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Nelson Mandela: uma vida exemplar
6 de Dezembro de 2013

O líder sul-africano Nelson Mandela, 95 anos, morreu ontem, quinta-feira, 5 de Dezembro, em sua residência, em Joanesburgo, vítima de uma infecção pulmonar. O anúncio foi feito pelo Presidente da na África do Sul, Jacob Zuma, numa comunicação televisiva.

 

Apresentamos aqui um texto publicado na revista Além-Mar de Setembro de 2013.

 

Os últimos meses que acabamos de viver foram assinalados, acima de tudo, pela agonia discreta de uma das figuras mais transcendentes que a Humanidade conheceu nos últimos séculos: o primeiro presidente negro da República da África do Sul.

 

 

 

Um artista belga que mora em Xangai, Phil Akashi, de 34 anos, fez há poucas semanas um retrato do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, socando 27 mil vezes um muro com uma luva de boxe equipada com um carimbo, numa das mais extraordinárias homenagens que nos últimos meses têm sido feitas ao líder da luta contra o apartheid.

«Nelson Mandela é uma verdadeira fonte de inspiração para o mundo inteiro», sublinhou Phil Akashi, que produziu a obra com base em carimbos dos caracteres chineses com que se escreve a palavra «liberdade».

A vida daquele Prémio Nobel da Paz «leva uma mensagem de esperança e incentiva as pessoas a lutar pela liberdade», acrescentou o artista; numa altura em que nos cinemas de vários países se estreava o filme Longo Caminho para a Liberdade, feito com base na autobiografia do homem a quem a África Austral das últimas décadas mais deve.

 

Uma referência

 

Nelson Rolihlahla Mandela fez recentemente, no dia 18 de Julho, 95 anos e o mundo esteve com ele, desde que foi hospitalizado no início de Junho, em Pretória, porque ele é o que de melhor há no mundo, mesmo quando adoeceu gravemente e se chegou a pensar que a sua vida iria chegar ao fim antes do mês de Agosto. O que felizmente não aconteceu.

Mandela é o mais importante líder moral da Humanidade desde o indiano Mahatma Gandhi, que por acaso também se encontra associado à África do Sul. São dois marcos enormes deste último século. E dois homens daquilo a que se convencionou chamar o Terceiro Mundo. Dois exemplos flagrantes do que a Ásia e a África têm para dar à Humanidade.

Como presidente do Congresso Nacional Africano (ANC) e chefe espiritual do movimento de combate ao apartheid, Mandela contribuiu em grande escala para que a República da África do Sul passasse a ser governada depois de 1994 por elementos da sua maioria negra, que antes dele viviam ostracizados, relegados para segundo plano dentro da própria Pátria.

Em todo o mundo, Madiba é hoje em dia referenciado como uma força extraordinária na luta pelos direitos humanos e pela igualdade racial; mas também como aquele que soube perdoar, não guardando qualquer rancor aos que o tinham perseguido e enviado longos anos para a cadeia.

 

Longo Caminho

 

Foi um Longo Caminho para a Liberdade, como muito apropriadamente se chama a sua autobiografia, editada em 1994 pela MacDonald Purnell; e coroou-o com o desapego que demonstrou pelo poder, limitando-se a um simples mandato de cinco anos, ao contrário do que fazem outros, que às vezes já com bem mais de 80 anos ainda continuam a insistir que querem ser reeleitos e permanecer nos seus cargos. Como ainda há pouco se viu, no Zimbábue, com Robert Gabriel Mugabe.

Rolihlahla, «o que arranca o ramo de uma árvore», mas também «o que agita as águas», «o perturbador», nasceu no dia 18 de Julho de 1918 em Mvezo, pequena aldeia nas margens do rio Mbashe, no distrito de Umtata, no Transkei; ou seja, hoje em dia no Cabo Oriental.

No ano em que nasceu terminou a II Guerra Mundial; e uma delegação do ANC foi à Conferência de Paz de Versalhes, na França, apresentar as reivindicações dos negros sul-africanos.

O filho do chefe Gadla Henry Mphakanyiswa teve uma infância moldada pela tradição, pelos rituais e os tabus, num ambiente em que os pequenos negros viam os brancos quase como deuses, aqueles que decidiam do destino de toda a gente. Mas mais tarde foi-se consciencializando de que nenhum homem deveria ser Deus, fosse ele branco, negro ou amarelo. Os homens eram todos iguais e deveriam ter as mesmas oportunidades.

Muito apropriadamente, Mandela tirou o curso de Direito, pois desde a adolescência o que ele queria era um mundo mais justo. E em 1952 abriu um escritório de advocacia com Oliver Tambo, o primeiro escritório de advogados negros na cidade de Joanesburgo.

James Moroka, Yusuf Dado, Patrick Moloa e Robert Resha foram alguns dos seus companheiros nos primeiros anos em que sofreu as perseguições do regime do apartheid, e estiveram com ele quando em 1956 foi conduzido de Joanesburgo para Pretória, a fim de ser julgado.

Mas também havia brancos que se davam com ele, como Ruth First, que em Maputo viria a ser muitos anos mais tarde directora adjunta do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, até ser vítima de uma carta armadilhada enviada pela polícia sul-africana.

Depois, com o andar dos anos, o próprio presidente Frederik de Klerk compreendeu que não era possível mantê-lo na cadeia por mais tempo, uma vez que ele era o símbolo de toda uma Nação; era a pedra essencial para a Verdade e a Reconciliação.

 

A Voz de um Povo

 

Madiba foi isso mesmo. Foi a Voz, a Verdade e a Reconciliação do povo sul-africano, que graças a ele conseguiu aguentar os primeiros 19 anos de convivência racial e igualdade de direitos muito melhor do que muita gente imaginava.

Estes 19 anos decorridos desde que Nelson Mandela foi eleito presidente da África do Sul dificilmente teriam podido decorrer de uma forma tão pacífica sem o bom senso de Madiba, que sempre soube evitar os exageros e perceber que não era apenas em duas décadas que se iria virar tudo do avesso e construir um país totalmente diferente do que ele era ainda aqui há 30 ou 40 anos.

Claro que ainda há muita injustiça, muita desigualdade social, muita coisa por corrigir. Mas esse é o trabalho para as próximas gerações; para os sucessores de Thabo Mbeki e de Jacob Zuma; para os homens e mulheres que vierem a dirigir a Nação do Arco-Íris daqui a seis, 12, 20 anos. Madiba fez o dele; e de forma exemplar. Oxalá nunca surja ninguém que se precipite e destrua o seu legado.

Vai agora fazer 51 anos, em Outubro, que Mandela entrou no tribunal, para ser julgado; e uma multidão de partidários ergueu-se de súbito e começou a gritar palavras de ordem, num clima electrizante. E o réu envergava um trajo tradicional, feito de pele de leopardo, para demonstrar que era um negro que ia ser julgado por brancos. O que pretendia era tornar-se o porta-estandarte do nacionalismo negro, que por essa altura já triunfara em territórios como o Gana e a República da Guiné.

Nesse julgamento foi condenado a cinco anos de cadeia, a cumprir em Pretória, envergando calções e uma camisa de caqui; mas protestou, alegando que não era nenhum miúdo para andar de calções. Perante isso, facilitaram-lhe o uso de calças, mas em troca ficou em prisão solitária, sem qualquer hipótese de contacto com os demais condenados.

 

Robben Island

 

Depois, em 1964, Nelson Mandela foi parar a Robben Island, onde não havia carcereiros negros nem prisioneiros brancos. Era o apartheid, em pleno, com guardas brancos e presos negros. E mais uma vez Madiba teve de insistir muito para não ter de andar de calções, como se ainda fosse um garoto, dentro da lógica racista de que os negros não eram muito mais do que crianças, não tendo sequer capacidade para assumir a gestão de um país.

Foram os anos mais difíceis na vida do emblemático prisioneiro, naquela ilha situada em frente à Cidade do Cabo. Mas o surpreendente é que ele não se tornou amargo com tanta dificuldade por que passou, antes tendo até aperfeiçoado a sua bondade e espírito de tolerância. Essa é a grande lição que viria a dar ao mundo, quando finalmente chegou a hora da libertação.

As negociações para essa libertação começaram com uma reunião do Governo com o ANC em 4 de Maio de 1990, na residência presidencial, em Groote Schuur, na Cidade do Cabo. O Muro de Berlim caíra, a União Soviética estava à beira de se desintegrar e a África do Sul não poderia ficar à margem do que estava a acontecer pelo mundo.

Segundo a Minuta de Groote Schuur, os exilados poderiam regressar à pátria sem qualquer receio e os presos políticos saíam da cadeia, comprometendo-se o ANC a suspender a luta armada, nomeadamente a que era travada pela sua ala militar, a Umkhonto we Sizwe (a Lança da Nação, em isiZulu, a língua dos Zulus, uma das principais etnias sul-africanas).

 

Compromisso de Salvação Nacional

 

O Acordo de Paz de 14 de Setembro de 1991 foi um autêntico compromisso de salvação nacional, assinado por representantes de 27 organizações políticas e governos tanto a nível nacional com dos ditos bantustões. Houve ali uma grandeza de alma como raramente se vê, em qualquer continente.

A Convenção para uma África do Sul Democrática (Codesa), presidida por três juízes, começou no dia 20 de Dezembro de 1991, em Kempton Park; dentro de um espírito que muitos outros países fariam bem em seguir, para evitar tanto derramamento de sangue a que periodicamente assistimos (em territórios como a Síria, por exemplo).

O pleno êxito da transição verificou-se, nomeadamente, quando em Junho de 1994 o presidente Nelson Mandela convidou para um chá as mulheres dos seus três antecessores: Marga Diederichs, Elize Botha e Marie de Klerk.

Numa casa que fora de Cecil Rhodes, expoente do imperialismo britânico, um presidente negro serviu de anfitrião, e conversou cordialmente em africânder (língua essencialmente desenvolvida do holandês), com as antigas primeiras damas; as senhoras de um regime que vira os pretos como seus serviçais.

Foi uma forma bem gentil de o antigo combatente emblemático da luta contra o apartheid demonstrar que no seu coração não ficara qualquer rancor pelo muito que sofrera, por toda a discriminação que testemunhara. Tinha-se feito justiça, os negros tinham o mesmo direito de voto que os brancos e os demais grupos étnicos; e daí em diante o necessário era começar a pensar no futuro, deixando para trás um passado doloroso.

 

 

 

 

Nelson Mandela

 

– 18 de Julho de 1918: Rolihlahla Dalibhunga Mandela nasceu no clã dos Madiba. Só mais tarde é que um professor lhe deu o nome inglês de Nelson.

– 1919: Tiraram ao pai as terras e o dinheiro que tinha, por ordem de um magistrado branco.

– 1927: O pai morreu. O chefe da tribo dos Tembos, Jongintaba Dalindyebo, tornou-se o seu tutor e prometeu dar-lhe uma esmerada educação.

– 1937: Chegou à Universidade de Fort Hare e conheceu Oliver Tambo, de quem ficaria amigo.

– 1939: Convidaram-no a sair de Fort Hare, por ter boicotado a Assembleia de Estudantes, num protesto contra a política que era seguida na universidade. Transferiu-se para Joanesburgo e trabalhou sucessivamente como guarda numa mina e empregado num escritório de advogados.

– 1943: Entrou para o ANC.

– 1944: Fundou a Liga Juvenil do ANC, com Oliver Tambo e Walter Sisulu. Desposou Evelyn Ntoko Mase, da qual teve três filhos, tendo o casamento acabado em 1957.

– 1948: O Governo, do Partido Nacional, limitou ainda mais a liberdade dos negros, introduzindo a política de apartheid.

– 1952: Abriu o primeiro escritório sul-africano de advogados negros, com Oliver Tambo, fornecendo consultadoria gratuita ou a baixo custo a muitos negros que de outros modos não a poderiam ter.

– 1955: Aprovada a Freedom Charter, a defender igualdade de direitos e combate ao apartheid.

– 1958: Casou com a assistente social Nomzamo «Winnie» Madikizela, da qual teve dois filhos, acabando por se divorciar dela em Março de 1996.

– 1960: Chacina de Sharpeville. A polícia mata 69 manifestantes e o ANC é ilegalizado. Mandela entra na clandestinidade e forma um grupo militar de resistência armada.

– 1961: Torna-se chefe da guerrilha Umkhontoat.

– 1962: Detido no Forte de Joanesburgo, é condenado a cinco anos de cadeia mas consegue fugir.

– 1964: Condenado a prisão perpétua, aos 46 anos, por sabotagem e traição, começa por passar 18 anos em Robben Island.

– 1980: Oliver Tambo, exilado, lança uma campanha internacional para a libertação do amigo.

– 1986: Aumentam as sanções à África do Sul, custando-lhe muito dinheiro em vendas que deixou de fazer.

– 1990: Mandela é libertado dia 11 de Fevereiro. O presidente De Klerk legaliza o ANC e enceta com ele conversações para a formação de uma democracia multirracial.

– 1991: Mandela torna-se presidente do ANC.

– 1993: O Nobel da Paz é atribuído a Mandela e De Klerk.

– 1994: O ANC elege 252 dos 400 deputados e Mandela torna-se o primeiro presidente negro da África do Sul, formando um Governo de Unidade Nacional.

– 1998: Casa-se com Graça Machel, viúva do primeiro presidente moçambicano, Samora Moisés Machel.

– 1999: Termina o seu mandato e passa o testemunho ao novo presidente do ANC, Thabo Mbeki.

– 2004: Anuncia a sua retirada da vida pública, aos 85 anos.

 

 

 

 

 

Comissão Verdade e Reconciliação

 

A Comissão Verdade e Reconciliação (CVR) foi um organismo de justiça restaurativa que se criou na África do Sul depois da abolição do apartheid; para que vítimas de grandes violações dos direitos humanos contassem as suas experiências, se possível em audiências públicas. Os violadores também poderiam dar a sua versão dos factos e solicitar amnistia tanto por parte da justiça clássica como daqueles a quem tinham ofendido.

A CVR, a primeira das 19 que houve em diferentes países, para se ultrapassarem grandes situações de trauma, foi vista por muita gente como algo de essencial para uma transição pacífica para uma verdadeira democracia na República da África do Sul. Apesar de algumas deficiências, crê-se que de um modo geral funcionou bem.

A comissão foi criada no âmbito de legislação de 1995 visando promover a unidade e a reconciliação nacional, num país durante décadas dividido por linhas étnicas. Teve a sua sede na Cidade do Cabo, onde funciona o Parlamento sul-africano, e começou a trabalhar em 1996, de modo que em certos casos lhe fosse possível amnistiar pessoas que tinham cometido violações de direitos humanos.

Presidiu à CVR o arcebispo anglicano da Cidade do Cabo, Desmond Tutu, que teve como adjunto Alex Boraine; e dividiu-se a mesma em três secções: violações de direitos humanos cometidas entre 1960 e 1964, reparação e reabilitação da dignidade das vítimas e amnistia.

As sessões públicas verificaram-se em muitos locais da África do Sul, desde a Cidade do Cabo a Joanesburgo (centro económico do país) e a Randburg.

Foi considerada a possibilidade de se amnistiarem tanto agentes do Estado como elementos das chamadas forças de libertação, entre as quais o Congresso Nacional Africano (ANC).

Recusaram-se muitos pedidos de amnistia e só se atenderam algumas das pessoas que queriam ser indultadas por tudo o que de errado haviam feito, ao longo dos anos.

A ênfase dada à necessidade de reconciliação foi muito diferente da atitude verificada quando do Julgamento de Nuremberga, depois da II Guerra Mundial; e foi essa ênfase que fez com que depois uma série de países tivesse estabelecido comissões semelhantes, de modo que muitas situações se resolvessem sem ficar no ar um grande clima de ressentimento.

Quem mais gostou do processo foram os Xhosas, a etnia dominante, a de Nelson Mandela; e quem menos gostou foram os Africânderes, principais sustentáculos de apartheid. As audiências eram inicialmente para ter decorrido à porta fechada; mas graças à atitude tomada por 23 organizações não governamentais foi possível que os órgãos de comunicação social as acompanhassem, depois de 15 de Abril de 1996.

Com todos os seus defeitos, como existem praticamente em qualquer iniciativa que se tome, a CVR deu, de forma geral, um grande contributo para que os últimos 18 anos na República da África do Sul tenham corrido de uma forma muito mais calma do que aquilo que se chegara a temer, quando o ANC e Nelson Mandela chegaram ao poder.

 



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