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Brasil: É responsabilidade do cristão devolver dignidade à política
8 de Março de 2016

“O cristão entra na Política sem nenhum outro interesse a não ser o compromisso com a autêntica felicidade do ser humano”, escreve o padre Saverio Paolillo, comboniano a trabalhar no Brasil, há vários anos.

 

Na sua reflexão, o missionário cita um breve texto de uma homilia do Beato dom Óscar Romero, cuja memória celebraremos no próximo dia 24 de Março: “Não importam à Igreja os interesses políticos ou económicos, a não ser enquanto estes têm relação com o ser humano, para fazê-lo mais humano e para não levá-lo a ser idólatra do dinheiro, idólatra do poder; ou, partindo do poder, fazê-lo opressor; ou, partindo do dinheiro, fazê-lo marginalizado. O que interessa à Igreja é que estes bens que Deus colocou nas mãos dos seres humanos – a política, a matéria, o dinheiro, os bens – sirvam para que o ser humano realize a sua vocação.”

 

Reflexão

Uma das maiores preocupações dos últimos tempos é a desafeição pela política, sobretudo nas novas gerações. Abundam as razões. Destaca-se a baixaria de uma parcela significativa dos políticos que há décadas vêm proporcionando um triste espetáculo de falcatruas sem precedentes. Não faltam aqueles e aquelas que ainda fazem de seus mandatos um serviço à população.

 

Infelizmente, seu compromisso em favor do bem comum acaba submerso pelo tsunami de lama que brota o tempo todo de politiqueiros cafajestes que se servem do mandato recebido para fazer seus interesses. Através de uma maquiagem sofisticada, ardilosamente planejada por marqueteiros sedentos de dinheiro, os protagonistas da politicagem transmitem uma imagem de cordeiros, mas, no fundo, não passam de lobos que fazem aliança até com o diabo para alcançarem seus perversos objetivos e se enriquecerem ás custas do povo.

 

É desse desmando de boa parcela da classe política que surge o desânimo ao qual segue um perigoso desinteresse pela política por parte dos cidadãos e cidadãs que ainda têm caráter e alicerçam suas vidas na ética. Há um forte medo de se sujar, pois a sensação que prevalece é que o único caminho para ganhar as eleições e se manter no poder é aquele da ilegalidade. Afinal, impõe-se uma perigosa conclusão: para fazer política, precisa renunciar à ética e, visto que, graças a Deus, a ética é irrenunciável, desiste-se da política.

 

É aqui que mora o perigo. Inclusive essa é justamente a vontade da classe política que não presta: eliminar quem persiste em querer reatar a relação entre ética e política.

 

A postura do cristão deve ser outra. Apesar de tudo o que está acontecendo, ele não pode desistir da política. Não pode cair na tentação de se isolar, de se fechar num “emsimesmismo solitário e insolidário” para cuidar somente de seus afazeres em detrimento de uma atuação social e solidária. O individualismo egoístico, o descuido com a vida em todas suas manifestações, a insensibilidade diante do sofrimento dos outros e o desinteresse pela coisa pública são posturas contrárias à natureza humana que é ontologicamente política, ainda mais para o cristão que acredita que, por ser criado à imagem e semelhança de Deus, é substancialmente um ser comunitário que se realiza no convívio solidário com os outros.

 

A fé é incompatível com neutralidade e indiferença. Exige engajamento. A fé não combina com manipulação das consciências e distorção da realidade. Exige verdade. A fé não tolera projetos que desumanizam e oprimem. Exige vida plena para todos. A fé rejeita compromisso com a idolatria do mercado irrestrito, que exige sacrifícios humanos e veta qualquer priorização de metas sociais. Exige conversão e adesão plena ao projeto de Jesus que tem seu principal manifesto nas bem-aventuranças. A fé não tem nada a ver com a insensibilidade diante do clamor dos mais pobres. Exige compaixão e a busca de caminhos de libertação. A espiritualidade cristã não tem nada a ver com espiritualismo, mas é um estilo de vida que se concretiza na colaboração entre as pessoas para a construção de um projeto de sociedade que humanize e promova a vida.

 

No lugar de desistir da política, portanto, é hora de se engajar na política para reabilitá-la e devolver-lhe dignidade comunicando a verdade, lutando pela justiça, promovendo o bem comum, defendendo os direitos humanos dos pobres e transformando a realidade para que se torne cada vez mais parecida com o projeto de Deus.

 

O cristão tem a obrigação de se envolver na política não para fazer carreira política, mas como serviço humanizador que afronta de forma intransigente e inegociável qualquer projeto político prepotente e excludente, corrupto e corruptor, desumanizador e opressor. O cristão se engaja na política como resposta a uma vocação motivada pela busca incansável do bem comum, pelo amparo à vida, pela opção preferencial pelos pobres, pela defesa e promoção dos direitos humanos, pela participação democrática e cidadã e pelo incentivo ao protagonismo. O cristão assume suas responsabilidades políticas porque, como ensina a Doutrina Social da Igreja, quando a Política é alicerçada na justiça e na ética, é a mais perfeita forma de amor evangélico. O cristão entra na Política sem nenhum outro interesse a não a exigência de compromisso com a autêntica felicidade do ser humano.

 

Como disse o Beato dom Óscar Romero, cuja memória celebraremos no próximo dia 24 de março, “Não interessam à Igreja os interesses políticos ou econômicos, a não ser enquanto têm relação com o ser humano, para fazê-lo mais humano e para não levá-lo a ser idólatra do dinheiro, idólatra do poder; ou, partindo do poder, fazê-lo opressor; ou, partindo do dinheiro, fazê-lo marginalizado. O que interessa à Igreja é que estes bens que Deus colocou nas mãos dos seres humanos – a política, a matéria, o dinheiro, os bens – sirvam para que o ser humano realize a sua vocação” (Homilia de D. Romero, 17 de julho de 1977).

 

Padre Saverio Paolillo, comboniano

Pastoral do Menor e Pastoral Carcerária

Centro de Direitos Humanos dom Óscar Romero – Paraíba



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