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África: Mortos-vivos
5 de Novembro de 2013

O culto dos antepassados é um dado cultual e social transversal em África. Os Africanos acreditam que os mortos fazem parte da vida de cada dia.

 

Na África, é comum que os antepassados sejam percebidos como intermediários entre a(s) divindade(s) e os vivos, muito próximo da doutrina católica da comunhão dos santos, uma visão que deu origem também a uma cristologia africana que apresenta Jesus como o antepassado comum.

 

Os antepassados são recordados e respeitados na maioria das culturas africanas como fonte de bênção e para evitar maldições. Um provérbio africano diz que negligenciar os antepassados traz má sorte. Por isso, é normal que as culturas africanas desenvolvam ritos para propiciar os mortos e evitar catástrofes pessoais e colectivas. O escritor nigeriano Chinua Abache descreve, na sua primeira novela, Things Fall Apart, o choque cultural provocado pela chegada dos administradores ingleses e missionários na cultura igbo. Okonkwo, o herói do livro, queima uma igreja para apaziguar os antepassados e proteger a cultura e as tradições das influências externas.

 

No meu serviço missionário, experimentei duas maneiras diferentes de tratar os antepassados em contextos culturais rural e urbano.

 

Os Gujis, do Sul da Etiópia, entendem a morte como um acto de violência que é preciso propiciar com o sacrifício de um animal – normalmente um touro – sobre a campa do defunto depois de um período de luto que pode ir de dias a um ano ou mais, dependendo da importância social do falecido. A celebração da nagefatiisa (fazer as pazes) no final do luto culmina com uma refeição do animal sacrificado cujo sangue restabelece a harmonia que a morte violou. Depois de a nagefatiisa terminar, os antepassados são deixados em paz, excepto se alguma filha do falecido for estéril: nesse caso, a família reúne-se à volta da sepultura, que normalmente fica junto à casa da família, e pede ao antepassado que levante a maldição e permita que a mulher conceba.

 

Os mortos são colocados no túmulo com muito cuidado e as sepulturas são marcadas com uma estaca de uma árvore local que ganha raízes com facilidade. Quando nos ofereceram o terreno para construir a missão de Haro Wato, exigiram que não perturbássemos dois conjuntos de sepulturas dentro da propriedade. Concordámos que a igreja fosse construída sobre um dos grupos e o outro, um pequeno bosque de árvores e trepadeiras, encontra-se intocável no meio do cafeal.

 

A memória dos antepassados também é importante para determinar linhagens e casamentos. Os miúdos gujis tinham muito orgulho em enunciar os nomes dos descendentes até pelo menos à décima geração e não entendiam porque é que eu só sabia o nome do meu pai e do meu avô. Depois, quando um rapaz escolhe a noiva, os anciãos investigam se as duas linhagens não se cruzavam para sancionar a união.

 

Em Juba, no Sudão do Sul, fui confrontado com uma atitude totalmente oposta à dos Gujis. O cemitério de Malakia, um dos maiores da cidade, transformou-se num bosque onde as pessoas fazem as necessidades antes de o dia despontar e parte do campo santo foi ocupada por armazéns, uma fábrica de engarrafamento de água e pelas barracas provisórias dos sem-casa, afectados pela urbanização de Juba.

 

Não é que os mortos não sejam celebrados condignamente: o sepultamento é feito entre orações, cânticos e danças de pesar e o luto termina com a teskar muito semelhante à nagefatiisa dos Gujis, uma celebração pública imponente e longa que inclui orações, cânticos, a evocação do defunto e uma refeição.

(Jo´se Vieira - Missionário Comboniano no Sudão do Sul)



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