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Quénia: Missionário pede eleições pacíficas, livres e verdadeiras
4 de Março de 2013

Nesta segunda-feira, 4 de Março, o Quénia vai a eleições gerais. As últimas eleições em 2007 deixaram o país à beira da guerra civil. Em pouco mais de dois meses os conflitos em diversos pontos do país deixaram mais de 1.300 mortos e quase 700.000 deslocados.

 

Cinco anos depois, pouco foi feito para reconciliar o país e ninguém foi declarado culpado por qualquer dos crimes cometidos. Por pressão internacional, o sistema eleitoral, bem como a comissão eleitoral e leis eleitorais, consagradas na Nova Constituição aprovada em 2010, foram passos significativos para que se possam realizar eleições justas, correctas e pacíficas! Mas na mente da maioria dos quenianos e principalmente da grande maioria dos políticos, os velhos métodos de compra de votos, intimidações, violência e fraudes eleitorais continuam na ordem do dia, mormente nas zonas rurais.

 

Pela primeira vez, cada um dos pouco mais de 14 milhões de votantes registados são chamados a eleger de uma assentada seis cargos políticos: presidente, governador civil, senador, membro do parlamento de cada concelho, representante feminina na assembleia concelhia e conselheiro de cada aldeia na assembleia concelhia. Até agora os quenianos apenas elegiam o presidente do país e o membro parlamentar. Todos os outros cargos políticos governativos eram "distribuídos" pelas filiações e amizades políticas.

 

A grande questão que se põe neste momento é: estão os quenianos preparados para uma transição eleitoral tão complexa como esta? Certamente que não, especialmente nas zonas rurais. Educação cívica e eleitoral foi inexistente nas zonas rurais. Aparte de uma campanha de educação cívica e eleitoral mais ou menos elaborada através da TV, nada mais foi feito. A grande maioria dos quenianos a viver nas zonas rurais não tem acesso à TV. As rádios foram deixadas à sua própria iniciativa no que respeita a sensibilização e educação cívica eleitoral, o que degenerou, em vários casos, no apoio a determinados candidatos em base de escolha tribal. Muita da violência em 2007/2008 foi instigada pelas rádios locais com forte inspiração tribal.

 

Antevê-se uma segunda volta para a eleição presidencial.

Finalmente, e segundo as muitas e suspeitosas sondagens, o maior número de votos é entregue a dois candidatos: Uhuro Kenyata e Raila Odinga. O primeiro é filho do primeiro presidente do Quénia. Tanto ele como o seu vice-presidente estão acusados de crimes contra a humanidade no tribunal internacional de Haya, cometidos nas últimas eleições. O segundo candidato é o actual primeiro-ministro e concorre a presidente pela terceira vez na sua vida. Pertence a uma família e tribo que nunca teve a presidência do país. Não é segredo nenhum para qualquer queniano atento que a administração americana e mesmo a EU preferem este candidato. Obviamente, os outros candidatos chamam a este apoio camuflado um novo colonialismo. Há aqui uma sede de poder nunca alcançado por esta tribo, o que nunca é um bom prenúncio.

 

As eleições primárias dos partidos para eleger os candidatos de cada partido aos vários cargos governativos foram marcadas por violência, fraudes eleitorais e muita confusão nas nomeações. Tal facto prova que mesmo com leis novas dos partidos e leis eleitorais reformuladas de acordo com a nova Constituição, não são suficientes para evitar o caos. É preciso que as mentalidades mudem também, o que não é o facto para a grande maioria.

 

Em preparação para estas eleições o país testemunhou sinais preocupantes que também antecederam as últimas eleições em 2007: alterações à constituição para acomodar interesses políticos, lutas tribais em pelo menos quatro zonas do país e que deixaram mais de 200 mortos, entre eles quase 50 polícias, assassinato de três políticos que pretendiam concorrer a postos governativos distritais e o caos já mencionado das eleições partidárias primárias.

 

Para que um candidato presidencial seja eleito na primeira volta, ele necessita de 50 por cento dos votos mais um. Este é um cenário pouco provável à primeira volta, pelo que se espera uma segunda volta dentro de um prazo de 30 dias.

 

Aquilo que o mundo espera é que, seja qual for o resultado eleitoral, o descalabro das últimas eleições não se repita. É isso que vos convido a pedir comigo e com os 40 milhões de quenianos: eleições pacíficas, livres e verdadeiras!

 

Um abraço grande e que Deus proteja e abençoe o Quénia.

 

Pe. Filipe Resende - Missionário Comboniano em Kacheliba - Quénia



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