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Sudão do Sul: Testemunho missionário revela povo com medo e em fuga
9 de Janeiro de 2014

O P. Raimundo Rocha, missionário comboniano a viver no Sudão do Sul, voltou a mandar notícias sobre a situação do Sudão do Sul, que enfrenta uma luta pelo poder político e divisões internas. O povo tem medo dos conflitos e foge.

 

Caros amigos e amigas, muita paz.

 

Volto a lhes escrever com mais notícias sobre a situação conflituosa que vive o Sudão do Sul. Já são 22 dias de conflitos.

 

Tudo começou no dia 15 de dezembro em Juba. A situação em Juba é relativamente calma. Os conflitos diminuíram por lá. Porém, muita gente foge da cidade por medo de um possível ataque das tropas rebeldes que querem tomar a capital. Muitos se refugiam nos países vizinhos.

 

O conflito espalhou-se pelo resto do país. Seis dos dez estados foram atingidos.

 

No meio dessa crise política e briga por poder fica cada vez mais acentuado um conflito tribal entre os dois maiores grupos do país, Dinka e Nuer. Ao todo são 64 tribos: nem todo o mundo está envolvido nesse conflito, mas todo o mundo é vítima.

 

É difícil saber o número de mortos, seguramente mais de mil. São quase 200 mil refugiados, pessoas que foram obrigadas a fugir de suas casas para não serem mortas. Entre elas muitas crianças, mulheres e idosos.

 

A situação começa a piorar na nossa região que está sob domínio dos rebeldes. A capital da nossa diocese, Malakal, ficou bastante danificada depois dos conflitos. As tropas do governo conseguiram retomar a cidade. A capital de outro estado – Bor - ainda está nas mãos dos rebeldes. A capital de nosso estado – Bentiu - também em poder dos rebeldes. São três cidades estratégicas e que ficam na região rica em petróleo.

 

A cidade mais próxima de Bentiu é Mayom. Lá houve combate, destruição e morte. As tropas do governo avançam para Bentiu e a população foge. Pode haver confrontos a qualquer momento. A população civil se refugia nas bases da ONU, foge para cidades vizinhas ou se esconde no mato.

 

Leer fica a 130 quilómetros de Bentiu. Muitos carros trazendo muita gente chegaram hoje a Leer. Nossa casa e a das irmãs Combonianas acolheram três padres e outras pessoas. A paróquia de Leer se prepara para acolher quem não tem para onde ir. O mercado de Leer continua fechado por medo de saque. Com isso, em breve poderá faltar alimento.

 

Continuamos isolados. A única saída é pelo ar em aviões pequenos. A saída pelo rio Nilo está bloqueada pelas tropas rebeldes e a única estrada em que se pode trafegar leva a Bentiu onde possivelmente haverá combates.

 

O hospital de Leer, dirigido pelos Médicos Sem Fronteiras, continua a receber pacientes feridos trazidos de avião.

 

A situação fica cada vez mais difícil e dramática para a população civil inocente.

 

Enquanto isso, desde domingo, seguem as conversações de paz na Etiópia, mas até agora não se produziu nenhum resultado. Os conflitos continuam e não se sabe até quando.

 

Em Leer não há conflitos e achamos que não haverá, porém o clima é tenso e temeroso. Vamos continuar na missão ao lado do povo. Estamos bem. Nossa proteção vem de Deus. Os telefones funcionam muito mal. Comunicamo-nos mais por internet.

 

No meio de tudo isso a gente vê sinais bonitos de esperança e solidariedade. A igreja continua com sua missão conciliadora e reconciliadora, embora seja difícil nesse momento, presta grande ajuda humanitária e espiritual, como também na mediação dos conflitos. Não se cansa de convocar para uma intensa campanha de oração pela paz e reconciliação. Através disso também se faz denúncia.

 

Continuem rezando por nós, sobretudo para quem se vê obrigado a dormir no frio, com fome e sede e sem saber o que pode acontecer amanhã.

 

Que a paz de Deus e seu Espírito nos traga o dom da reconciliação.

 

Muito axé, paz e justiça para todos os povos. Continuem com Deus.

 

P. Raimundo Rocha

Missionário Comboniano

Leer, Sudão do Sul

 

ORAÇÃO PELA PAZ NO SUDÃO DO SUL

 

Deus de amor e misericórdia,

Vós criastes pessoas de cada clã,

tribo e nacionalidade.

É vossa vontade que todos os povos possam

viver em paz, harmonia e unidade.

Somos todos irmãs e irmãos.

Pedimos-vos perdão pelas vezes

que não vivemos em paz.

Curai as nossas feridas e ajudai-nos

a reconciliar-nos uns com os outros.

Nós também rezamos pelos nossos líderes.

Concedei-lhes a sabedoria divina

e ajudai-os a promover o respeito,

a paz, o amor, a unidade, a justiça

e a verdadeira reconciliação

para que cada clã e tribo no Sudão do Sul

possa viver em paz e harmonia.

Nós vos pedimos por Jesus Cristo Nosso Senhor.

Amém.



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