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Rep. Centro-Africana: Leigas missionárias contam sobre o momento presente
16 de Dezembro de 2013

Escrevemos para contar um pouco como estamos a viver o momento presente – após a tentativa de golpe de estado de 5 de Dezembro, na República Centro-Africana – os nossos medos, as nossas angústias… Élia e Teresa.

 

Queridos leigos missionários combonianos (LMC), amigos e familiares

 

Paz e Bem!

Quando anoitece o silêncio cai em Mongoumba, não se ouvem os cantos e risos das crianças que brincam, não se ouvem as conversas dos vizinhos, não se ouvem os tambores que animam a noite… apenas os sons da natureza, os grilos e alguns pássaros noctívagos. É um silêncio que angustia porque sabemos que as pessoas deixam as suas casas para se refugiarem na floresta. Partem porque têm medo. Medo dos militares da Seleka e medo dos Anti-Balaka, o novo grupo de oposição ao governo de transição. Medo da noite, do que pode acontecer.

 

É um momento difícil, um momento difícil para o país, mas nós em Mongoumba estamos numa situação diferente, podemos dizer que vivemos num pequeno paraíso. Um pequeno paraíso onde as dificuldades não faltam, mas tentamos dar continuidade às nossas actividades quotidianas nos diferentes projectos: saúde, educação e pastoral, ao mesmo tempo tentamos viver em proximidade com as gentes partilhando com elas as dificuldades de cada dia. Falamos de pequeno paraíso porque o local, com as suas fronteiras naturais (o rio), nos permitem continuar de uma forma quase normal, quase normal, pois não podemos esquecer a situação de guerra, destruição e morte que se vive no resto do país.

 

Chegam-nos notícias dos acontecimentos, sobretudo em Bangui, há outras localidades em dificuldades, mas é em Bangui onde os confrontos são mais intensos e tem havido maior número de mortos. Ouvimos as notícias e ouvimos também as pessoas que têm familiares na capital, do que se passa nos bairros, de cadáveres em casa e nas ruas onde ninguém chega para os recolher. Os acessos são difíceis e as pessoas têm medo de sair para pedir ajuda.

 

As notícias que nos chegam do exterior falam de guerra de religiões, mas nós, por enquanto, não o sentimos desse modo, para nós é uma forma política de colocar uns contra os outros e que alguns aproveitam para ajustes de contas e vinganças pessoais. Tanto a Seleka como os Anti-Balaka estão a destruir um povo para chegar a um poder que não são capazes de dominar. Os Anti- Balaka dizem-se cristãos como os da Seleka se dizem muçulmanos, mas nem todos os muçulmanos se identificam com a Seleka e nem todos os cristãos com os Anti-Balaka. Que religião se identifica com grupos que semeiam a morte e a desordem? É um problema político que falsos crentes tentam tornar religioso.

 

Desde o início dos conflitos que os líderes das principais conferências religiosas do país trabalham em conjunto no apelo à paz. Um pouco por todo o país têm vindo a ser criadas comissões inter-religiosas com o mesmo objectivo, inclusive em Mongoumba onde, também há o risco que as pessoas se comecem a olhar com desconfiança o que pode levar a confrontos pessoais com consequências nefastas para toda a localidade.

 

Um dos nossos medos é o número de armas em circulação. Os militares franceses começaram a fazer o desarmamento, mas quantas armas não saíram ou vão sair levadas por desconhecidos com destino desconhecido?

Até ao momento presente, temos vivido como espectadoras duma guerra que também é nossa, mas de que não sentimos os efeitos directos.

 

Beijos para todos e mantenham-se connosco,

Élia e Teresa



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