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Síria: Recuperar a esperança
22 de Dezembro de 2014

 

Na Síria «reina a morte» e não «há nenhum lugar seguro». A violência imposta pelos grupos extremistas causou 150 mil mortes e deslocou nove milhões de pessoas. Nesta situação trágica, a Igreja continua a animar na esperança.

 

 

Gregório III Laham, patriarca de Antioquia e Oriente para os Melquitas Católicos, é um homem alegre, um pastor próximo do seu povo. Tem 80 anos e fala como um jovem entusiasta. Recorda que a Síria é o berço do Cristianismo. Em Damasco, a sua sede episcopal, o Cristianismo chegou no ano 33, com os missionários que partiram de Jerusalém, depois do Pentecostes, para anunciar o Evangelho. É a cidade da conversão e missão de São Paulo. De facto, a comunidade eclesial de Habab — que fica uns 50 quilómetros a sul de Damasco — foi perseguida por Saulo há dois mil anos.

«A nossa região sempre foi um mundo plural, onde os habitantes conviviam pacificamente», sublinha o patriarca. Nessa amálgama de civilizações, judeus, cristãos e muçulmanos sempre viveram juntos num clima de sã coexistência, respeito, harmonia e diálogo.

 

Superar a violência

 

Na mensagem que proferiu na catedral de Lisboa, no dia 2 de Novembro, D. Gregório disse: «Não há nenhum lugar seguro na Síria. Podemos pensar que há uns lugares mais seguros do que outros, mas, em qualquer momento, podemos ser mortos por uma bomba, um míssil ou uma bala, para não mencionar ser raptado ou feito refém em troca de um resgate, ou simplesmente assassinado… O caos ameaça todos, em toda parte, a cada momento.»

O Patriarca Laham não acredita numa vitória imposta pelas armas. Já tinha afirmado, numa mensagem aos cristãos por ocasião da Páscoa de 2014, que a «guerra contra a Síria não teve êxito, a violência não teve êxito, as armas não tiveram êxito, o fornecimento de armas de todos os tipos aos militantes armados não teve êxito». No mesmo sentido, os bispos católicos da Síria, no fim da Assembleia de Outono, em Outubro, em Damasco, pediram que a comunidade internacional «ponha fim ao tráfico de armas que alimenta a guerra no país».

Gregório III fala abertamente dos responsáveis pelo conflito na Síria e no Iraque. «É verdadeiramente uma guerra terrível. A Europa, os Estados Unidos e também a Rússia são os responsáveis. Enquanto não encontrarem maneira de satisfazer os seus interesses, teremos guerra. Não tem que ver com o Estado Islâmico. Claro, eles têm influência, mas o verdadeiro problema está noutro lado.»

 

Cristãos perseguidos

 

O patriarca foi uma das primeiras vozes a denunciar a perseguição dos cristãos no seu país. A guerra está a provocar a maior catástrofe de deslocados e refugiados da história da Síria. Nos últimos quatro anos, o conflito já causou mais de 150 mil mortes e obrigou nove milhões a viverem como refugiados ou deslocados.

D. Gregório Laham recorda que no Médio Oriente os cristãos são 15 milhões, um pequeno rebanho de Cristo numa população de 350 milhões de habitantes. A situação dos cristãos é catastrófica: mais de mil mortos, centenas de milhares de refugiados e deslocados, na Síria, Líbano, Jordânia, Egipto, Iraque e Turquia. Um número bastante elevado de cidadãos, cerca de 450 mil, fugiram para a Europa, Canadá e EUA. As perdas materiais são enormes. Cerca de uma centena de igrejas foram danificadas, ou estão parcialmente destruídas, bem como um número equivalente de instituições de apoio social, que aí existiam para servir todos os cidadãos, cristãos e muçulmanos. Aproximadamente 24 aldeias ficaram sem nenhum habitante cristão.

Mas, referindo-se ao futuro do Cristianismo na Síria, o patriarca lembra que «está ameaçado, não pelos muçulmanos, mas pela actual crise, devido ao caos que ela provoca e à infiltração de grupos islâmicos fundamentalistas, fanáticos e incontroláveis». Recorda que «existem cerca de 2000 grupos islâmicos de fundamentalistas fanáticos a combater na Síria: estão a atacar os cristãos juntamente com o ISIS [Estado Islâmico do Iraque e do Levante]».

«O sofrimento dos cristãos na Síria – sublinha o bispo da Igreja Católica Greco-Melquita de Antioquia e de todo o Oriente, Alexandria e Jerusalém – não é causado pela hostilidade dos muçulmanos, mas por grupos extremistas que entraram no país para exercer a violência e que agora atacam também no Iraque. Esses radicais mataram muitos cristãos, mas também muçulmanos xiitas ou sunitas que se opõem à sua visão fundamentalista», acentuou o prelado.

Os ataques contra os cristãos não podem, por isso, ser interpretados como uma perseguição religiosa. «Milhões de pessoas fugiram da Síria, tanto muçulmanas como cristãs, o que confirma que esta guerra não é um conflito entre religiões, mas um conflito que quer desestabilizar a sociedade síria», afirmou o presidente da Conferência Episcopal da Síria.

D. Gregório não deseja que «se fale demasiado em perseguições». Com o optimismo que o caracteriza, diz que «não queremos criar uma mentalidade defensiva, de pessoas vencidas». Os cristãos são uma minoria, mas não querem viver em guetos, isolados da sociedade.

Nessa situação de violência, a presença da «Igreja árabe» – pois os cristãos também têm sangue árabe – é uma missão «com e para os outros», sem entrar em «competição», mas apresentando um «valor especial», a mensagem do Evangelho. Os cristãos que vivem nesse mundo árabe não pretendem «converter os muçulmanos», mas ser testemunhas do amor de Jesus. Sendo uma pequena comunidade, aos baptizados compete ser sal e luz num ambiente de maioria muçulmana.

 

Começar a reconstrução

 

Gregório III é um homem de Deus, que vive a esperança. Pensa que a situação está a melhorar no seu país, convicto de que «o amor irá reconstruir a Síria, que assim será renovada». Muitas famílias já estão a regressar às zonas que antes estavam em guerra, como Homs, Maaloula ou Qusair. Cidades com grandes comunidades cristãs. O Governo lançou programas para ajudar no regresso dos sírios às suas terras, comparticipando 25 a 30 por cento da reconstrução das casas.

A Igreja «ajuda mais de oito mil famílias, para quem é necessário encontrar mantimentos e dinheiro com regularidade». A assistência faz-se, sobretudo, aos mais pobres. «A todos os que vestem um hábito – bispos, sacerdotes e religiosos – solicita-se ajuda; é importante que o patriarca seja a mão que ajuda». Também se quer começar a reconstruir as igrejas destruídas pela guerra. São um símbolo de esperança para os cristãos. Pretende-se edificar centros onde se possam ajudar as pessoas, principalmente as crianças, a superar os «traumas» do conflito. Serão lugares abertos a todos, pois «no Médio Oriente é muito raro haver projectos só para cristãos. Os muçulmanos sentem-se muito atraídos pela boa atmosfera que proporcionamos».

O patriarca faz um apelo aos cidadãos e políticos do mundo: «Não queremos que a Síria seja a terra da guerra, do crime, da violência e do terrorismo, mas sim, tal como lemos nos cartazes pelas ruas de Damasco: “Síria, a tua terra é santa, uma terra de amor e paz”.»

«Ao mundo e à comunidade portuguesa, em nome de todo o povo sírio que se encontra no desespero, na dor e no desânimo», pediu D. Gregório a ajuda «inestimável das orações» pela paz.

 

 

 

 

Aumenta a violência religiosa no mundo

 

A violência cometida em nome da fé generalizou-se e está a aumentar, conclui o relatório da organização católica Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), apresentado na Assembleia da República, em Lisboa. O documento denomina-se «Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo».

Na apresentação esteve o arcebispo libanês – mas natural da Síria – D. Issam John Darwish (na foto), que disse vir «de uma região ferida por lutas entre países, religiões, seitas, grupos étnicos, onde as pessoas são assassinadas diante dos meios de comunicação». O Líbano, com plena liberdade de culto, é o país com maior número de cristãos no Médio Oriente (40 por cento da população). O prelado recordou que a Primavera Árabe não trouxe nenhuns avanços ao mundo árabe, nem em democracia, nem em liberdade religiosa. Nos últimos tempos, «igrejas foram destruídas e padres e religiosas foram raptados», numa onda de fanatismo de grupos extremistas. O arcebispo, responsável pelas dioceses de Furzol, Zahle e Bekaa, lançou um forte apelo à comunidade internacional no sentido de ser interrompido «imediatamente o fornecimento de armas» às diversas partes em conflito.

O relatório da AIS salienta o aumento da intolerância religiosa entre Outubro de 2012 e Julho deste ano – período a que se refere o trabalho – em especial nos países onde há uma maioria islâmica. Em termos globais, nos 196 países do mundo «entrou-se numa fase de declínio grave» e «os países muçulmanos são predominantes na lista dos Estados» em que se registam «as violações mais graves». O documento adverte para o facto de a liberdade religiosa estar em declínio em 81 nações. Em 35 casos registam-se problemas «preocupantes», ainda que a situação não se tenha deteriorado. Só em 80 países não há indícios de perseguições motivadas pela fé.

Afeganistão, República Centro-Africana, Egipto, Irão, Iraque, Líbia, Maldivas, Nigéria, Paquistão, Arábia Saudita, Somália, Sudão, Síria, Iémen, Birmânia, China, Eritreia, Coreia do Norte, Azerbaijão e Usbequistão são os piores países em matéria de liberdade religiosa. Classificados como locais de perseguição religiosa «elevada», nos primeiros 14 esta está relacionada com o extremismo islâmico, enquanto nos restantes surge ligada a regimes autoritários.

Os cristãos são o grupo religioso mais perseguido – a cada cinco minutos, um discípulo de Jesus Cristo é assassinado no planeta – mas o relatório regista também casos graves da mesma natureza junto de grupos minoritários muçulmanos.

 

(IR. BERNARDINO FRUTUOSO, Missionário comboniano)



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