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Vaticano: Comida, água e terra para todos
15 de Junho de 2015

A sensibilidade do papa Francisco aos temas que se referem às grandes questões sociais é mais do que evidente desde o início do seu pontificado. Não existe um tema nesta área que não suscite nele gestos, palavras e acções concretas que estão à vista de todos. E os ‘media’ têm-lhe dado grande cobertura. É o caso da sua mensagem por ocasião da 39ª Conferência da FAO. O papa fala de comida, de água e de terra para todos e pede que se ponha a solidariedade ao centro das relações internacionais. O pontífice recorda ainda de que a sobriedade não se opõe ao desenvolvimento.

 

A publicação da encíclica do papa Francisco sobre a ecologia já tem uma data marcada. No dia 18 de Junho, a nova encíclica «Laudato si» (Louvado sejas), sobre o cuidado da casa comum, citando o cântico de Francisco de Assis, será apresentada por três personalidades: o cardeal Peter Appiah Turkson, Giovanni Ziziolulas, representante do Patriarcado Ortodoxo de Constantinopla, e John Schellenhuber, fundador e director do ‘Postdam Institute for Climate Impact Reserch’.

 

A notícia não surpreende, pois foi anunciada com muita antecedência. Mas, desde logo, levantou uma série de reacções, quase todas positivas e cheias de esperança, por causa da simpatia de que goza o papa, sobretudo no que se refere aos seus argumentos relacionados com os grandes problemas da actualidade.

 

Neste contexto, vem o discurso do papa, pronunciado na quinta-feira, 11 de Junho, aos participantes da 39ª Conferência da FAO. O pontífice iniciou com uma afirmação de fundo: “Diante da miséria de muitos dos nossos irmãos e irmãs, às vezes, penso que o tema da fome e do desenvolvimento agrícola se converteram, hoje, num dos tantos problemas deste tempo de crise.” Um tema perante o qual, continua, “em vez de actuar, preferimos delegar, e delegar a todos os níveis” ou, no pior dos casos, “desertar”.

 

No seu discurso, o papa refere-se também a temas candentes como “os resíduos” e “o uso dos produtos agrícolas, produzidos em grandes quantidades não para a alimentação humana, mas para os animais e a produção de biocombustíveis”. Com a lucidez que caracterizam as intervenções do papa sobre os mais diversos argumentos, também desta vez põe o dedo na ferida. Diz que o problema da fome não depende só das mudanças climáticas. Este problema é decisivo, mas “não podemos esquecer também a especulação financeira: um exemplo são os preços do trigo, do arroz, do milho, da soja, que oscilam nas bolsas, às vezes vinculados a fundos de investimento e, portanto, quanto mais alto for o seu preço mais ganha o fundo”, conclui.

 

Além disso, o bispo de Roma evidencia alguns pontos críticos:

A - Uma resignação genérica, o desinteresse e até a ausência de tantos, incluindo os Estados. Situação que faz pensar que a fome é um tema impopular e um problema que não tem solução.

B - Um segundo ponto crítico é o problema da água “que já é objecto de conflitos, e que previsivelmente virão a aumentar”. Para o papa “não basta afirmar que existe o direito à água, sem se esforçar por lograr um consumo sustentável deste bem e eliminar qualquer esbanjamento”.

C - Segue o assunto do “açambarcamento das terras de cultivo por parte de empresas transnacionais e dos Estados, que não só priva os agricultores de um bem essencial, como também afecta directamente a soberania dos países” e empobrece duplamente as populações locais, pois esta fica sem terra e sem alimentos para comer.

 

O discurso do Santo Padre não se reduz a assinalar problemas ou a denunciar as injustiças inerentes ao tema; mas indica também algumas pistas de solução, que tomadas a sério, podem em boa medida solucionar um tema tão importante. Referimo-nos, por exemplo, à exortação que fez à FAO para que fomente a produção local, evitando a dependência externa; reforce as associações e os projectos a favor das empresas familiares, e estimule os Estados a regularem equitativamente o uso e a propriedade das terras.

 

Em geral, o papa pede para modificarmos os nossos estilos de vida e educarmo-nos a uma correcta dieta alimentar, “convencendo-nos de que os produtos da terra têm um valor que podemos dizer «sacro», já que são o fruto do trabalho quotidiano de pessoas, de famílias, e de comunidades de agricultores”.

 

Fonte: Comboni.org



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