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O rosto do Transfigurado não aceita rostos desfigurados
15 de Março de 2019

II Domingo da Quaresma - Ano C – 17.3.2019

 

Génesis 15,5-12.17-18

Salmo 26

Filipenses 3,17-4,1

Lucas 9,28-36

 

Reflexões

Contemplar o rosto! Uma chave de leitura do Evangelho da Transfiguração e de outros textos bíblicos e litúrgicos deste domingo, é-nos oferecida pela antífona de entrada: «procurai a face do Senhor. A vossa face, Senhor, eu procuro. Não escondais de mim o vosso rosto». Uma resposta a esta súplica insistente chega-nos de um monte onde Jesus se transfigurou diante de três discípulos previamente escolhidos: «o aspecto do seu rosto alterou-se e as suas vestes ficaram de uma brancura fulgurante» (v. 29) Os evangelistas insistem no esplendor luminoso que manifesta exteriormente a identidade de Jesus; de facto, a luz é sinal do mundo de Deus, da alegria, da festa. Aqui a luz não vem do exterior, mas emana do interior da pessoa de Jesus. Com razão Lucas sublinha que Jesus «subiu ao monte para orar. Enquanto orava, alterou-se o aspecto seu rosto» (v. 28-29). É pela relação com o Pai que Jesus é dinamicamente transformado: a total identificação com o Pai resplendece no seu rosto.

 

O caminho de transformação interior é o mesmo quer para Jesus quer para o apóstolo: a oração, vivida como escuta-diálogo de fé e de humilde abandono a Deus, tem a capacidade de transformar a vida do cristão e do missionário. De facto, a contemplação, a oração é a experiência fundadora da missão. Foi essa também a experiência de Pedro, certo de não ter «ido atrás de fábulas engenhosas», tendo sido uma das três «testemunhas oculares… enquanto estavam com Ele na montanha santa» (2 Pe 1,16.18). Entre a confusão e o medo (v. 33.34), Pedro teria desejado evitar aquele misterioso «êxodo» – aquela estranha morte a consumar-se em Jerusalém – de que falavam Moisés e Elias com Jesus (v. 31); teria desejado parar no tempo aquela estupenda visão do Reino (v. 33) como uma perene «festa das tendas» (Zc 14,16-18). Mais tarde, uma vez ultrapassada a crise dos dias da paixão, em Pedro e nos companheiros ganharam vantagem a experiência da intimidade com o Mestre e a escuta do Filho eleito do Pai (v. 35). Desse modo, os apóstolos confirmaram a sua vocação e o empenho por uma corajosa missão de anúncio, até ao martírio. «Escutai-o!», disse a voz vinda da nuvem (v. 36). O Papa Bento XVI convida a escutar o Mestre, a fixar nele o olhar e a não deturpar o rosto da Igreja, com as divisões do corpo eclesial (*)

 

Pedro teve de sair dos seus esquemas mentais – puramente humanos – para entrar no modo de pensar de Deus (Mt 16,23). O mesmo aconteceu com Abraão (I leitura), acerca do qual o segundo domingo da Quaresma nos apresenta uma das histórias emblemáticas (a chamada, o filho Isaac, a aliança). A Abraão – idoso, sem terra nem filhos – Deus promete uma terra e uma descendência, mas em troca pede-lhe a total adesão do coração, a fidelidade à aliança (v. 18). Abraão aprende que acreditar não é uma coisa periférica, marginal, mas comporta a deslocação do baricentro da sua vida sobre Deus. Pela fé, como explica S. Paulo (II leitura), temos a capacidade de permanecer «firmes no Senhor» (v. 4,1) mesmo nas provas, não procedendo «como inimigos da cruz de Cristo» (v. 18), mas como amigos que O esperam «como Salvador» (v. 20).

 

O rosto transfigurado e fascinante de Jesus é um prelúdio da sua realidade pós-pascal e definitiva; a mesma que é prometida também a nós. É nesta vocação à vida e à alegria que encontra o seu fundamento máximo a dignidade de cada pessoa humana, que por nenhum motivo deveria sofrer deturpações. Infelizmente, ainda hoje, em todos os países, o rosto de Jesus é frequentemente deturpado em tantos rostos humanos, como afirma o documento dos Bispos latino-americanos em Puebla (México, 1979): «Esta situação de extrema pobreza generalizada adquire na vida real traços muito concretos, nos quais temos de reconhecer o semblante de Cristo sofredor, do Senhor que nos interroga e nos interpela» (n. 31). E segue-se uma sequência de deturpações: rostos de crianças doentes, abandonadas, exploradas; rostos de jovens desorientados e explorados; rostos de indígenas e de afro-americanos marginalizados; rostos de idosos marginalizados pela sociedade familiar e civil (cf. Puebla 32-43). E a lista poderia continuar com as situações que cada um conhece no seu próprio ambiente. São outros tantos apelos prementes à consciência dos responsáveis das nações e aos missionários do Evangelho de Jesus. Missão é restituir e garantir dignidade e sorriso aos rostos deturpados e desfigurados.

 

Palavra do Papa

(*) Neste mundo, porém, a harmonia gerada pela redenção continua ainda – e sempre estará – ameaçada pela força negativa do pecado e da morte. Com efeito, quando não vivemos como filhos de Deus, muitas vezes adotamos comportamentos destruidores do próximo e das outras criaturas – mas também de nós próprios –, considerando, de forma mais ou menos consciente, que podemos usá-los como bem nos apraz. Então sobrepõe-se a intemperança, levando a um estilo de vida que viola os limites que a nossa condição humana e a natureza nos pedem para respeitar... Se não estivermos voltados continuamente para a Páscoa, para o horizonte da Ressurreição, é claro que acaba por se impor a lógica do tudo e imediatamente, do possuir cada vez mais.

Papa Francisco – Mensagem para a Quaresma 2019

 

No encalço dos missionários

- 17/3: S. Patrício (385-461), nasceu em Inglaterra, foi um grande missionário e evangelizador de Irlanda; foi bispo de Armagh e é patrono da Irlanda.

- 18/3: S. Cirilo (+386), Bispo de Jerusalém, conhecido por suas catequeses; foi mutas vezes perseguido pelos arianos.

- 19/3: S. José, homem “justo” (Mt 1,19), esposo da B. V. Maria, pai putativo de Jesus, Patrono da Igreja Universal.

-20/3: Beato Francisco Palau e Quer (1811-1872), sacerdote espanhol, carmelita descalço; foi vítima de perseguições, fundador, e dedicou-se as missões populares.

-21/3: Jornada Internacional para a Eliminação da Descriminação Racial (ONU).

-22/3: Jornada Mundial da Água, instituída pela ONU em 1993.

 

Colaboração e agradecimentos

Coordenação: P. Romeo Ballan - Missionários Combonianos (Verona)

Sítio Web: «Palavra para a Missão»

 



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