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Mundo: A lógica das boas notícias
26 de Maio de 2017

Os media põem uma maior ênfase no lado escuro e negativo da História humana do que no lado da inovação, criatividade, compaixão e graça.

 

Uma das funções fundamentais do jornalismo é denunciar os abusos do poder e informar os cidadãos sobre o «estado do mundo», os seus perigos e ameaças. Por este motivo, a juntar a uma crescente comercialização da informação, a definição de notícia tornou-se inquestionavelmente sinónimo de crítica, desordem e ruptura.

 

A progressiva concentração da atenção em acontecimentos negativos tem, todavia, alimentado medos, receios e angústias, tal como alerta o Papa Francisco no âmbito do 51.º Dia Mundial das Comunicações Sociais. Com o intuito de comunicar esperança e confiança no nosso tempo, sob a lógica da boa notícia, o Santo Padre questiona a crescente tendência negativa da comunicação social.

 

É verdade que a miríade de problemas que existe no mundo não pode ser ignorada pelos meios de comunicação, mas também é verdade que os media põem uma maior ênfase no lado escuro e negativo da História humana do que no lado da inovação, criatividade, compaixão e graça.

 

Curiosamente, dados recentes revelam que as pessoas estão mais interessadas em compartilhar, no Facebook e no Twitter, histórias encorajadoras e que despertam sentimentos positivos. No entanto, partilhar conteúdos em redes sociais é diferente de ler artigos e as audiências indicam que a informação negativa continua a vender mais do que as notícias positivas. Os estudos indicam que as pessoas continuam a consumir predominantemente notícias negativas, embora digam que gostariam de ter acesso a mais notícias positivas.

 

As tendências do comportamento online e o impacto que as redes sociais têm na produção noticiosa são de longo alcance, mas não devem ser ignorados. Se cada vez mais as pessoas recebem notícias através das ditas redes e se tendem a partilhar mais histórias positivas do que negativas, pode-se esperar que este comportamento venha a ter repercussões na actividade jornalística. Isso mesmo parece considerar a Universidade da Pensilvânia (Estados Unidos), que está a desenvolver novos programas de ensino com o objectivo de treinar a próxima geração de jornalistas a terem uma percepção mais ampla do que pode ser notícia. É incontestável que o jornalismo tem de cobrir as histórias sobre os males sociais – disfunção política, injustiça, violência –, mas esta universidade está também a incentivar os estudantes a aplicarem a mesma atenção, rigor e substância na cobertura do que está a funcionar na sociedade e de acontecimentos positivos e que estimulam o envolvimento colectivo.

 

Não há nenhuma razão para que histórias que se centram no que está a correr bem não tenham maior atenção nos media, até porque destacar realidades positivas não significa relatar o mundo de modo cor-de-rosa. As notícias devem reflectir o mundo em que vivemos e, na verdade, pelo facto de se centrar predominantemente no negativo, o jornalismo está a fornecer aos cidadãos uma visão parcelar do mundo.

 

Por: Rita Figueiras, Professora da Universidade Católica Portuguesa



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