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Europa: Um sonho europeu contra a guerra
6 de Abril de 2016

Somos pessoas comuns – “somos como um grão de areia na balança, como uma gota num balde”, parafraseando o profeta Isaías (40,15) – mas ninguém pode nos impedir de rebelar-nos e dizer não ao acordo sobre os migrantes, de 18 de março passado entre a União Europeia e a Turquia. Muitos homens e mulheres da Europa, acreditamos, partilham a nossa indignação e vergonha. Os chefes de estado e de governo que nos representam decidiram fechar as fronteiras para impedir a entrada de outras pessoas que fogem da guerra no Oriente Médio, que só na Síria causou 4 milhões de refugiados e 7 milhões de deslocados.

 

Já são muitos os que foram recebidos em 2015 – dizem-nos – e só vão aceitar 70 mil. Quem se importa se os requerentes de asilo na Europa são 1 milhão 200 mil para uma população de 550 milhões, uma proporção de dois refugiados por mil habitantes, enquanto o Líbano, com possibilidade de acolhida infinitamente menor acolhe cerca de 1 milhão e meio, um refugiado para 4 habitantes.

 

Europa acusa as vítimas: que pagam o preço dos conflitos que não provocaram. Nenhuma autocrítica. Nem a UE se atreve a criticar as potências internacionais com as quais é aliada, os Estados Unidos em primeiro lugar, que continuam a alimentar estas guerras. E nem uma palavra sobre a corrida armamentista dos países do Golfo: no período 2010-2015, Arábia Saudita, Emirados Árabes, Bahrein, Kuwait e Qatar importaram armas convencionais por mais de 21 bilhões de dólares. E nós sabemos o porquê. Os fornecedores em ordem decrescente são os Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Espanha, Itália e Alemanha. Bombas italianas foram comprados pela Arábia Saudita e utilizadas pela aviação para bombardear o Iêmen, em contradição com a lei 185 que proíbe a exportação de armas para países em guerra, como foi recentemente denunciado pelas associações para a paz.

 

Segundo o acordo entre Bruxelas e Ancara, a Grécia terá de “repatriar” para a Turquia todos os migrantes que chegaram ilegalmente em suas margens, incluindo sírios que teriam o direito de asilo. Para cada sírio que entrou ilegalmente e enviado de volta para a Turquia, a Europa compromete-se a admitir outro sírio, presente nos campos de refugiados turcos, que tenha pedido regular de asilo.

 

Quantos mentiras estão por trás de palavras politicamente corretas. Fala-se de repatriação, ou seja, retorno ao país de origem. Mas não é assim, porque a Turquia não é o país de origem dos sírios e de outros refugiados que chegaram às costas europeias. Falam sobre irregulares. Irregular, em vez é a guerra e não quem escapa para evitar ser morto.

 

Ainda conforme o acordo, não têm direito de asilo os migrantes econômicos que serão enviados da Turquia a seus países de origem. Da noite para o dia, Bruxelas, em fevereiro passado, decidiu classificar como migrantes econômicos os afegãos, que são cerca de um quarto de um milhão e mais de pessoas que chegaram na Europa em 2015. Deve ser de má fé para não ver que não se deixa o Afeganistão simplesmente para melhorar suas condições econômicas. A guerra começada em 2001 pelos EUA e pela NATO semeou morte e destruição e não se pode dizer que está concluída apenas porque os EUA começaram em 2014 a retirada de suas tropas. No Afeganistão continua um clima de insegurança e violência generalizada, e não existem condições para a esperança de um futuro pacífico.

 

Enquanto isso, o terrorismo continua a atacar também na Europa como evidenciam os ataques sangrentos de 22 de Março, em Bruxelas. O desespero, combinado com fanatismo, é uma mistura explosiva. É uma reação que também pode desencadear no coração de refugiados a quem foi negado o direito de asilo e são forçados a voltar para trás depois de ter gastado tudo na viagem que os trouxe para a Europa no meio de dificuldades e com risco para a própria vida.

 

A negação de um direito e a recusa da acolhida são uma violência que chama mais violência nas pessoas que não têm nada a perder. Tudo isso não escapa aos movimentos terroristas que sabem onde atrair novos seguidores. E para se proteger do terrorismo, ataques suicidas e dos carros-bomba não são suficientes a repressão e os serviços de inteligência.

 

O caminho mais difícil, porém mais eficaz, passa através do respeito do direito de asilo, da solidariedade e inteligência política. E requer o compromisso de todos, a partir dos nossos líderes na Europa, em favor da paz, na busca de uma verdadeira negociação entre as partes em conflito, pondo fim à corrida armamentista dos países em guerra, e facilitando uma política de transformação da indústria bélica para a civil. Um projeto e um sonho para os quais vale a pena investir.

 

Nigrizia – Abril de 2016



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