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Europa: Acolher o migrante
31 de Julho de 2015

O impacto das migrações na nossa sociedade, cada vez mais global, impõe um novo olhar e uma atenção cada vez mais cuidadosa, interdisciplinar e internacional. Este é o tempo de aceitar e entender as migrações hodiernas como uma verdadeira pro-vocação para a Igreja.

 

Não se pode repensar a pastoral da Igreja sem considerar as consequências dos movimentos migratórios seja pela diminuição da densidade populacional, seja pela necessidade de acolhimento e integração da diversidade que se faz presente, repercutindo-se na vida das paróquias.

 

A Igreja é mãe de todos, dos discípulos de diferentes nações, de oprimidos e opressores, de gente que precisa de conhecer e acolher a misericórdia divina, de ricos e pobres. A Igreja tem filhos próximos, filhos dissidentes, adoptivos e enteados. De todos quer estar próxima e a todos procura anunciar o amor de Deus, procurando promover por onde está e por onde passa verdadeiras relações de fraternidade.

 

A Igreja, por proceder de um mandato missionário – «Ide e fazei discípulos de todas as nações» –, experimenta em si a responsabilidade nobre e a difícil tarefa de descobrir, iluminar, resgatar sentimentos e gestos de humanidade que cada cultura encerra.

 

«Jesus Cristo é o Evangelho e o evangelizador por excelência», como nos recorda o Papa Francisco. E é à luz deste Cristo, que se quis identificar com os mais pobres e vulneráveis, nomeadamente o migrante ou refugiado, que se impõe ler os últimos acontecimentos, que parecem invadir a comunicação social e fazem temer a banalização.

 

Atenção aos migrantes

Desde que o Papa Francisco ousou ir a Lampedusa, despertou o mundo para uma realidade que não mais pudemos ignorar. O sacrário da nossa consciência foi de tal forma interpelado, que não mais pudemos ficar indiferentes, ainda que sejamos tentados a não tocar a miséria e as dores que deambulam entre cenários de vida e de morte, num enredo que envolve muito mais actores do que os resgatados, que importa proteger.

 

A migração, por ter uma dimensão transnacional, exige uma resposta coordenada, em que sobressaia a dimensão humanitária, que reivindique acções concertadas nas políticas internacionais e transversais aos países de origem, trânsito e destino, das forças policiais e judiciais, de sensibilização da opinião pública dos diversos Estados envolvidos. Isso passa pela capacidade de diálogo e cooperação, tendo como premissas os princípios da Doutrina Social da Igreja que lembra a centralidade da dignidade da pessoa humana e o seu desenvolvimento integral, o destino universal dos bens, a solidariedade, promoção dos direitos e dos deveres, o bem comum e o direito a um trabalho digno e estável.

 

As vítimas das diversas fronteiras marítimas e terrestres são, apenas, porta-vozes que denunciam cenários de guerra, conflitos armados, violência, criminalidade e terrorismo, desigualdades sociais, corrupções de diversa ordem, pobreza, exclusão social, escassez ou inexistentes oportunidades de emprego, fome...

 

As vítimas e os resgatados reclamam por uma justiça co-construída, pois apenas fogem e escapam de um panorama de morte, movidos por um impulso natural de sobrevivência. Em termos bíblicos, apenas buscam a tal «terra prometida» onde emane leite e mel, haja prosperidade e paz.

 

A Igreja pede a cada cristão que seja construtor responsável da sociedade terrena, o que implica conversão pessoal e comunitária. Nestas pessoas, que chegam por via marítima, encontramos o próprio Jesus que se aproxima, e batendo às portas da Europa, nos interpela: «Olha que Eu estou à porta e bato...» (Ap 3, 20a).

 

E este Jesus que se identifica com o migrante, refugiado, o estrangeiro fica retido/confinado ao local que o país de trânsito ou destino determina, nas condições que se criam ou improvisam, na esperança de um acolhimento que seja mais hospitaleiro e que possa reflectir uma solidariedade genuína...

 

Os migrantes e os refugiados são aqueles pobres desprovidos de tudo que invertem o sentido da caridade tradicional; são eles que vêm ao nosso encontro, não segundo a nossa vontade ou disponibilidade, mas segundo as suas legítimas necessidades. São aqueles que nos recordam que, por sermos humanos e vivermos em tempos incertos, cada um de nós, inesperadamente, pode cair numa situação de vulnerabilidade territorial e ficar desprovido de bens materiais, de família. Mas, ainda assim, transportar a dignidade pessoal, a fé, a esperança e o sonho de uma vida, que apesar das diferenças culturais, procura ser reconhecido, na sua origem filial e humana através de um olhar fraterno, ser escutado numa presença fatigada e ser acolhido: «Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, Eu entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo» (Ap 3, 20b).

 

Os primeiros a abrirem a porta, ou melhor, a deixá-la entreaberta, são os que não se podem furtar ao imperativo de salvamento a que o código do mar obriga. Ainda assim, migrantes e refugiados ficam à porta nos países de fronteira. Os países do Sul que desesperadamente apelam à solidariedade de outros países para que a União Europeia e outros países da Europa possam passar do acolhimento de emergência à hospitalidade, em sentido bíblico.

(Eugénia Quaresma - Directora Nacional da Obra Católica das Migrações)



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