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Darfur: Cale-se quem nunca soube o que é a guerra
3 de Junho de 2013

Cale-se quem nunca soube o que é a guerra nem viu nem ouviu nem sofreu os seus efeitos!

 

Cale-se quem só ouviu o Sr. El Bashir e os seus amigos e não deu ouvidos aos soldados que sucumbem nas trincheiras, aos civis e inocentes que (nestes dois primeiros meses após os memoriais dez anos do conflito do Darfur) morreram não de morte natural mas de morte matada e muito violenta!

 

Cale-se quem não sabe que os hospitais do Darfur e os campos de refugiados de Utash, El Salam, Idreij, Kalma estão a encher-se, a arrebentar pelas costuras e a expandir pelo deserto fora a cada momento (falo com conhecimento de causa, tudo estes aqui pertinho de mim, em Nyala. E que será de todos os outros campos... à volta de uma centena?)!

 

Já agora, deixa-me comentar isso do medo ou do susto. Mais do que medo sinto raiva com sintomas de paralisação, impotência de um menino perante um gigante, o Colosso. Isto é mesmo muito mau sinal, que já não me tenham conseguido assustar nem meter medo nem a mim nem aqueles com quem eu estava à tarde. Nem sequer comentámos. Não, minto, um deles disse, enquanto os seus olhos ainda fixavam o céu sonoro e rompante: "O que é que se pode fazer ou dizer a isto!?" O outro respondeu: "Nada". E voltando-se na direção do grande areal de treinos do quartel de infantaria, concluiu: "Está vazio, hoje não há ninguém, estão todos para lá."

 

E note-se que estes dois são militares, colegas de todos os que estão para lá (sudaneses aqui do norte e não sudaneses do sul), que por acaso se encontravam uns dias de férias. Eram as 6h00 da tarde e encontrava-me em casa do ex-sargento sulista António Creb que me tinha convidado para um pequena festa de reconhecimento do seu filho Solomon que ficou aprovado no exame do oitavo (e último) ano do ensino básico.

 

Não lhes perguntei onde era o lugar da batalha, nem falei com mais ninguém até chegar a casa pois diga-se a verdade, tinha uma certa pressa porque se aproximava a hora do recolher obrigatório. Curiosamente, não tinha medo mas mais bem sentia um certo receio de ser encontrado a transgredir a lei marcial em que o castigo pode ser a expulsão da região ou do país.

 

P.e Feliz Martins, Missionário Comboniano no Darfur - Sudão



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