nacional. Duas instituições governamentais sudanesas. O líder máximo dos janjauides, Ali Kusheib, um dos quatro criminais sudaneses indigitados pelo Concelho de Segurança da ONU foi atingido gravemente, permanecendo até hoje entre a vida e a morte.

 

No segundo dia do referido combate o vice-presidente do Sudão, Ali Osman Taha, chegou de Cartum a Nyala. Depois de várias horas entre discursos e reuniões de mesa redonda não conseguira produzir o desejado cessar-fogo. O governo sudanês continua a não poder ou a não querer (?) solucionar o colossal problema da região do Darfur que muita tinta e muito sangue fez correr. Quando se verá a solução deste velho conflito? Quem poderá trazer a paz? No profundo do meu ser ouço ecos da simplicidade e inocência de uma criança que, segura de si mesma, responde: Deus, porque Deus tudo pode. Porém, no diálogo com a mesma criança ouço também o próprio Deus que, carinhosamente, acrescenta: eu dei esse poder aos homens mas eles não têm tido vontade de o utilizar devidamente.

 

Engajada seriamente no diálogo com o Todo-poderoso, a criança comprometeu-se rezar para que os homens venham a ser pessoas de boa vontade e queiram trazer a paz ao Darfur. Deus apreciou a solidariedade humana daquele pequeno coração de ouro. Mas, por fim, despediu a criança com estas palavras: o teu modo de rezar faz-me muito prazer. Todavia, deixa que te ajude a completar o que falta à tua oração. E o pequeno coração de ouro escutou as palavras de Deus que disse: vai por toda a terra e fala aos responsáveis e políticos de todo o mundo. Ergue a tua voz e diz-lhes que me reservem um lugar nas suas conferências e reuniões de mesa redonda. Então sim, a paz irá chegar!

 

Padre Feliz da Costa Martins

Missionário Comboniano em Nyala – Darfur – Sudão

 

Informações do blogue Jirenna, do Padre José Vieira.



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